O martírio da Nigéria: "Precisamos do milagre de Deus"

O difícil convívio com a diversidade no país africano assolado por radicalismos terroristas contra os cristãos. A negação da violência começa a dar os primeiros frutos
Dom Ignatius Kaigama (*)

Uma senhora perguntou-me uma vez: “Por que é que os seres humanos não conseguem desfrutar da diversidade? Por que é que há quem goste de fazer os outros sofrer? Por que é que um grupo religioso, étnico ou político pode alienar, marginalizar, demonizar e infligir violências inauditas sobre inocentes?” É com esse mesmo desconcerto que se poderia colocar em discussão o princípio racional que está por detrás das campanhas agressivas e violentas da Boko Haram (organização terrorista pró-jihad espalhada no nordeste da Nigéria). Este grupo jurou que os cristãos não conheceriam a paz se não aceitassem o Islã. O seu porta-voz lançou recentemente um aviso: “Mataremos funcionários do governo, agentes de segurança dos cristãos e quem quer que finja ser muçulmano para se infiltrar. Mataremos os infiéis”. O imã Abubakar Shekau apelou ao presidente nigeriano Goodluck Jonathan, cristão, para que abrace o Islã ou se demita.

A Nigéria foi colonizada pela Grã-Bretanha e tornou-se independente em 1960. Está dividida em 36 zonas geopolíticas, com uma população que ultrapassa os 160 milhões de habitantes. Deus dotou-nos com imensos recursos naturais, mas a taxa de pobreza é alarmante, devido à corrupção, que cada vez é maior e provoca conflitos em muitas zonas do país. As revoltas que, consequentemente, se seguem a estas crises devem-se ao fato de as aspirações pacíficas e autênticas das pessoas serem ignoradas há muito tempo.

O norte compreende dezenove estados, incluindo o território da capital federal. Em muitos destes estados, os atentados suicidas da Boko Haram atacam igrejas, mesquitas e até mesmo postos de segurança como os edifícios das Nações Unidas. Continuam a atacar em Kaduna, em Kano. A polícia descobriu 963 engenhos explosivos desde o dia 20 de janeiro até agora. É por isso um grupo bem organizado. A Boko Haram representa, certamente, um convite à guerra para a Nigéria, e lança o norte, em grande parte muçulmano, contra o sul, que, por seu turno, tem uma forte matriz cristã.

A maioria dos muçulmanos e cristãos do norte da Nigéria gostariam de viver em paz e boa vizinhança, apesar das muitas tensões. No sul do país, mas também no norte, é possível encontrar, no seio da mesma família, muçulmanos e cristãos. E há também muitos casos de casamentos mistos. Mas não é segredo que alguns líderes muçulmanos desejam “mergulhar o Corão no Oceano Atlântico”: segundo eles, de Sokoto, ao norte, até Lagos, no sul profundo, o Islã deve dominar o país, como o demonstrou a introdução da sharia em alguns locais do norte, uma tentativa para tornar a Nigéria um estado islâmico. Nada a dizer sobre uma aspiração que poderíamos considerar legítima; qualquer religião quer se expandir e aumentar o número de fiéis. Isto, porém, deve ser feito de forma pacífica e civilizada, através do testemunho religioso.

Quando, recentemente, levei os bispos católicos da Nigéria para visitar o presidente Jonathan Goodluck, expressamos a nossa dor. Dissemos que a criminalidade e o terrorismo não podem ser negociados, mesmo que o governo respeite a opinião de todos. Sensibilizamos o presidente para o fato de que, aos cristãos do norte, é vedado o acesso à posse de terras e os direitos de ocupação das terras adquiridas pelas igrejas. Em alguns destes estados, não se pode ensinar a religião cristã nas escolas primárias ou secundárias, apenas a islâmica. Em alguns destes estados é recusada a transmissão de telejornais ou programas cristãos nos meios de comunicação nacionais e não são difundidas notícias sobre atividades dirigidas por cristãos.
A Boko Haram não aceita ter um cristão como presidente da Nigéria. Não é segredo, declaram-no publicamente. Por isso pensamos que este grupo terrorista possa estar sendo manipulado por alguns líderes políticos para derrubar este governo.
Mas alguns passos já foram dados. O Congresso dos Estados Unidos fez recentemente uma sessão especial sobre o terrorismo e as atividades da Boko Haram, também ali, foram condenadas. Minha visita à Itália, no início do mês passado, para receber o prêmio “Pomba de ouro pela paz”, do Archivio Disarmo, foi o reconhecimento da necessidade de uma resposta por parte da comunidade internacional. Quando fui recebido pelo vice-presidente da Câmara dos Deputados, Maurizio Lupi, fui informado da campanha on-line pró-Nigéria. Disse-me que já existem 30 mil assinaturas. Mas precisamos de mais colaboração também para enfrentar a criminalidade em nível internacional, como o tráfico de mulheres, a lavagem de dinheiro, a droga, os crimes informáticos, os desvios financeiros e a prostituição.

