Tropa de Elite 2

O que sacia nossa sede de justiça? Novo filme aborda o problema da violência urbana, apresentando o uso da força e coação para garantir direitos e respeito. Isso basta? O que grita o coração do homem em tal circunstância?
Dimitri Martins e Davi Ribeiro Brazil

Sob novas circunstâncias, certamente mais complexas, o segundo filme da série Tropa de Elite reapresenta os meandros do diálogo entre justiça, legalidade e moralidade. A fonte para o enredo é o conjunto de detalhes que permeiam a “solução institucional” para o problema da violência: para coibir o uso da força por parte dos agentes privados, o ordenamento estatal reserva a si próprio a aplicação exclusiva do próprio mal que visa combater. A coação é elevada, então, à condição de remédio público, preferencialmente preventivo.

Esse tipo de mecanismo pelo qual uma comunidade garante sua própria segurança, há muito consolidado, apresenta ares de consistência até que se preste atenção a um detalhe decisivo: seres morais (portanto, livres) subsistem a qualquer sistema. O fenômeno das milícias, o abuso do poder policial, o banditismo concretizam exatamente um absurdo próprio do exercício de uma liberdade inalienável, que revela o quão tênue é o equilíbrio capaz de garantir a reprodução da paz social. Os acontecimentos recentes no Rio de Janeiro mostram que a realidade pode suplantar a ficção.



A trajetória do tenente-coronel Roberto Nascimento sinaliza que inclusive a “figura de exceção” da narrativa, a personagem pretensamente harmonizadora do caos, teve de experimentar os limites da sua ação interventora: “o sistema dá a mão para não perder o braço”, se renova e se recompõe.

Num cenário destituído de uma alternativa imediata e radical de mudança, à prática desmedida de repressão policial é contraposta a necessidade de respeito aos direitos humanos; se o combate da força pela força não fosse, por sua natureza, uma situação-limite, um desafio à humanidade de cada agente diretamente envolvido, não se configuraria um dilema persuasivo ao longo da película. Durante certos momentos do filme, os conselhos maquiavélicos parecem ter sido acatados de modo exemplar: numa perspectiva político-governamental, a redução da violência aparece resumida a um problema de indicadores estatísticos, ações televisivas e aprovação popular, ou seja, um fator a mais na movimentação da máquina eleitoral. Nesse caso, a observação de Maquiavel é bastante conhecida: para o vulgo, qualquer meio de ação pública receberá elogios em caso de êxito, dado que a massa se concentra sobre o aparente e os resultados imediatos. É sintomática, nesse sentido, a cena na qual o tenente-coronel Nascimento recebe aplausos após sua ação em Bangu I, questionável do ponto de vista procedimental e dos “incômodos” direitos humanos.

De todo modo, esse é um tipo de saída, de postura cínica muito próxima a todos nós; num mundo moderno que nega suas próprias raízes cristãs - como expõe a professora Marta Cartabia na Assembléia Internacional dos Responsáveis de Comunhão e Libertação, em La Thuile - é uma inclinação recorrente de lidar com todas as questões de modo muito abstrato, isto é, nem sempre estamos dispostos a sacrificar nossos esquemas para enxergar o outro como um ser humano. Quando se trata do tema violência, é ainda mais fácil desumanizar o policial, muitas vezes pai de família, e o bandido, merecedor das punições jurídicas, mas também digno de um tratamento honesto. Quem pode, afinal, valorizar todos os elementos em jogo e conferir tratamento adequado a eles? Caso se assuma a própria precariedade diante dessa exigência, é difícil que não nasça um pedido, o de levar adiante, com a ajuda de Cristo, a luta contra a lógica do poder que se instaura no nosso íntimo e se reflete no processo de mortificação da nossa humanidade.

A única possibilidade de fugir do cinismo e do niilismo, que é a grande tentação numa situação dessas, é olhar profundamente e sem medo para o próprio coração, como nos fala o padre Carrón no texto “Feridos, voltamos para Cristo”: “Tudo isso serviu para colocar diante de nossos olhos a natureza da nossa exigência de justiça. É sem confins. Sem fundo. Tanto quanto o é também a profundidade da ferida. Incapaz de ser esgotada tão infinita é.” Os policiais e o governo se encontram diante de um desafio semelhante ao das vítimas, e até mesmo dos bandidos.



Como nos fala ainda Carrón, no mesmo juízo sobre a pedofilia que pode ser aplicado também à situação descrita no filme: “Nada é suficiente para reparar o mal feito. Isto não quer dizer tirar deles a responsabilidade, muito menos a condenação que a justiça poderá lhes impor. Não bastará nem mesmo cumprir toda a pena. Se esta é a situação, a questão ardente – que ninguém pode evitar – é tão simples quanto inexorável: “Quid animo satis?”. O que pode saciar a nossa sede de justiça? Esse ponto chegamos a tocar com a mão toda a nossa incapacidade, genialmente expressa no Brand de Ibsen: “Responde-me, ó Deus, na hora em que a morte me assalta: não é, pois, suficiente toda a vontade de um homem para conseguir uma só parte da salvação?”. Ou, dito com outras palavras: pode toda a vontade do homem conseguir realizar a justiça pela qual ansiamos? Por isso, mesmo aqueles mais exigentes, mais ávidos na pretensão da justiça, não serão leais até o fundo de si mesmos com a sua exigência de justiça, se não enfrentam esta sua incapacidade, que é a de todos? Se isso não acontecesse, sucumbiríamos a uma injustiça ainda mais grave, a um verdadeiro “assassinato” do humano, porque para poder continuar a gritar justiça segundo a nossa medida devemos fazer calar a voz do nosso coração.

É daqui que pode nascer a reconstrução do humano. A única possibilidade de salvar a nossa exigência de justiça é o reconhecimento da sua infinitude, do fato de só poder ser realizada aceitando um “além”, pondo a nossa esperança não na construção de sistemas tão perfeitos no qual ninguém precise ser bom, mas aceitando um fato que é a vinda ao nosso encontro daquele que é o feitor e a medida do nosso coração. Como diz Dom Giussani: “A exigência de justiça é uma pergunta que se identifica com o homem, com a pessoa. Sem a perspectiva de um outro, de uma resposta que está para além das modalidades existenciais experimentáveis, a justiça é impossível... Se fosse eliminada a hipótese de um 'além', aquela exigência seria sufocada artificialmente”.

Cristo é o único que pode responder a nossa exigência de justiça porque torna presente o além no aquém. Como diz o Papa: “Ele mesmo vítima de injustiça e do pecado”. E encerra Carrón: “Apelar a Cristo, portanto, não é buscar um subterfúgio para escapar diante da exigência da justiça, mas é o único modo para realizá-la plenamente”.