100 anos de Vinícius de Moraes

No centenário do poeta Vinícius de Moraes, queremos comemorar relembrando três escritos dele em que as marcas são o maravilhamento e a gratidão
Caroline Baptista

No dia 19 de outubro de 1913, nascia Vinícius de Moraes. Poeta carioca que soube contemplar como poucos o charme da cidade e das mulheres. Amores, encontros e desencontros foram retratados em seus poemas e musicados em parceria com grandes músicos como Tom Jobim, Edu Lobo e Baden Powell.
Apelidado como “poetinha”, morreu aos 66 anos em sua casa na Gávea, no dia 8 de julho de 1980. Nós também queremos comemorar a passagem do centenário deste grande artista e por isso relembramos três escritos dele em que as marcas são o maravilhamento e a gratidão.

DIALÉTICA
É claro que a vida é boa
E a alegria, a única indizível emoção
É claro que te acho linda
E em ti bendigo o amor das coisas simples
É claro que te amo
E tenho tudo para ser feliz¬¬
Mas acontece que eu sou triste...

Nada nas pessoas e nas “coisas” deste mundo pode dar a felicidade; contra qualquer lógica, contra qualquer projeto ou sentimento. Esta tristeza é uma ausência. De alguém talvez desconhecido:

IMITAÇÃO DE RILKE
Alguém que me espia do fundo da noite
Com olhos imóveis brilhando na noite
Me quer.

Alguém que me espia do fundo da noite
(Mulher que me ama, perdida na noite?)
Me chama.

Alguém que me espia do fundo da noite
(És tu, Poesia, velando na noite?)
Me quer.

Alguém que me espia do fundo da noite
(Também chega a Morte dos ermos da noite…)
Quem é?

Alguém talvez desconhecido que chega, que acontece, que muda tudo que ama, que é uma presença, uma pessoa. Uma presença, uma pessoa diferente, pela qual se sentir abraçado, compreendido, amado, um milagre de novidade que deslumbra e joga para uma vida que é plenitude.
Como nesta canção de Madalena, que canta o que lhe aconteceu encontrando Jesus.


MARIA MADALENA
Não sei mais o que fazer
Tudo está tão distante,
Meu coração... não posso crer
Só sei que mudei. Como mudei!
Eu sei quem eu não sou, já não entendo nada
Nem pareço comigo
Ele é um homem, é só o que eu sei
Ele é um homem só – e eu já tive mil!
Que diferença faz um só a mais?
Devo disfarçar? Devo reagir?
Lhe falar de amor? Ou me consumir?
Nunca pensei em ficar assim
Que vai ser de mim
Eu ainda fico louca!
Logo eu, quem diria?
Estou aqui para padecer
Eu que nunca fui de me prender
Não é que me prendi?
Eu vou sofrer!
Mas não é isso que Ele diz
Sente outro amor por mim
Tenho que reconhecer
Ele ama a todos assim
Não compreendi, pobre de mim!
Mas eu vou lutar,
Tenho que encontrar
O outro amor em minha vida vai ressurgir
Amor demais! Amo demais!