Carmélia Alves

Vamos ouvir a rainha que se foi

Carmélia Alves, cantora do rádio, partiu no último dia 3 de novembro deixando como legado toda uma história como rainha do baião, título atribuído a ela pelo próprio Luiz Gonzaga
Cezar dos Reis

A morte da cantora Carmélia Alves, no último sábado à noite, 3 de novembro, no Rio de Janeiro, além de mais uma perda para nossa cultura, e um triste acontecimento para quem teve a chance de conhecê-la como artista ou pessoa, é também um fato que "me obriga" e ao mesmo tempo me inspira a uma volta panorâmica pelo passado da história do rádio no Brasil. Meu olhar se volta a episódios de genialidade que fizeram parte daquele cenário, pois, mesmo com sua simplicidade e naturalidade, alguns artistas tiveram iniciativas que acrescentaram grande riqueza a nossa música, assim como reconhecimento internacional ao revelar talentos definitivamente admiráveis.

Carmélia era filha de nordestinos mas nasceu no Rio de Janeiro em 14 de fevereiro de 1923. Nos últimos tempos ela vivia no Retiro dos Artistas, também no Rio de Janeiro. Em 1940 ela participou do programa de calouros de Paulo Gracindo (aquele mesmo! o grande ator).

Ao participar do programa de calouros de Ary Barroso, o mesmo se recusou a considerar válida sua alta pontuação e vitória, alegando que se tratava de artista já profissional experiente, e não uma caloura. Foi necessário comprovar a Ary, com dificuldade, que realmente se tratava de um jovem talento iniciante, mas com qualidades já avançadas como intérprete.

Sua primeira gravação musical aconteceu em 1943. Em 1949 ela grava o seu primeiro baião, ritmo que dominou com extrema espontaneidade, "Me Leva", de Herve Cordovil e Rochinha. Sua maneira alegre e brilhante de interpretar composições com esse ritmo lhe trouxe rapidamente uma notoriedade definitiva. O título de "Rainha do Baião" lhe foi atribuído pelo próprio Luiz Gonzaga.
É nesse ponto que eu considero importante chamar a atenção de todos.

Ao interpretar as composições de Luiz Gonzaga, Carmélia fixou para sempre o respeito e admiração pela figura do nosso Rei do Baião, repercutindo internacionalmente e que hoje, em 2012, está sendo revivida em um filme, com modernos recursos cinematográficos. Por falar em cinema, Carmélia Alves participou também de vários filmes, de 1952 até 1956.

Em 1969, diferenciando um pouco sua trajetória, ela gravou o LP "Bossa Nova". Em 1977, comemoramos os "30 Anos do Baião", com um show ao vivo feito por Carmélia Alves e o próprio Luiz Gonzaga, juntos, gravado ao vivo também em disco.
Devemos a Carmélia também outro descobrimento fantástico quando, em sua estada em Recife nos anos 50, resolveu trazer para o Rio de Janeiro o acordeonista que havia conhecido lá. Após esse feito a evolução e notoriedade do tal músico foi definitiva, a ponto de, futuramente, ao viver nos Estados Unidos, ser chamado de "mestre" pelos grandes músicos de jazz e do cinema da época. Afinal, tratava-se simplesmente de nosso Sivuca, grande gênio, infelizmente muito mais reconhecido e valorizado fora do Brasil. Por último, é interessante também lembrar que Carmélia Alves era inspirada por Carmem Miranda, a ponto de ter sido aceita para substituí-la em seu programa quando a "pequena notável" partiu para os Estados Unidos.

Outro episódio que pode fazer lembrar, ou conhecer, a popularidade alcançada por Carmélia Alves ocorreu após sua gravação da música "Sabiá na Gaiola", cuja quantidade de discos vendidos e encomendados fez com que a gravadora Continental de Buenos Aires abrisse outra filial para conseguir atender a essa demanda.

Uma artista brasileira com esse passado, essa trajetória, essa história... merecia mais atenção de nossa mídia, assim como sua morte também merecia maior repercussão e consideração. Minha amiga Ritinha, que esteve com Carmélia Alves várias vezes nos últimos tempos, como fã e como amiga, não se cansava de convidar as pessoas e chamar a atenção de todos para a riqueza que era poder ter esse contato pessoal com uma lenda viva, representante dos momentos mais importantes, felizes e autênticos de nosso passado musical. De minha parte, confesso que sempre reconheci essa importância, afinal, se tratava da sempre incontestável Rainha do Baião.

Existem ainda disponíveis em CDs, gravações remasterizadas de Carmélia Alves, tanto solo, coletânea, como participando do "AS ETERNAS CANTORAS DO RÁDIO", grupo formado em 1988, com Ellen de Lima, Nora Ney, Zezé Gonzaga, Rosita Gonzales, Violeta Cavalcante e Carmélia Alves. Com essa formação foi feita a gravação de 1991. Em 1998 Rosita, Zezé e Nora sairam do grupo, e em 2000 foi gravado o espetáculo "Estão voltando as flores" que, segundo Ricardo C. Albin, inspirou e gerou um documentário com o mesmo título. Dessa vez o grupo foi composto por Carmélia Alves, Violeta Cavalcante, Ellen de Lima e Carminha Mascarenhas. Considero muito válido apreciá-lo também...

Espero que essa sugestão de audição tenha servido para reavivar a memória de nossos "coroas", despertar alguns jovens para um pouco de nosso rico passado artístico, assim como para homenagear uma figura que trouxe muita alegria às pessoas de uma época em que o talento artístico podia fascinar a todos através de sua simples presença, sem a necessidade de publicidade ou de esquemas artificiais. Que Carmélia Alves esteja agora fazendo os anjos dançarem com seu baião.

Vida longa à Rainha !

Vida longa ao Baião !

Vida longa à Beleza !


Boa audição a todos.

(*) Cezar dos Reis é maestro e professor
cz.maestro@gmail.com