A "indigência" que nos dá esperança

Zenit.org

Pizzaballa, Scholz e Guarnieri fazem um balanço do último Meeting de Rimini e lançam um olhar sobre a próxima edição

O poder da esperança foi o tema da reunião sobre o próximo Meeting da Amizade entre os Povos, programado para a Riminifiera de 20 a 26 de agosto de 2015.

Como de costume, aconteceu em Roma uma reunião, algumas semanas antes do Natal, para o balanço da edição anterior e organização do programa para o próximo.
Na sede da Confagricoltura, introduzida por Roberto Fontolan, diretor do Centro Internacional de Comunhão e Libertação, ontem à noite, apresentaram-se o Padre Pierbattista Pizzaballa, Custódio da Terra Santa, Bernard Scholz, Presidente da Compagnia delle Opere, e Emilia Guarnieri, presidente da Fundação Meeting de Rimini.

Em um mundo ameaçado pela guerra e pela crise econômica, falar de esperança não é uma provocação e tem sentido mesmo quando "não há solução", disse Fontolan na abertura do debate.

Responsável por dois importantes encontros no último Meeting, Pe. Pizzaballa ressaltou que no Oriente Médio, o problema principal não é a falta de paz, mas a ''barbárie das relações sociais", o "sentimento de frustração e de abandono" e o clima geral de desconfiança entre os grupos nacionais e religiosos.

Nos países em guerra, disse o custódio, quase todos os serviços públicos, das escolas ao transporte, são inacessíveis e não há um dia em que você tem certeza que poderá fazer um simples telefonema.
No entanto, neste cenário que parece evocar o "fim da civilização", há um mundo que resiste e ao mal, sobrepondo a tenacidade da esperança. A este respeito, o Pe. Pizzaballa contou sobre um retiro espiritual realizado recentemente em Aleppo, do qual participaram mais de mil jovens, que enfrentaram os perigos da guerra civil, pagando do próprio bolso a viagem, a hospedagem e a alimentação.
Apesar do êxodo de cristãos daquelas regiões ter proporções bíblicas, apesar da destruição das igrejas e outros símbolos cristãos, apesar do sumiço de vinhos para impedir a celebração da Eucaristia, há aqueles que não se entregam e não querem renunciar aos sacramentos e as Missas.

Em caso de emergência absoluta, como no Oriente Médio, os cristãos se encontram em uma encruzilhada: agir como Barrabás ou como Jesus, ou seja, procurar uma "solução imediata", reagindo de modo não pacífico às injustiças sofridas, ou entregar a Deus e a humanidade o "próprio coração trespassado".

O paradoxo é: "um coração íntegro é um coração partido"; um coração que está em busca da integridade perdida, que continua a se questionar, senão, teria "parado de bater."

A tarefa do cristão é, portanto, "trazer para a humanidade a integridade perdida"; um cristão "não se limita a percorrer a via crucis, mas faz alguma coisa" e vive profundamente a realidade, concluiu Pizzaballa.

Falando sobre a crise econômica, o presidente da Compagnia dele Opere, Bernard Scholz, ressaltou alguns desafios urgentes, ainda pouco discutido, tais como a necessidade de reavaliação do trabalho manual, que não só é importante para um país como a Itália, que sempre teve força no setor manufatureiro, mas que possui uma dignidade impressa pela cultura cristã; ao contrário da atual desmaterialização do trabalho, leva-nos de volta à mentalidade dos gregos antigos que consideravam qualquer forma de trabalho manual como digno de escravos.

Apesar das falhas evidentes do sistema econômico atual, observou Scholz, ainda há uma tendência a considerar de forma maniqueísta a dicotomia entre um capitalismo desregulado e um estatismo assistencialista: dois paradigmas que diferem em tudo, mas têm em comum a falta de responsabilidade do indivíduo, reduzido a um mero "espectador" à mercê, conforme o caso, do Estado ou da "mão invisível" do mercado.

Também no âmbito econômico empresarial, portanto, é necessário "questionar" e "não se abster de decisões corajosas", capazes de trazer mudanças.

A esperança, disse o presidente da Compagnia delle Opere, pode ser encontrada, entre outras coisas, em muitos jovens que demonstram um "realismo muito maior do que alguns adultos que ocupam funções de tomada de decisão importantes". São jovens que vão ao Meeting para ouvir os "protagonistas" da mudança que está por vir.

O tema do próximo Meeting foi apresentado por Emilia Guarnieri, que citou os versos de Mario Luzi que irão inspirar a edição de 2015: " “Di che è mancanza questa mancanza, cuore, che a un tratto ne sei pieno? di che? Rotta la diga t’inonda e ti sommerge la piena della tua indigenza…”.

Há sempre uma lacuna no coração do homem, então, uma "tensão para o preenchimento que nunca passa", a tal ponto que "poderíamos nos tranquilizar, pensando que todos somos 'faltantes'".

Esta condição apresenta-nos outra questão: confiar a Deus a tarefa de preencher essa ‘falta’ e ceder ao "espiritualismo", ou descrever o próprio Deus como "distante" e ceder ao "ceticismo", deixando a "indigência não resolvida".

Luzi chama a atenção para um paradoxo: "é precisamente essa falta - se não banalizarmos com respostas fáceis - que pode se tornar a nossa força. A responsabilidade diante da nossa falta nos coloca em movimento".

Roma, 03 de Dezembro de 2014 (Zenit.org) / por Luca Marcolivio