De volta a casa com o Homem Eterno

"O homem eterno", de Chesterton, reconta a história da humanidade a partir de duas particularidades que complementam a criatura chamada homem e o homem chamado Cristo. Dividido em duas partes
Paulo R. A. Pacheco

“Há duas maneiras de chegar em casa, e uma delas é ficar por lá. A outra é caminhar e dar a volta ao mundo inteiro até retornarmos ao mesmo lugar”. É com essas palavras que Gilbert Keith Chesterton (1874-1936) começa "O Homem Eterno", indicando, já nas primeiras linhas, a quem se destina o livro e o caminho que pretende trilhar.

Descrita por C. S. Lewis como “a melhor e a mais popular defesa da posição do cristianismo”, a obra é destinada àqueles que não conseguiram chegar a casa pela primeira via – ou, nas palavras do autor, àqueles que “não conseguem ser cristãos e não conseguem deixar de ser anticristãos”, “gente [que] ainda vive na sombra da fé e perdeu a luz da fé” – e, portanto, propõe-se a seguir o caminho mais longo, afastando-se ao máximo, até ao mais remoto passado, até àquela primitiva caverna onde, um dia, um homem primitivo pintou a realidade que viu, seguindo pela trilha dos mitos e da filosofia, até passar por outra caverna, berço de um novo início para o mundo, onde uma criança deu nova vida à realidade... todo esse percurso com o único fim de conseguir realmente ver o lugar onde sempre se esteve, com o audacioso objetivo de trazer de volta para casa quem nunca dela saiu.



Engana-se quem pensa que a obra é destinada apenas aos céticos ou aos cientistas monomaníacos. Mas também se engana quem pensa que o texto seja tão somente uma obra de apologética, ou literatura espiritual de autoajuda. O livro é um mapa que atravessa o território da história da humanidade, da história da alma e da consciência humanas. Numa clara referência à pretensiosa obra do escritor britânico Herbert Georg Wells – "The Outline of History" –, Chesterton, em diversos pontos do livro, o descreve como um “esboço de história”. Porém, diferentemente daquele, o defensor fidei – como o Papa Pio XI se referia ao nosso autor –, num esboço muito mais breve do que aquele de Wells, quer guiar o homem pelas sendas da história, valendo-se da simplicidade do olhar em contraposição à obsessão racionalista do evolucionismo teórico, que “fica plantado na caverna pintada olhando para coisas que são demasiado grandes para ver e demasiado simples para entender”.

Chesterton, por sua vez, “curvado ante a autoridade e a tradição”, vale-se como sempre da reductio ad absurdum para denunciar os erros desse racionalismo do homem que, estando em casa, se descobriu procurando um lar, e por isso mesmo vai até ao fundo do racionalismo, a ponto de mostrar como os resultados da aceitação de suas teses são mais irracionais do que os resultados das teses de quem se dobra diante do testemunho da fé, diante de um dogma, diante de uma revelação, diante de uma visão da realidade recebida pela fé. O racionalismo se esquece de que “a realidade grande é secreta e invisível; [e] a realidade pequena, [...] evidente e enorme”. Por isso, não consegue entender como, no cristianismo, onipotência e impotência caminhem juntas, como o universo pode virar inteiro do avesso e uma criança ser Pai e uma mãe ser criança, como a esperança de encontrar um lar nunca esteve ausente porque ela mesma, a Esperança, se encarnou na caverna de um seio, se mostrou no seio de uma caverna em Belém, “lugar onde os extremos se encontram”, viveu, morreu e ressurgiu de dentro de uma caverna em Jerusalém, acendendo definitivamente uma luz sobre a história do mundo.

Chesterton, que na sua juventude transitara pelo agnosticismo e pelo espiritismo, que mais tarde retornara ao anglicanismo de sua família, abraçou a fé católica definitivamente em 1922, depois de haver descoberto o mapa que levava de volta para casa. Conta-se que, durante sua convalescência, em 1936, o autor chegou a dizer: “Agora, está tudo claro. Entre a luz e as sombras, cada um deve escolher de que lado está”; pouco depois, tendo saudado a mulher Frances e a filha adotiva Dorothy, ele que escolhera em toda a vida “o clarão fixo dessa urgente e intolerante iluminação: o relâmpago eternizado como luz”, voltava – dessa vez, para sempre – a casa, com o Homem eterno.

SERVIÇO:
Chesterton, G. K. (2010). O Homem Eterno (A. Pisetta, Trad.).
São Paulo: Mundo Cristão (original de 1925).
ISBN: 978-85-7325-590-4
Páginas: 320
Tamanho: 16 x 23
Preço sugerido: R$ 29,90
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