A Rede Social

Filme conta a trajetória de Mark Zuckerberg, que em 2003, estudante de Harvard, começa a trabalhar em um novo conceito que acaba se transformando em uma rede social global, o Facebook
Simone Fortunato

Belo filme e roteiro muito bom (escrito por Aaron Sorkin, o idealizador da série de televisão The West Wing [no Brasil, a série recebeu o nome de Jogos de Poder]). Mais do que uma biografia, é uma tragédia shakespeariana que Fincher dirige com o seu estilo sombrio, cheio de personagens ambíguos e contraditórios como muitos personagens do seus filmes – desde Seven até Zodíaco e O curioso caso de Benjamin Button. Estranho que um diretor de thrillers (com exceção de Benjamin Button) tenha se dedicado à aventura, de bastidores dos tribunais, ligada ao nascimento e ao sucesso do site de relacionamentos Facebook. Não é estranho, porém, visto que o filme é uma tragédia obscura ambientada nas faculdades e residências universitárias.

Uma tragédia onde o crime perfeito é cometido por um nerd, incapaz, talvez patologicamente, de se relacionar com o mundo que o circunda. O nerd obviamente é Zuckerberg (cujo intérprete, Jesse Eisenberg, é perfeito no papel), gênio solitário, marcado, ou melhor, obcecado por um desejo de redenção e de vingança contra tudo e todos, a começar pela ex-namorada. Sobretudo, condicionado por um ambiente como o de Harvard, de fato uma faculdade dos horrores e do vazio, segundo o filme, onde só vale quem tem sucesso e onde isso se mede pelo número de amantes.



Porém – e aqui está o que é mais interessante no filme –, Fincher não leva o filme ao moralismo fácil nem o pinta de preto e branco, mas articula uma história, onde vítimas e carrascos coincidem, na qual não condena Zuckerberg, que consegue escapar como um jovem perturbado e infantil, mas também desejoso – e justamente – de um relacionamento significativo para a própria vida. O problema para Zuckerberg e para os outros jovens com os quais o estudante tem algo a ver (inclusive o personagem mais “errado” de todos, Sean Parker, co-fundador de Napster, eterna criança mimada, emotivamente anárquico, que exercerá grande influência sobre ele) é a falta de um juízo sobre o bem e sobre o mal, ou seja, é a falta dos adultos que, no filme, são praticamente ausentes, com exceção do reitor de Harvard, que é obtuso e desatento às exigências dos jovens.

E assim, a gênese de Facebook se dá num cenário de massacre protagonizado por eternos adolescentes e jovens que não cresceram. Caprichosos, egoístas elevados à enésima potência, assassinos (e aqui volta o perfil dos filmes de Fincher) dos outros e de si mesmos, mas frios e incapazes de emoções: mais do que de um capitalismo desviado no qual o American Dream, nobre nas suas origens, se torna uma corrida desesperada para sair do anonimato. Esses jovens são o fruto de um mundo no qual os adultos abandonaram seu dever de educadores, de pontos de referência, de pais. Órfãos com belas ideias que, paradoxalmente, lhes farão ser conhecidos pelo mundo, mas não lhes permitirão conhecer o mundo. Pelo contrário, talvez até os tenham distanciado do mundo para sempre.

* Texto extraído do site Sentieri del Cinema. Traduzido por Paulo R. A. Pacheco.