Em 1995 tornei-me bispo de Jalingo. Passei todo o tempo tentando negociar a paz e a encorajar as pessoas a viverem em harmonia. Não foi fácil, porque por qualquer desacordo sobre a posse de terras, matam-se até mesmo entre cristãos.
Em 2000 fui transferido para Jos e em 2001 começaram os problemas também ali. Às vezes sinto-me como uma assistente social, porque procuro fazer a paz entre as pessoas, dar-lhes algum conforto. O governo faz pouco, a Igreja também não tem muitos recursos e tenta utilizá-los para ajudar o povo. Eu passo fins-de-semana inteiros nas aldeias com as pessoas, para conhecer os seus problemas. Tento dar educação, serviços sanitários, água potável.
Também os jovens na Nigéria, sobretudo em Jos, estão muito frustrados. Recentemente, me pediram dinheiro para armas para combater os muçulmanos: “Todos os dias nos matam, estamos cansados, não podemos fazer nada. Os muçulmanos vêm com armas sofisticadas e disparam sobre nós, sobre as nossas mulheres, sobre os nossos filhos”, disseram-me. Respondi-lhes: “Não, o cristianismo não tem a ver com a guerra, mas com a paz”.
Fui presidente dos cristãos no Estado de Plateau e foi um período em que me senti tão frustrado que já não podia mais: até os líderes cristãos das igrejas pentecostais ou protestantes faziam pressão para que eu arranjasse dinheiro para armas. Chegando a esse ponto, disse que a minha missão era a de promover a paz, e não a de lutar e matar os outros. Muitos entenderam isto como um compromisso, acusaram-me de não defender a fé cristã. Mas quantas vezes fui a casa de muçulmanos, comi com eles e fizemos amizades! E ainda sou acusado de aceitar compromissos.
Há alguns dias, fui à mesquita de Jos: os jovens muçulmanos tinham-nos convidado para festejar com eles o fim do jejum. Também foram convidados os líderes de muitas igrejas, mas recursaram o convite. É esta a raiva e a frustração que a violência criou entre nós. Esquecemo-nos até da mensagem cristã, de amor, de reconciliação, de perdão e também de uma coexistência pacífica e tranquila.
Mas a batalha continua, temos que continuar a encorajar a população, porque a única maneira de resolver o problema é através do diálogo. Quando uma igreja é atacada, quando são mortas pessoas, é difícil dizer: “Te abraço, te perdoo”. Mas é aí que o meu ministério começa a encarar os desafios. Também a minha igreja foi queimada, todos os nossos carros arderam. E as pessoas queriam que eu mobilizasse os cristãos para a luta. Eu disse: “Não, esta não é a minha missão”, são estes os desafios. Mas posso lhes dizer que na minha carreira de sacerdote e de bispo, sempre pensei que a paz e o diálogo são os ingredientes essenciais para a convivência civil. Ainda que esteja sozinho e submetido aos ataques por parte daqueles que deveriam entender, a Graça do Senhor está sempre comigo.
Jesus morreu assim na cruz, com estes braços abertos de quem quer abraçar o mundo todo, toda a humanidade. Não morreu de braços cruzados. É isto que nos curará e nos levará ao caminho certo. Foi por isso que abrimos um centro de formação profissional para muçulmanos e cristãos. São jovens desfavorecidos, que vêm das aldeias e que, durante dois anos, aprendem a ser eletricistas, carpinteiros, para terem competências para a vida. Durante dois anos, vivem juntos, e quando acabam a escola vão para a casa, e esperamos que possam se tornar atores da paz e envolver-se no diálogo. Quando abri a escola, as pessoas me diziam: “Você é louco? Como pode juntar cristãos e muçulmanos dessa forma?” Hoje, os primeiros vinte e dois muçulmanos e cristãos receberam o diploma e voltaram para casa.
Eu digo sempre: “Fomos atacados, fomos mortos, mas a esperança permanece”. Falo da perspectiva duma pessoa que experimentou na pele estes terríveis atos terroristas. No dia 11 de Março, na nossa igreja St. Finbar, em Jos (que tinha acabado de ser aumentada, reconstruída) estava sendo celebrada a missa e um kamikaze quis entrar com um carro na igreja para se explodir. Um rapazinho de 12 anos deteve-o no portão e fez-lhe perguntas. A bomba explodiu. Apesar de ainda estar longe da igreja, o impacto foi tão forte que quinze pessoas morreram, houve feridos e a igreja ficou destruída. Encontrei muitos jovens enraivecidos, prontos a combater. Não ouviam a polícia, nem os funcionários do governo. Vi o corpo queimado do kamikaze e entrei na igreja. Tudo destruído. Ajoelhei-me diante das imagens sagradas que ainda existiam: “Deus, dá-me as palavras”. Depois de cinco minutos fez-se silêncio, levantei-me e disse: “Também estou zangado, talvez mais do que vocês todos, mas se deixarem que prevaleça a irracionalidade mais pessoas serão. Peço, em nome de Deus, vão para casa”. Acho que o Senhor ficou ao meu lado: aqueles jovens foram embora sem protestar, sem mais violência. Foi um milagre.

(*) Dom Ignatius Kaigama (*) é bispo de Jos, Nigéria