Democracia na universidade católica

Folha de São Paulo
Francisco Borba Ribeiro Neto

A "crise" na PUC-SP (Pontifícia Universidade Católica), aparentemente gerada pela indicação, por dom Odilo Scherer, do terceiro nome numa lista de candidatos a reitor elaborada pela comunidade universitária, é reflexo de um fenômeno cultural mais amplo.

Ele se manifesta também nas universidades públicas, como a USP -onde as invasões da reitoria pelos alunos têm sido frequentes.

A democracia não é construída pela força de alguns, ainda que estes se considerem maioria. Nazismo e fascismo tiveram apoio das maiorias, nem por isso foram democráticos.

A democracia depende de poder compartilhado, reconhecimento da dignidade de todos e respeito a normas universais. Nela, poder implica em autonomia, mas também em diálogo e busca do bem comum.

A gestão das grandes universidades brasileiras se rege por um sistema de poder compartilhado, iniciado pela PUC-SP, no qual a comunidade indica uma lista dentro da qual o órgão mantenedor (governo ou fundações) escolhe o reitor.

No caso atual, a comunidade se manifestou por meio da consulta que gerou a lista tríplice, na qual o cardeal escolheu o terceiro nome.

Neste sentido, a escolha -mesmo que não sendo pelo candidato mais votado- não feriu a tradição democrática da PUC. Identidade católica, pluralismo e democracia podem e devem andar juntos, basta haver diálogo e respeito mútuo -e esta é a mensagem central do artigo de dom Odilo publicado na Folha ("Identidade e pluralismo: a missão da PUC-SP", em 7/12).

Por isso, causa espanto o artigo de Vladimir Safatle ("Fé e saber", em 11/12), quando se vale deste episódio para questionar as universidades confessionais no Brasil.

Ele sugere que essas universidades não permitem a liberdade de pensamento e vivem com verbas públicas. Deveria se informar melhor: dinheiro público só entra nestas instituições com projetos de pesquisa ou extensão iguais aos realizados nas universidades públicas ou em programas de bolsas para alunos como o ProUni.

Safatle lembra que a universidade desde o início foi pensada como "um espaço crítico de livre pensar", mas parece esquecer que este espaço nasceu na Idade Média, dentro da Igreja. As primeiras universidades eram todas católicas. Reflexão crítica e identidade cristã estão na essência da universidade católica e não se contrapõem.

Ele teme que nas universidades católicas os professores não possam expressar ideias contrárias às da Igreja. Mas, na história recente, foi na universidade estatal que os professores marxistas ateus foram expulsos, durante a ditadura militar. E foi na PUC-SP que eles foram acolhidos -justamente porque a identidade católica levou a instituição a se posicionar contra o poder e lutar pelo bem comum.

O perigo, então, parece residir no "alinhamento conservador" de Bento 16. Justamente dele, que sempre debateu com intelectuais agnósticos, que chegou a pontos consensuais sobre o que é democracia com Habermas, que reafirmou que a fé não pode deixar de dialogar com a razão, que declarou que os agnósticos com um coração sincero podem estar mais perto de Deus que os fieis por convenção ou oportunismo.

Safatle parece falar de um personagem que ele imagina, mais do que da pessoa concreta, que ele desconhece. Instituições com identidade clara, sejam confessionais ou laicas, não são ameaça à democracia. São condição para uma democracia forte, desde que busquem o bem comum e o diálogo. Essa busca não tem faltado e não vai faltar na PUC-SP.

FRANCISCO BORBA RIBEIRO NETO, 54, sociólogo e biólogo, é coordenador de Projetos do Núcleo Fé e Cultura da PUC-SP

(Folha de São Paulo)