Eleitores americanos durante a noite da eleição.

Os EUA e o “bem” presente

Partindo da realidade quotidiana, o que permanece para construir uma nação para todos? Algumas semanas depois da tomada de posse de Trump nos EUA, uma resposta ao sentido de impotência: “A liberdade não pode ser imposta, só oferecida”
P. José Medina

Passada uma semana da conclusão do período eleitoral, hipóteses e incertezas não parecem acalmar. Procurando dar uma resposta ao mal estar geral, algumas pessoas saíram pelas ruas para manifestar e gritar seu descontentamento. Muitos estão a preparar-se para a iminente batalha política. Outros permanecem confiantes de que o sistema democrático acabará por prevalecer e prevenir eventuais abusos. Diante de uma demonstração de descontentamento, aparentemente estéril, ou de confiança num sistema sem rosto, ficamos com uma sensação de impotência sobre a possibilidade de transmitir um avanço significativo a nível nacional. Qual é o fundamento original, comum, do qual podemos partir, especialmente depois de um ano tão controverso, cheio de tensões ideológicas? Que recursos permanecem para construir uma nação para todos, desde a simples realidade da nossa casa, do trabalho e da vida quotidiana?

Apenas uma experiência presente de "bem" nos vai permitir reconstruir. Como escreve o romancista Wendell Berry: “É a presença do bem – um bom trabalho, bons pensamentos, boas ações, bons locais - que nos torna conscientes de que o presente não deve obrigatoriamente ser um pesadelo do futuro”. As experiências de bem podem gerar homens e mulheres que se relacionam entre si com curiosidade em vez de suspeita. Um bem presente gera esperança, e a esperança desperta o desejo de compartilhar e de dialogar, em vez de entrincheirar-nos por trás de nossas convicções.

Eu encontrei este bem presente em realidades humanas frágeis, nas quais a esperança e alegria resplandeciam apesar das aparências. Vi isto no padre Ibrahim, um sacerdote de Aleppo, na Síria. Este homem encontrou no poço de um mosteiro franciscano um muçulmano que lhe disse: "Padre, quando eu vejo como as pessoas vêm aqui para tirar água, com um sorriso e uma grande paz no coração, sem discutir, sem gritar... Eu, que andei por todos os cantos do Aleppo e vi como eles se matam uns aos outros para chegar aos poços, estou impressionado. Vocês são cheios de paz e alegria... Há alguma coisa de diferente em todos vocês".

Eu vi este bem presente numa mulher idosa, que sofria de um transtorno de stresse pós-traumático tão grave que era acionado até mesmo pelo chilrear dos pássaros pela manhã. Começou a trabalhar na Los Angeles Habilitation House, uma organização sem fins lucrativos que proporciona emprego e oportunidades de carreira para pessoas com deficiências. Depois de um ano de trabalho aqui, dizia: "Eu ainda não consigo dormir, mas agora estou a começar a amar o chilrear dos pássaros. Algo foi despertado em mim. Estando convosco, algo em mim se despertou".

Nós poderíamos descartar o bem presente, como uma estratégia errada, devido à sua fragilidade. O diálogo e o encontro, poderíamos argumentar, estão desarmados e, portanto, podem tornar-se presas fáceis para aqueles que escolhem o poder para efetuar a mudança. No entanto, boa parte das mudanças sociais que admiramos, nascem de uma posição de fraqueza e não de força. A paz que está na sua raiz é substancialmente impotente. A liberdade não pode ser imposta, mas apenas oferecida livremente. Os homens e as mulheres que nos últimos tempos têm transformado os nossos modelos de mudanças políticas - Martin Luther King, Madre Teresa, Dorothy Day, Gandhi - fizeram isso de uma posição de fraqueza, desarmados, convidando as outras pessoas para um bem presente.

Uma sociedade livre poderá prosperar quando homens e mulheres testemunharem com entusiasmo, em vez de pregação, os princípios que eles mais prezam. Nenhuma estratégia política é capaz de substituir um espírito de colaboração. E este espírito sempre se origina a partir do exemplo vivo de um novo olhar, um olhar como o do padre de Aleppo, ou o das pessoas do Instituto de reabilitação em Los Angeles, um olhar que afirma o outro antes de suas convicções. Só um bem presente me faz desejar ser bom.

Agora que as eleições acabaram, começa o verdadeiro trabalho. Como diz Wendell Berry, devemos simplesmente "parar de salvar o mundo e começar a viver nele de maneira salvífica".