O rio Amazonas

Amazônia. O mundo em torno do rio

Tendo em vista o Sínodo de outubro, uma viagem pela Amazônia: florestas, canoas e rostos. Celso e Darlete, que educam os jovens a cultivar a terra, o missionário amigo dos sateré-mawés, e o Bispo que diz: «Evangelizar é levar a sério a nossa ferida»
Monica Poletto

«Laudato si’, mi’ Signore» foi a saudação do Papa aos povos da Amazônia, que, em janeiro do ano passado, se reuniram em Puerto Maldonado para encontrá-lo. Ao decidir entrar no Peru pela “porta” da Amazônia, Francisco mostrou ao mundo essa terra e «essa obra maravilhosa dos povos» que a habitam. É justamente para eles e para a sua pátria que os olhares de toda a Igreja estarão voltados quando, em outubro, se realizará o Sínodo sobre a Amazônia, terra «multiétnica, pluricultural e plurirreligiosa, um espelho de toda a humanidade que, em defesa da vida, exige mudanças estruturais e pessoais de todos os seres humanos, dos Estados e da Igreja».
Bastam essas palavras para entender que se trata de um Sínodo que supera o âmbito estritamente local, estendendo-se «para toda a Igreja universal e, também, para o futuro de todo o planeta». A Amazônia é um ponto de vista, um ângulo de visão, de onde se pode ver melhor tudo, em profundidade.
Não por acaso, quando ali chegamos, logo vem à mente a narrativa de Dom Giussani quando, na região de Macapá (era o início dos anos 60), conheceu um grupo de sacerdotes que dividiam entre si a região, «de modo que por um tempo, entre vinte e quarenta dias», cada um deles percorria o território alagado para ir ao encontro de cada caboclo, isto é, os mestiços que trabalhavam como seringueiros (a coleta da borracha das árvores). Vendo um deles partir, um homem «alto, grande, que se afastava e, de vez em quando, na semiobscuridade, virava e me saudava sorrindo», Giussani descobriu, de repente, «o que é o cristianismo: uma paixão pelo homem, um amor ao homem. Não ao homem dos filósofos liberais-marxistas, produto da cabeça deles, mas ao homem como você, como eu».
Pois bem, provocados pela atenção do Papa Francisco a essas terras e acompanhados pelo olhar de Dom Giussani, fomos ao encontro dos amigos que habitam esse maravilhoso pedaço de mundo.
Trinta quilômetros ao norte de Manaus, Celso e Darlete dirigem a escola agrícola Maria Rainha dos Apóstolos. Vivem na escola desde cedo até à noite, e todos aqueles jovens, distantes de suas famílias, são um pouco filhos deles. Fazem isso há quase trinta anos, desde que os missionários do Pime, que a fundaram, a confiaram ao grupinho do Centro de Solidariedade São José, de que faziam parte. Nessa escola, cujas terras costeavam a floresta, cerca de 120 alunos provenientes das aldeias e das vilas ao longo dos rios – o Rio Negro, o Rio Amazonas e seus inumeráveis afluentes – aprendem a cultivar a terra de um modo que respeite o complexo ecossistema amazônico.

