Manifestações no Egito.

Assassinados por sua fé cristã

Durante o Meeting de Rimini, em agosto passado, o egípcio Wael Farouq, professor muçulmano, explica por que defende os amigos perseguidos por causa da sua fé
Luca Maggi

“O sofrimento dos cristãos tem uma longa história, mas agora chegou ao seu ápice”. Fala Wael Farouq, vice-presidente do Meeting Cairo, professor da Universidade Católica do Sagrado Coração de Milão, e sempre um observador atento do que acontece em seu país. O professor muçulmano de língua árabe esclarece qual é sua posição: “Não estou a favor do exército, mas sim contra o terrorismo, porque não é possível que os Irmãos Muçulmanos matem sistematicamente os cristãos com o silêncio e a má fé de muitos órgãos de informação”.

A perseguição dos cristãos afeta pessoas que têm nome e rosto, por isso Farouq insiste afirmando: “não combato em uma batalha pelos cristãos nem falo, tampouco, dos cristãos em abstrato; parto de uma relação de amizade com pessoas que vivem a fé cristã e são assassinadas por sua crença religiosa. São mortos em suas casas e nas igrejas”. Para o intelectual egípcio, é difícil conter a emoção enquanto relata o drama que vive em seu país, enquanto descreve a violência que os cristãos têm suportado entre o punho do exército e os golpes dos Irmãos Muçulmanos.
Histórias terríveis e desconhecidas. Como a de um sacerdote “que não havia participado dos protestos, e foi decapitado por islamitas. Deixaram seu corpo no meio da rua, como aviso para todos os fiéis”. O tom de sua voz se eleva e Farouq explica por que: “Morsi plantou as raízes da crise a que hoje se condena. Se a tivesse enfrentado de imediato as violações dos direitos civis que se cometiam no meu país, talvez centenas de pessoas ainda estivessem vivas”.

Hoje, sob os focos de todos os meios de comunicação, o Egito sofre os tremores de uma autêntica guerra civil. Abdul Fatah Khalil Al-Sisi destruiu o presidente Morsi e assumiu o controle do país, com o apoio, por outro lado, de milhões de egípcios. Poucos meios ocidentais ecoaram que seu predecessor, Morsi, em um ano de presidência havia concentrado todo o poder em suas mãos, traindo a esperança de democracia e liberdade que a revolução havia suscitado.

Em uma declaração de plantão, promovida entre outros pelo professor Farouq, pode ler-se o dramático desenvolvimento dos eventos que tiveram lugar entre a eleição de Morsi (24 de junho de 2012) e sua destituição (3 de julho de 2013). E se põe em evidência, por exemplo, que a poucos meses de sua eleição, em 22 de novembro de 2012, Morsi aprovou um decreto com o qual retirou o controle judicial sobre suas próprias decisões. Enquanto muitos cidadãos egípcios saíam à rua para protestar sem serem escutados, começou o cerco dos defensores de Morsi ao Tribunal Constitucional. “Na noite de 30 de novembro”, afirma a declaração, “a Constituinte de maioria islamita aprovou o projeto da nova carta constitucional: 234 artigos que reforçavam o papel da Sharía e restringiam os direitos civis das mulheres e das minorias religiosas”. E assim a Constituição foi submetida a plebiscito em duas semanas, sem que pudesse ser discutida e nem sequer compreendida por muitos (40% da população egípcia é analfabeta). No plebiscito de 15 e 22 de dezembro só participaram 32,1% das pessoas com direito de voto, e não houve supervisão judicial por conta da longa greve de juízes. E enquanto o projeto se aprovava, as perseguições dos tribunais e manipulação de muitos canais de televisão islamitas se intensificaram. À resposta aos graves ataques aos direitos e à dignidade dos cidadãos adicionou-se a início de maio o movimento Tamarrod, que organizou um abaixo-assinado para pedir eleições antecipadas. O resultado foi surpreendente: 22 milhões de assinaturas, 9 milhões a mais que os votos que elegeram a Morsi.
Afirma Farouq: “Os terroristas desencadearam a violência contra 30 milhões de egípcios que saíram às ruas para pedir a demissão de Morsi. Houve centenas de mortos. Neste contexto, a intervenção militar para deter o banho de sangue não me pareceu um golpe de estado. Creio que ninguém duvidava de minha lealdade, a democracia e o que escrevi contra Mubarak e contra a junta militar antes que Morsi ocupara o poder assim o demonstra”.

A declaração reconhece “o uso desproporcionado da violência por parte do exército e da polícia ao pôr fim aos manifestantes por Morsi, com pelo menos 800 mortos”, mas destaca a violência dos islamitas e os ataques às igrejas e estruturas cristãs. Indica ainda um roteiro de pacificação que, entre outras coisas, garantisse aos Irmãos Muçulmanos a participação nas eleições e a instituição de uma comissão internacional que estabeleça as responsabilidades, tanto entre as forças de segurança como entre os islamitas.
Farouq conclui: “Morsi e os seus sempre defenderam que qualquer oposição a sua política tirânica era uma conspiração dos cristãos. Mas agora vemos muçulmanos que se reúnem em volta das igrejas para protegê-las da vingança dos Irmãos Muçulmanos. Fui acusado de me colocar ao lado dos cristãos, mas eu não defendo 'os cristãos', defendo meus amigos, que morrem e são perseguidos por sua fé. Defendo sua liberdade religiosa, como manda o Corão: Não matarás”.