A festa e a cruzada

O Estado de São Paulo

de Mario Vargas Llosa
(p.A22 – Internacional /Domingo, 28 de agosto de 2011)

Foi um belo espetáculo Madri sendo invadida por milhares de jovens vindos dos cinco continentes para a Jornada Mundial da Juventude, presidida pelo papa Bento XVI. Durante vários dias, a capital espanhola converteu-se numa autêntica Torre de Babel. Todas as raças, línguas, culturas, tradições, se misturaram numa gigantesca festa de rapazes e moças vindos de todos os cantos do mundo para cantar, dançar, rezar e proclamar sua adesão à Igreja Católica e a sua lealdade ao papa. Salvo as pessoas que, no aeródromo de Cuatro Vientos, desmaiaram por causa do calor, não houve incidentes nem problemas maiores.
Há duas interpretações possíveis desse grande evento. A primeira é a de que o encontro tratou-se de um festival superficial, em que jovens de meio mundo aproveitaram a ocasião para divertir-se, numa experiência intensa, mas passageira. A segunda entendeu o evento como um desmentido das previsões de retração do catolicismo, uma prova de que a Igreja mantém sua vitalidade e a barca de São Pedro enfrenta sem perigo as tempestades que tentam afundá-la.
Uma dessas tormentas tem como cenário a Espanha, onde Roma e o governo Zapatero vêm tendo uma relação tensa nos últimos anos. Por isso, não é casual o fato de Bento XVI ter ido diversas vezes ao país - duas delas já no seu pontificado. A "Espanha católica" não é a mesma. As estatísticas são claras: em julho de 2010,80% dos espanhóis se declararam católicos; um ano depois o índice caiu para 70%. Entre os jovens, 51% afirmam ser católicos, mas somente 12% se dizem praticantes. Suas críticas concentram-se sobretudo na oposição da Igreja aos anticoncepcionais, à pílula do dia seguinte, à ordenação de mulheres, ao aborto e ao homossexualismo.
Tenho a impressão que esses dados refletem uma realidade que extrapola a Espanha e é indicativa do que se passa com o catolicismo no resto do mundo. Agora, do meu ponto de vista, esse declínio do número de fiéis católicos, em vez de ser um sintoma da inevitável ruína e extinção da Igreja, é um catalisador da vitalidade e energia que dezenas de milhões de pessoas - o que resta dela- têm demonstrado, sobretudo nos pontificados mais recentes.
É difícil imaginar duas personalidades mais distintas que as dos dois últimos papas. João Paulo II era um líder carismático, um agitador das multidões, um orador extraordinário, um pontífice em que a emoção, a paixão, os sentimentos prevaleciam. Bento XVI é um intelectual, alguém cujo ambiente natural é a biblioteca, a universidade, o salão de conferências. Sua timidez se manifesta de modo claro. Mas essa fragilidade é enganadora, pois ele é provavelmente o papa mais culto e inteligente que a Igreja já teve em muito tempo, um dos raros pontífices cujas encíclicas ou livros até um agnóstico como eu pode ler sem bocejar. Sua trajetória é bastante curiosa. Na juventude foi um defensor da modernização da Igreja e colaborou com o Concilio do Vaticano 2º. Depois, Bento XVI passou a adotar as posições conservadoras de João Paulo II, que mantém até hoje. Provavelmente a razão disso seja a suspeita, ou convicção, de que, se continuasse fazendo as concessões solicitadas pelos fiéis, pastores e teólogos progressistas, a Igreja acabaria se desintegrando por causa de lutas internas e disputas sectárias. O sonho dos católicos progressistas de fazer da Igreja uma instituição democrática não é nada mais que um sonho. Nenhuma igreja poderia ser assim sem renunciar a si mesma e desaparecer. Em todo o caso, deixando de lado o contexto ideológico, fixando-nos unicamente na sua dimensão social e política, a verdade é que, embora tenha perdido fiéis e encolhido, o catolicismo hoje está mais unido, ativo e beligerante do que nos anos em que pareceu prestes a desmoronar.
Isso é bom ou ruim para a cultura da liberdade? Embora o Estado seja laico e mantenha sua independência de todas as igrejas, às quais deve respeitar e permitir que atuem livremente, é bom. Isso porque uma sociedade democrática não pode combater eficazmente seus inimigos se suas instituições não estiverem respaldadas por valores éticos. Durante muito tempo acreditou-se que, com o avanço do conhecimento e da democracia, a religião, essa forma elevada de superstição, iria desaparecer - e a ciência e a cultura a substituiriam. Hoje sabemos que isso foi outra superstição que a realidade aniquilou.
A cultura deixou de ser a resposta que tentou ser no passado para as grandes perguntas feitas pelo ser humano sobre a vida, a morte, o destino, a História. De um lado, ela acabou se transformando num divertimento superficial e inconseqüente e, de outro, num conluio de especialistas incompreensíveis e arrogantes. A cultura não conseguiu substituir a religião nem o conseguirá, salvo para pequenas minorias. A maioria dos seres humanos só encontra aquelas respostas através de uma transcendência que a filosofia, a literatura, a ciência não conseguem justificar. E, por mais que intelectuais tentem nos convencer de que o ateísmo é a única conseqüência lógica e racional do conhecimento, a noção da morte ainda será algo intolerável para o ser humano, que continuará encontrando na fé a esperança de uma vida após a morte, à que nunca pode renunciar.
Crentes e não crentes, devemos nos alegrar com o evento de Madri e aqueles dias em que Deus parecia existir, o catolicismo parecia ser a única e verdadeira religião e todos nós, como bons meninos, fomos conduzidos pela mão do papa ao reino dos céus.

(Tradução de Terezinha Martino)