O Cardeal Angelo Scola participa do evento.

Boas razões para construir

Que motivos temos para vivermos em comum? O EncuentroMadrid levantou essa questão, com convidados e temas que durante quatro dias se confrontaram com a atualidade
María Serrano

“Nada é mais pertinente para construir a cidade de todos do que fazer experiência do nosso eu autêntico”, diz o comunicado que conclui a XI edição do EncuentroMadrid, evento cultural realizado de 4 a 6 de abril na capital espanhola. O concerto de piano que ofereceu Marcelo Cesena no sábado à noite, intitulado “A nota dominante. O coração e o destino”, chamou a atenção para isso. E as centenas de participantes que tinham ido ao Teatro Auditório da Casa de Campo fizeram experiência do “Eu”, daquele coração que, como no prelúdio de Chopin interpretado pelo pianista brasileiro, bate do primeiro ao último dia, transformando-se “na obra mais maravilhosa criada por Deus”, como Marcelo afirmou.
Este ano, o EncuentroMadrid procurou dar uma resposta a um questionamento que, diante dos tempos convulsivos que se vive em todo o mundo, tornou-se mais interessante do que nunca: é possível viver em comum? Que motivos temos para fazê-lo? O Cardeal Arcebispo de Milão, Angelo Scola, teve a tarefa de abrir o caminho para dar uma resposta: “Estamos diante de um dilema. O homem pós-moderno é um pugilista ‘golpeado’, desequilibra-se, mas se mantém de pé. Queremos nos concentrar sobre o nosso esforço pessoal ou viver um relacionamento com o outro?”. Scola aprofundou o problema do individualismo atual e a necessidade de sua superação por meio do testemunho, que é “um conhecimento adequado da realidade que, como dizia São Tomás, se traduz em comunicação da verdade”.
O melhor exemplo desse testemunho foi dado pelo próprio Cardeal que se comoveu lembrando suas visitas pastorais enquanto era Patriarca de Veneza: “O relato é a consequência da força do testemunho; a força da narração está no ‘nós’, no eu em relação. Este ‘nós’ é, claramente, um bem comum. Não podemos mais viver juntos de um modo mecânico: a vida em comum deve ser escolhida como um bem político e ser sustentada pela realidade social”.
Scola afirmou que não gosta de falar de crise, mas de “dores de um parto em vista de um novo nascimento”, cujo objetivo é uma nova forma de vida comunitária mais conforme à natureza do homem. Diante das ideologias e do desencanto político, “é necessário construir juntos, como exprime a iniciativa cultural EncuentroMadrid. Na vida política, não basta o bom exemplo. É necessário colocar em jogo a vitalidade da qual pode nascer um novo modo de fazer política. É necessário pensar a vida da sociedade e a vida dos partidos de um modo equilibrado, permitindo que a primeira dê uma nova direção à segunda”.

Adultos em campo. A escolha do título “Boas razões para a vida em comum” partiu de um artigo de Julián Carrón, presidente da Fraternidade de Comunhão e Libertação, onde há uma afirmação provocadora, dentro do atual contexto social e cultural: “O outro é um bem”. Isso implica afirmar a necessidade de uma convivência que está acima das diferenças, significa afirmar o bem que comporta o viver junto com outros e a necessidade, para todos, dessa categoria. No entanto, a melhor explicação possível do título, do que é o EncuentroMadrid, é fazer realmente experiência dessa vida juntos, dessa “vida em comum”. E foi exatamente isso o que aconteceu nesses quatro dias durante os quais pudemos constatar que o diálogo rompe os esquemas, vence as diferenças e abre a razão. Escutamos políticos, intelectuais, jornalistas, protagonistas do cenário internacional, jovens que até pouco tempo consideravam suas vidas perdidas, musicistas, chefs famosos... E todos testemunharam – com aquele “testemunho integral” do qual falava Scola – que quando se parte das exigências irredutíveis do coração, “cada um compreende a apaixonante promessa e a fecundidade, normalmente negligenciada, que tem dentro de si”, como disse Rafael Gerez, presidente do EncuentroMadrid.
Pensamentos compartilhados por Franco Nembrini, diretor da escola italiana La Traccia: “Deus cria continuamente os nossos corações e os dos nossos filhos, coloca continuamente o universo diante dos nossos olhos e nos permite buscar e perseguir o bem e a beleza”. Junto com José María Alvira, secretário geral de Escuelas Católicas, foi relator do encontro “Tempo de Educar”, no qual ambos procuraram evidenciar que a crise que se vive hoje é também uma crise educativa. “A juventude foi criada igual às gerações precedentes, com o mesmo coração e o mesmo desejo de certeza”, sublinhou Nembrini. Contudo, a percepção disso por parte dos alunos deve ser um gesto livre: “O fato de um jovem saber que o adulto que o educa estará sempre ali, lhe garante a possibilidade de voltar sempre, e livremente, porque a liberdade é essencial para o homem. Diante da sua liberdade, até Deus se detém”. Alvira também falou sobre essa companhia e descreveu o educador como “um adulto que está presente e que acompanha, que não substitui o aluno, ou o filho, que o deixa livre, porém consciente de que ele estará sempre ali. É fundamental amar os jovens, e é também essencial amar com paixão aquilo que se faz, a matéria que ensina, porque só assim aquilo que os jovens precisam estudar poderá ter um sentido real para eles”.
O amor e a paixão pelo próprio trabalho foi manifestado por muitas pessoas, que deram um rosto para esse desejo. No encontro inaugural, “Europa: razões para a unidade”, o deputado espanhol Eugenio Nasarre e o senador italiano Mario Mauro recuperaram a paixão pelo projeto comum europeu, uma vez que “um povo sem memória não pode ser livre”, como lembrou Mauro. A partida se desenvolve “entre aqueles que apostam no projeto de construção da Europa e os que o colocam em perigo, começando pelos nacionalistas exasperados”, sublinhou Nasarre. Para os palestrantes, a gratuidade pode se transformar no catalizador de uma nova solidariedade na Europa, pode purificá-la, e é isto o que provoca uma experiência de humanidade.

