Sobre a invasão da USP: nota dissonante

Forum dos Leitores, Estadão Online
Juliana Perez

Tenho lido as mais diversas notícias, matérias de opinião, blogs, emails de alunos e colegas, manifestos, panfletos distribuídos na Universidade. Todos se colocam em defesa da liberdade e da democracia: os que exigem que a PM saia do campus recordam a ditadura, falam em nome da liberdade de pensamento, pedem a democratização da universidade; os que desejam que a Polícia Militar (PM) fique também defendem a democracia, falam em nome da segurança pública e do Estado Democrático de Direito. Saúdo o desejo de liberdade! Mas creio que a questão seja outra. O flagrante dos estudantes com maconha, o qual deu origem aos conflitos e debates subsequentes, é um episódio manipulado por dois grandes grupos: o dos responsáveis pelo tráfico de drogas, e o dos que podem obter algum ganho político com a confusão. Em outras palavras: os debates sinceros sobre liberdade, justiça e democracia, sempre bem-vindos, estão sendo usados para encobrir interesses mesquinhos. As notas dissonantes dessa canção aparentemente revolucionária são a redução do ambiente acadêmico a palco de lutas políticas, o maniqueísmo dos discursos públicos, a consequente demonização dos que possuem opinião contrária a tais grupos e, como último acorde, o incentivo à agressão verbal e à violência como formas necessárias de "luta". É por escutar essa nota dissonante que, até agora, nada me convenceu a chamar de "protesto" o que foi uma invasão do espaço público, nem de "manifestação estudantil" o que me parece organizado demais para ser espontâneo, nem de "luta" o que me parece manipulação política, nem de "liberdade de expressão" o que é violência. Nada me convence a mudar os termos da questão porque, em cada um episódios dos últimos dias, os conflitos poderiam ter sido evitados. Nenhum dos acontecimentos que se seguiram ao confronto entre estudantes e PM na noite de 27 de outubro possui uma relação causal com aquele episódio agressivo e infeliz, que só posso lamentar. Mas os conflitos subsequentes não foram e não estão sendo evitados porque são orquestrados por lobos em pele de cordeiro: há grupos interessados no embate, os quais incitam à violência utilizando-se de discursos libertários. Ao endurecer sem perder a ternura, tais grupos conquistam a boa vontade de pessoas que, com desejo sincero, colocam-se em defesa da liberdade e da democracia. Não é necessário haver consenso na busca de soluções para problemas - a segurança e o tráfico de drogas - que tocam o cotidiano de mais de oitenta mil pessoas. É esperado que haja propostas de solução diametralmente opostas, é esperado que se discuta muito até que se encontre o melhor caminho, é esperado que temas importantes não sejam discutidos por pessoas gélidas, mas por pessoas que se envolvam emocionalmente e nem sempre consigam evitar exageros, ironias, frases infelizes, comentários impensados. O que não se espera nem se deseja é que a divergência de opiniões torne-se intolerância, que a intolerância se torne agressão verbal, que a agressão verbal se torne agressão física, que esta se torne justificativa de outras ações erradas e alimente o que se costuma chamar de "espiral de violência". Não preciso esconder minha opinião: que a PM continue na USP até quando for necessário para combater o tráfico e para manter a segurança no campus; que seus integrantes sejam devidamente processados e julgados caso cometam abuso de força. Que os estudantes estudem em paz; que sejam devidamente processados e julgados caso firam a lei. O mesmo vale para qualquer cidadão. Que soluções melhores para a segurança do campus sejam encontradas, se as houver. Que sejam feitas discussões públicas sobre democracia, autonomia universitária ou o que se desejar. Separe-se o joio do trigo. E que também questionemos por que o fascínio pela vida e pelo conhecimento, que deveria ser transmitido e alimentado no âmbito acadêmico, é tão facilmente substituído pela atração por substâncias que destroem a vida e o conhecimento. Em tempo: não represento ninguém e ninguém me representa. Assumo a responsabilidade por este texto, e duvido que algum colega ou estudante de opinião contrária a minha se aborreça seriamente, como duvido que algum integrante da PM se importe com as minhas ideias. Mas talvez em breve eu receba "etiquetas" pouco simpáticas e graves censuras de ideólogos radicais. Seja como for: sou livre e desejo que todos sejam. É a música que desejaria ouvir, sem tantas notas agressivamente fora do tom.

Juliana P. Perez, professora de Literatura Alemã do Departamento de Letras Modernas da FFLCH-USP

(Forum dos Leitores - Estadão Online)