O que o cinema conta sobre a família?

"Por uma vida melhor" e "Em um mundo melhor". Dois filmes que retratam paternidades falhas, ausências de pais, necessidade de figuras adultas. Não um modelo de valores tradicionais, mas uma imagem daquilo que realmente constrói uma unidade
Luca Marcora

Em 2012, por ocasião do VII Encontro mundial das famílias, a Diocese de Milão e o Pontifício Conselho para a família propuseram a projeção de uma série de filmes como momento de aprofundamento e debate. Obras quase sempre problemáticas, que suscitaram reações também abertamente negativas: “Este filme não fala de família: aquela representada não pode ser proposta come modelo de família!”, foi uma objeção com a qual foi necessário frequentemente confrontar-se nos debates.

Certamente a visão daqueles filmes não queria indicar um preciso modelo a ser imitado, mas antes, mostrar um dado de fato: que hoje a identidade da família está dramaticamente em crise. E o cinema, com o seu olhar sobre o real, não podia deixar de captar esta profunda mutação da sociedade. O que contam aqueles filmes e por que é útil vê-los? Por ocasião do Sínodo sobre a família que está sendo realizado de 5 a 19 de outubro, propomos dois filmes, para serem interpretados tendo no coração o apelo do Papa Francisco para ir em direção às periferias do mundo e da existência.

Por uma vida melhor (Away We Go, EUA 2009), dirigido por aquele Sam Mendes que em 2000, com American Beauty, havia destruído a família média americana, apresenta a história de um casal desajustado às voltas com uma gravidez inesperada. John (Burt Farlander) e Maya (Verona De Tessant) iniciam uma viagem à procura do lugar melhor onde poder criar a sua menina, encontrando, porém, somente situações definitivamente grotescas. Inicialmente não são acolhidos pelos pais dele porque estão prestes a partir para uma viagem à Europa muito longamente adiada, um capricho evidentemente mais importante do que o nascimento da neta. Não haverá melhor resultado com os encontros sucessivos: entre casais mais ou menos abertos, mais ou menos aparentemente felizes, se é que não estão já estourados, os dois protagonistas são obrigados a perguntar-se que significa dar a vida a uma nova criatura que deverão criar e educar juntos, em um mundo que parece, ao contrário, habitado só por pessoas imaturas.

Em um mundo melhor (Hævnen, Dinamarca/Suécia 2010) de Susanne Bier conta a difícil adolescência de Christian (William Johnk Nielsen), que vive um relacionamento tenso e conflitante com o pai, julgado como responsável pela morte prematura da mãe, e de Elias (Markus Rygaard) filho de um “médico sem fronteiras”, sempre empenhado no exterior, que está prestes a separar-se da esposa. Duas solidões que se encontram em uma amizade dramática, na qual o vazio educativo deixado pelos adultos fará explodir a dor e a raiva dos meninos abandonados a si mesmos.

Estes dois filmes, dois exemplos entre muitos outros possíveis, certamente não falam da “família modelo” ou de seus valores tradicionais. Dizem, ao invés, de uma dificuldade grave a definir lhe a identidade: que é uma família? Ao redor de que é possível construi-la?

Em Por uma vida melhor emerge entre os protagonistas o desejo de uma unidade, certamente com perfil indefinido, que porém se traduz na necessidade concreta de um espaço, de um lugar físico feito por pessoas com as quais poder construir esta unidade. Já Em um mundo melhor conta os vazios que afligem estes lugares com demasiada frequência: a paternidade falha, a ausência dramática dos pais revelam a necessidade urgente de figuras realmente adultas e dotadas de autoridade, capazes de gerar esse lugar no qual uma família pode nascer e cumprir o seu papel educativo.

Escreveu o Papa Francisco em sua mensagem ao Meeting de Rimini 2014: “Um mundo em tão rápida transformação pede aos cristãos que estejam disponíveis a procurar formas ou modos para comunicar com linguagem compreensível a novidade perene do Cristianismo. Também nisto é preciso ser realistas. “Muitas vezes é melhor diminuir o ritmo, pôr de parte a ansiedade para olhar nos olhos e escutar, ou renunciar às urgências para acompanhar quem ficou caído à beira do caminho”“. Eis o valor de filmes como estes.

O cinema conta a realidade de nosso tempo, registrando a crise de identidade do homem moderno, contudo não faltam as sugestões positivas, embora pequenas e frágeis, sobre as quais é possível partir novamente para construir alguma coisa. Partindo propriamente destas perguntas que acabamos de mencionar é possível começar aquele diálogo desejado pelo Papa para anunciar ao mundo a grande novidade do fato cristão.