Passos N.172, Agosto 2015

A pergunta de fundo

Há poucas semanas pudemos acompanhar a viagem do Papa Francisco à América Latina. Os países visitados foram Equador, Bolívia e Paraguai, e nestes locais o Papa confirmou a vitalidade do catolicismo do Continente. Em uma série de encontros “pouco formais”, inclusive a visita inesperada à Clínica San Rafael, guiada por padre Aldo Trento, em Assunção, Francisco parece ter recarregado as baterias, arriscando-se, como sempre repete, a “sair”.
Seus discursos ainda precisam ser lidos e relidos, pois trazem uma novidade para a qual abrir o coração. E é preciso pedir essa simplicidade para acolher o novo, como fazem as crinças.

Vivemos, hoje, um momento desafiador. Há um clima sombrio ao nosso redor, feito de problemas que desafiam todos, como por exemplo os escândalos de corrupção no país, a perseguição aos cristãos no Oriente Médio e a crise grega. Enfrentamos discussões sobre alguns fundamentos da vida social. A família, em primeiro lugar. E os assim chamados “novos direitos”. E certas evidências parecem desmoronar. No entanto, olhando bem, não há questão que não remeta ao drama colocado pelo Papa naquele parágrafo da Laudato si’: “Para que trabalhamos e lutamos?”. Que tipo de ajuda podemos dar ao mundo, a nós mesmos, aos nossos filhos?

Abre-se, aí, uma questão decisiva. Porque a primeira reação, inevitável, é pensar que a contribuição esteja totalmente naquilo que podemos fazer. Na análise, na tomada de iniciativas, na nossa movimentação. E são todas coisas úteis, que nos fariam falta. No entanto, não bastam. Entendemos bem isso quando acontecem fatos que nos deslocam, para abrir uma outra perspectiva. Atenção: não um outro caminho, alternativo. Mas uma perspectiva mais aguda, mais profunda.
Nos últimos dias, muitos de nós viram – ou reviram – um vídeo impressionante. Sobre uma menina de dez anos refugiada de Qaraqosh, Iraque, depois da chegada da ISIS. Chama-se Myriam. Vive em um campo de refugiados. Não tem mais nada: casa, escola, amigos. Nada. Não pode fazer nada. Mas vive algo que muda tudo. Os terroristas? “Só peço a Deus que os perdoe”. Voltar para casa? “Se Deus quiser. Não aquilo que nós queremos, mas aquilo que Deus quer, porque Ele sabe”. A dor? “Mesmo que aqui estejamos sofrendo, Ele nos dá aquilo de que precisamos”. E diz isso sorrindo. Mais ainda, cantando. Então, talvez olhar para essa menina comece a responder às perguntas do Papa. Vê-la (o vídeo está no YouTube), perguntar-se de onde vem uma fé assim, o que gera um eu tão potente (aos dez anos!) a ponto de viver e sorrir e não se desesperar mesmo quando tudo lhe é tirado do modo mais violento, pode nos ajudar a perceber, a entender o que os cristãos estão fazendo no mundo.

Neste número de Passos vocês encontrarão alguns exemplos. E muda pouco o fato de serem coisas que aconteceram em Aleppo, nos corredores de um hospital inglês ou entre as paredes de nossas casas. São fatos que, em sua simplicidade, mostram o que é o cristianismo, o que ele leva em um mundo onde tudo desmorona. Em suma, dizem “porque esta terra precisa de nós”: para poder começar, sempre. Para poder viver.