Os Suspeitos

Filme de Denis Villeneuve, com Jake Gyllenhaal, Hugh Jackman, Maria Bello, Paul Dano
Antonio Autieri

Numa cidadezinha americana, dois casais de amigos festejam o dia de Ação de Graças com os filhos. As duas meninas das respectivas famílias, a certa altura, saem de casa para brincar: instantes depois, desaparecem no nada. Quem as raptou? As suspeitas recaem principalmente sobre o condutor de um trailer que estacionou ali perto alguns momentos antes; de fato, seu jovem e avoado motorista é detido pela polícia, mas logo depois liberado, por falta de provas. No entanto, enquanto se desencadeia uma angustiante busca, o pai de uma das duas meninas (o incrível Hugh Jackman, num dos seus melhores papéis) está convencido de que o culpado é aquele jovem esquisito, que diante dele deixou escapar uma frase ambígua e suspeita. O detetive encarregado das investigações (um ótimo Jake Gyllenhaal) tem um trabalho danado para fazê-lo raciocinar e para pedir confiança nas investigações, nas quais está seriamente empenhado. Para aquele pai, cada minuto que passa torna mais provável o fim da sua criança. E está disposto a tudo para encontrá-la, não acreditando mais na justiça alheia.
A trama, assim tão drasticamente resumida, pode ser enganosa. E fazer lembrar filmes, inclusive bem feitos, mas previsíveis (como Ransom, “Resgate”, de Ron Howard, com Mel Gibson). No entanto, Os Suspeitos é algo muito diferente, um thriller escuro e angustiante, mas de grandíssima qualidade, com qualidade de autor verdadeiro, como revela a assinatura do diretor canadense Denis Villeneuve, que se tornou conhecido com Incêndios (um filme sobre o dilema entre vingança e perdão no inferno libanês), candidato ao Oscar em 2011. Entre sinais religiosos, preces, sentimentos de culpa e surtos de violência, os personagens se movem atingidos por uma repentina e profunda insegurança. Todos – como sugere o título – prisioneiros, de um sequestro, do próprio ressentimento ou de uma raiva impotente. Esse homem que busca a filha e que já identificou (sem ouvi-lo) o culpado, fundou a sua vida na obsessão (e ilusão) do controle e da segurança, como um refúgio para “qualquer eventualidade”. Sua esposa depositava nele a própria segurança: “Você prometeu que a protegeria de qualquer coisa”. Se o desenvolvimento do drama pode deixar alguma dúvida (um narração mais sintética teria ajudado), impressiona que os tons escuros dessa busca das meninas raptadas sejam o espelho de corações que parecem puros, mas revelam densas trevas. A ponto de chegar a fazer coisas terríveis, “para o bem”. Porque é preciso encontrar um culpado para essa maldita história. Mas é também certo que o mal não é sua prerrogativa exclusiva.

(Tradução do texto retirado do site Il sentieri del cinema)