Bilbo e os anões

O Hobbit Uma Viagem Inesperada

Bilbo, à pedido de Gandalf, une-se à companhia dos anões para libertar a Montanha Solitária do cruel dragão Smaug. Os personagens estão, todo o tempo, diante dos dilemas da liberdade e da fé
Ana Luiza Mahlmeister

Após quase dez anos da trilogia dos filmes “O Senhor dos Anéis”, o diretor Peter Jackson volta à origem da história do “um anel” com “O Hobbit, Uma Jornada Inesperada” (The Hobbit: An Unexpected Journey, EUA, 2012). Escrito 17 anos antes de “O Senhor dos Anéis” pelo escritor católico J. R. R. Tolkien, o pequeno livro de pouco mais de 200 páginas renderá outra trilogia de filmes com o lançamento do último no Natal de 2014.

Para os fãs de Tolkien retornar à Terra Média, agora em terceira dimensão, é um privilégio. O mundo vasto da Terra Média ainda tinha muitos recantos intocados. Peter Jackson continua a desvendá-los com a mesma habilidade e paixão da antes. Acima de tudo, o faz sem esquecer das velhas emoções que a Terra Média sempre carrega consigo.

Neste novo filme, voltamos ao Shire (Bolsão), terra dos hobbits, de Bilbo e Frodo. Conhecemos o corajoso grupo liderado pelo anão Thorin Escudo-de-Carvalho (Richard Armitage), filho de Thráin, filho de Thrór: cada personagem é apresentado a partir da sua descendência, evidenciando a importância da família na obra de Tolkien. O grupo é composto por outros doze anões, incluindo Glóin, pai de Gimli, um importante anão da sociedade do anel, de “O Senhor dos Anéis”. Também integra a companhia nosso velho conhecido Gandalf, o Cinzento, e Bilbo Bolseiro, o hobbit, tio de Frodo.

A história contada em “O Hobbit” acontece na Terra Média, cerca de 60 anos antes dos acontecimentos narrados em “O Senhor dos Anéis”. A história acompanha a jornada de Bilbo Bolseiro (Martin Freeman), levado a uma jornada épica para recuperar o reino perdido de Erebor, pertencente aos anões, agora sob o domínio do terrível dragão Smaug. O mago Gandalf, o Cinzento (Ian McKellen) escolhe o hobbit para unir-se ao grupo de anões pela sua astúcia e por ser quase invisível como um “ladrão”.

Em função desta escolha, Bilbo fará uma viagem por terras traiçoeiras e cheias de criaturas perigosas como trolls e orcs para chegar à Montanha Solitária. Ao passar pelos subterrâneos dos orcs, Bilbo encontra a criatura que vai mudar sua vida para sempre — Gollum (Andy Serkis). Neste lugar claustrofóbico e escuro, a sós com Gollum, às margens de um lago subterrâneo, o despretensioso Bilbo Bolseiro não só descobrirá a astúcia e a coragem como também achará o anel “precioso” que pode mudar o destino da Terra Média – o Um Anel. Por meio de “advinhas” – num trecho fiel ao livro – Bilbo escapa de ser comido por Golum e dos subterrâneos dos orcs reencontrando a companhia dos anões.

São várias as passagens no filme que remetem a “O Senhor dos Anéis”. Aqui, Gandalf entrega a Bilbo a famosa espada “Ferroada” que prenuncia a presença dos orcs ao ficar azulada, e posteriormente será presenteada à Frodo. Ao dar a espada à Bilbo, Gandalf reforça que a vida que será preservada é mais importante que a tirada, mesmo conselho que dará a Frodo, anos depois em “O Senhor dos Anéis”.

Em “O Hobbit” conhecemos mais sobre os Istari, magos como Gandalf, Saruman (Christopher Lee) e Radagast, o Castanho (Sylvester McCoy), que na mitologia de Tolkien são os Maiar, entidades angelicais enviadas para a Terra Média com o objetivo de proteger os povos da ameaça de Sauron.

O mago castanho é responsável por outra conexão importante com a história de “O Senhor dos Anéis”: o princípio do retorno de Sauron. “O Hobbit” aprofunda a história do grande antagonista da Guerra do Anel, que aqui é conhecido como Necromante, enquanto permanece escondido na fortaleza abandonada de Dol Guldur, antigo refúgio do vilão antes de Mordor. Nos próximos filmes teremos mais detalhes sobre Sauron, ele também um Maiar que deveria zelar pela Terra Média, mas caiu nas sombras por causa de suas ambições e sua sede de poder.

“O Hobbit” não tem a complexidade da narrativa de “O Senhor dos Anéis”. Mesmo assim, um olhar educado pela tradição católica não poderá deixar de se maravilhar com as referências à sabedoria cristã. Assim, em uma das cenas de “O Hobbit”, Gandalf confidencia a Galadriel (Kate Blanchet), a rainha elfa que fascina elfos, homens, anões e hobbits, as razões de ter escolhido Bilbo para integrar a companhia dos anões contra o poderoso dragão Smaug: “Saruman acredita que apenas um grande poder pode conter o mal. Eu descobri que são as pequenas coisas, os simples atos de bondade e amor tornam possível manter longe a escuridão. Por que Bilbo Bolseiro? Talvez seja porque eu estou com medo, e ele me dá coragem”. Assim como acontece com Frodo em “O Senhor dos Anéis”, também aqui toda esperança é depositada nos pequeninos.

Todos os personagens estão, todo o tempo, diante dos dilemas da liberdade e da fé. Devem confiar uns nos outros, aceitar um chamado que parece louco aos olhos do mundo, mas que se revela o caminho para que cada um encontre a si próprio e para que o mundo possa atingir seu justo destino. Desde o ínfimo hobbit até os mais sábios elfos e magos da história, todos “perdem a vida” quando tentam seguir sua sabedoria ou valer-se apenas de seu poder e a ganham quando se entregam aos sinais de uma Providência que não é explicitamente citada no filme, mas está presente em toda parte.

Para compor a trilogia de filmes, o diretor Peter Jackson foi além de “O Hobbit” apropriando-se de referências de outros livros de Tolkien como “Silmarillion” e “Contos Inacabados” além de notas posteriores quando o autor finalizou “O Senhor dos Anéis” que completam a origem dos personagens. O resultado para os fãs de “O Senhor dos Anéis” não poderia ser melhor.

“O Hobbit Uma Jornada Inesperada”
Diretor: Peter Jackson
Com: Ian MacKellen, Martin Freeman, Richard Armitage, Christofer Lee, Kate Blanchet, Silvester McCoy.