Florescimento do homem. Outro modo de testemunhar essa nova maneira de viver, essa humanidade mudada, foi trazida pelos Veillers, um movimento cultural francês que quer ser uma resposta à privação da liberdade que tem origem nas polêmicas sociais e políticas dos últimos tempos. Por meio de música, leitura de textos ou testemunhos pessoais, tentam despertar a consciência dos povos. “Graças a essas noites, nos tornamos conscientes de ser um povo e de sermos unidos”, conta Alex Rokvam, estudante de Ciências Políticas em Paris, um dos promotores desses encontros: “A cultura dominante favorece o individualismo; por isso, as nossas propostas são inovadoras e suscitaram tanto interesse, porque são a expressão de um povo. Não precisamos ter medo de exprimir aquilo que somos, mesmo quando o ambiente torna o diálogo difícil. E, depois, cada um pode aceitá-lo ou renunciar a ele”.
“Se o homem não encontra aquilo que responde a essa aspiração, a essa exigência, tudo se torna relativo, tudo é opinável e nada consegue agarrar todo o seu eu, como demonstra a misteriosa letargia e o tédio invencível do nosso tempo”, diz Julián Carrón. Os participantes do EncuentroMadrid procuravam uma resposta, e a procuravam juntos. “O que me faz permanecer aqui hoje é esta companhia, saber que a verdade se encontra no mistério escondido atrás de tudo e que somente sendo acompanhado posso descobri-la”, disse um dos quinhentos voluntários que, todos os anos, tornam possível o evento.
Antes do início das mesas redondas, apresentações e conferências, pessoas de todas as condições trabalham para preparar os encontros. “É outro modo de viver o Encontro, mas posso garantir que é o melhor modo de fazê-lo”, afirma Juan, que há oito anos oferece seu tempo como voluntário. “Como é possível que, não podendo assistir aos encontros que mais me interessavam, eu possa dizer que vivi o EncuentroMadrid da maneira mais intensa?”. Carla, responsável pela comunicação, se emociona com seu trabalho. E, entre trabalho e encontros, há também tempo para se divertir. Um concerto com canções dos Beatles ou as exposições “Irmã Madre Terra” e “O Bem de Todos” foram ocasiões de encontro que se somavam à alegria de um almoço entre amigos ou ao interesse que suscitavam os diversos stands montados na Casa de Campo.
“Rezem por mim, porque isso não é humanamente possível”, pedia Grégoire Ahongbonon, falando das correntes das quais libertou, na África, tantos doentes mentais. Veio ao EncuentroMadrid para pedir ajuda: está cuidando “dos esquecidos dos esquecidos”, aqueles doentes abandonados por todos e dos quais ninguém se lembra. Sua obra, a Associação São Camilo de Lellis, não seria possível sem o encontro com Cristo e, do mesmo modo, o EncuentroMadrid não seria factível sem essa novidade que acontece no presente e que, como pudemos verificar, faz florescer o humano e converte o coração do homem.