Um momento da marcha silenciosa.

Que justiça procuramos?

Uma tragédia marcou o país nestes dias: o incêndio na boate de Santa Maria. Uma reflexão neste artigo do Responsável Nacional pelo Movimento Comunhão e Libertação. Publicado no Jornal Diário do Pará
Marco Montrasi

Nestes dias não conseguimos deixar de pensar na tragédia de Santa Maria, onde 235 jovens perderam a vida num incêndio durante uma festa numa boate. Mas depois da emoção e da comoção, o que agora ganha espaço é a procura dos culpados, a procura de alguém que pague, a procura de uma justiça.

Tenho vivas em mim duas imagens nestes dias: a de uma mãe que perdeu os dois filhos no incêndio, depois de ter perdido o marido um ano atrás, e que implorava por justiça no jornal da Globo, e a de dois jovens que carregavam a imagem de Nossa Senhora da Piedade durante uma marcha silenciosa que aconteceu em Santa Maria, dois dias depois da tragédia.

Impossível não se comover com aquela mãe! E só ela sabe a dor que carrega. Mas aquela justiça, encontrar alguém que pague mesmo permanecendo uma vida inteira na cadeia, não vai bastar. Não é essa a justiça que vai preencher o abismo que existe no coração.

Que justiça procuramos, então? Não procuramos talvez uma justiça que responda ao “por que”? Por que tem de acontecer isso? Não seria melhor encontrar respostas, no lugar de encontrar alguém que pague?

Mas a mulher da outra imagem, que se chamava Maria de Nazaré, representada com o Filho morto nos braços, ela também queria justiça. Ela queria saber o porquê. Por que seu amado Filho teve de passar por tudo o que passou? Por que ela teve de sofrer tanto?

O nosso povo, o povo brasileiro, ainda tem uma grande devoção por Nossa Senhora. Não temos respostas, como ela também não teve naqueles dias. Mas ela tinha fé, ela sabia que aquele mistério terrível tinha um sentido. A fé é acreditar que não perdemos nenhum daqueles jovens, que não perderemos nenhum daqueles que amamos e que não perderemos um dia a nossa vida. A fé é o dom de uma abertura misteriosa da minha razão que reconhece que a nossa vida e a nossa morte têm um sentido. Não existimos para sofrer e desaparecer no nada!

Tudo isso, então, pode nos provocar a dirigir o olhar para essa mulher, Maria, que sofreu tantas dores, que não recebeu respostas como ela queria, que não obteve a justiça como ela queria, mas que viu a glória do significado! O significado era aquele Filho, que sofreu tudo para poder nos acompanhar também nos sofrimentos e dizer que não estamos no mundo para sofrer e desaparecer. Estamos no mundo para procurar e encontrar a felicidade, a vida verdadeira. Maria mostrou isso, viveu isso. Tanto que se tornou conforto de muitos, esperança dos homens, e padroeira do Brasil.

Nestes dias, peçamos que as autoridades trabalhem para melhorar a segurança do nosso povo para que nunca mais aconteça uma tragédia como essa, mas mais do que isso peçamos para descobrir a fé, redescobrir esse dom, o único que nos permite viver tudo com um sentido.

Peçamos isso unidos às famílias e aos amigos dos jovens falecidos, e unidos às preces do Santo Padre por quem esperamos, procurando mais ainda o seu olhar de conforto, na próxima Jornada Mundial da Juventude.

* Marco Montrasi é o Responsável Nacional pelo Movimento Comunhão e Libertação

Este artigo foi publicado no Jornal Diário do Pará do dia 6 de fevereiro de 2013