Tudo em um olhar

A Natividade, de Lorenzo Lotto, faz parte do período que o artista passou em Bergamo. Retrata com perfeição os pastores, tornados testemunhas comovidas com aquilo que tem diante dos olhos
Giuseppe Frangi

Sob o teto da cabana de Belém, encontra-se uma multidão. Está Maria e, atrás dela, na penumbra, José. À direita, dois pastores, escoltados por dois anjos, oferecerem os seus donativos ao Menino: um cordeiro, que a criança acaricia com um gesto cheio de ternura. A Natividade é uma obra-prima, assinada e datada em 1530, por Lorenzo Lotto, grande artista veneziano que conheceu o sucesso, no entanto, longe da sua Veneza. Este trabalho faz parte do período longo e feliz de Bergamo, num contexto em que Lotto pôde assimilar uma dimensão do pacato realismo lombardo, capaz de equilibrar as suas inquietações. Roberto Longhi viu neste quadro uma antecipação de uma obra-prima do jovem Caravaggio, “O Descanso na Fuga para o Egito”, hoje conservado na Galeria Doria Pamphili, em Roma. Os jogos precisos e às vezes sofisticados de luzes e sombras são outro elemento que remete inevitavelmente para Caravaggio. Aspecto curioso e importante do realismo de Lotto, são os dois pastores, em que o pintor retratou os dois patrocinadores da obra, os irmãos Gussoni. De fato, sob os rústicos casacos de pano de "pastores", vislumbram-se as roupas elegantes e rebuscadas, próprias da moda daquele tempo. Mas esta pequena vaidade não altera a intensidade comovida dos seus olhares, sérios e totalmente absorvidos pela presença que têm diante de si. Como escreveu um pregador daquele tempo, estão numa pose em tudo semelhante aos "pastores simples e puros." Tinham-se concebido como afortunados espectadores da primeira fila. Em vez disso, descobrem-se testemunhas, tornadas humildes pela verdade humana daquilo que têm diante dos olhos.

Veja aqui os dizeres do Cartaz.