A vida na escola é muito dura, até mesmo para jovens habituados às asperezas da natureza e que, em muitos casos, fazem dias de viagem de barco para chegar até ela. O despertar é às 6h. De manhã, ficam na sala de aula; à tarde, nos campos, para aprender as técnicas de cultivo e de criação de animais; de noite, depois do jantar, mais duas horas de aula. Todos os dias, inclusive aos sábados. Muitos deles, um dia, vão ensinar as técnicas aprendidas nas terras de origem. E essas técnicas, replicáveis e respeitosas, permitirão cultivar melhor a terra, desflorestando menos e favorecendo uma melhor sustentabilidade para as populações.
Impressiona ver a seriedade e a laboriosidade dos jovens, assim como os seus silêncios profundos e olhares intensos. São jovens que cresceram tendo como colega de jogos a floresta, que é tratada como amiga, isto é, escutada, com a sua linguagem feita de versos de animais e de sons do vento e do rio. Celso e Darlete os educam como educam aos próprios filhos.
Celso faz isso com o olhar: não fala muito, mas os jovens o entendem muito bem. Eles se sentem estimados e o estimam, como a um pai severo e amoroso. A obra de Darlete é um cuidado feito de atenções discretas. A temperatura constante de quarenta graus não a impede de antecipar as necessidades dos jovens, de cuidar de cada um deles. Está toda voltada para o que existe na escola. Repete sempre: «Aqui, todo dia acontece alguma coisa. É preciso estar atento». E ela faz isso, ajudando com leveza e alegria.
Passaram por momentos difíceis. Em 2013, o governo da região suspendeu repentinamente o financiamento, e eles se viram, então, com aquele monte de estudantes e nenhum dinheiro. Esses momentos, porém, foram oportunidade para redescobrir a ligação com os velhos amigos italianos que haviam ajudado nos primeiros passos da escola. E encontrar novos, sobretudo nas obras sociais italianas e brasileiras com as quais começaram a compartilhar a caminhada. Esses amigos apoiaram a responsabilidade deles: não fizeram «no lugar deles», não os assistiram. Foram tratados como adultos, como se faz entre pessoas que se estimam. Dizem que não têm ainda soluções para cada coisa, mas não têm mais medo. Há alguém a quem pedir, com quem se confrontar. Não foram resolvidos os problemas, mas juntos se busca o caminho, e isso muda tudo.
Na escola, há jovens que vêm de comunidades indígenas. Como Joilton, que é um sateré-mawés, povo nativo que vive ao longo dos afluentes do Rio Amazonas, ao sul de Parintins. Ele vem de uma aldeia às margens do rio, comunidade Santa Maria do Rio Andira, onde as casas são de madeira e palha. Pescam, recolhem os frutos da floresta, cultivam a mandioca necessária para a alimentação diária. Quando ele conta a sua história, seus olhos se iluminam ao falar do seu amigo padre Enrico Uggé, missionário do Pime que ia visitar a sua aldeia, e em cuja escola estudou desde criança. Não é o primeiro a falar dele. Foi por isso que quisemos encontrá-lo: conhecer o amigo dos sateré-mawés.
De Manaus a Parintins leva-se uma hora de avião. O panorama, quando a gente vai chegando, é impressionante. A perder de vista, vê-se somente o Rio Amazonas, os seus afluentes e as clareiras não submersas pela água, que neste período está altíssima. Não se pode imaginar a existência de tonalidades de verde e de azul que ali embaixo não estejam “pintadas”.
A Diocese de Parintins é bem diferente. É formada por uma cidadezinha de cerca de cento e treze mil habitantes e por um território de 5.952 km², o qual se desenvolve inteiramente na floresta e entre rios, onde vivem quinhentas comunidades caboclas e sateré-mawés, subdivididas em quatro municípios.

A escola agrícola Maria Rainha dos Apóstolos, no norte de Manaus

Dom Giuliano Frigeni está na Amazônia há quase quarenta anos e, há vinte, é bispo de Parintins. Também ele preparando-se para o Sínodo e carregando na mente tudo o que está escrito no Documento Preparatório sobre a vital importância, para toda a Igreja, de «escutar os povos indígenas e todas as comunidades que vivem na Amazônia como primeiros interlocutores». Conta o que significou para ele encontrar essas populações. «Evangelizar é levar a sério a nossa ferida», diz. «Todos carregamos uma ferida, que é aquela do pecado original: a experiência do limite, da distância entre o bem que desejamos e o mal que fazemos. Nós, missionários, como todos os habitantes da Amazônia, podemos estar no mesmo nível: temos necessidade de Alguém que nos ajude a superar os nossos limites, cuidando dessa ferida». Para começar a se entender com o povo daqui, diz que «foi preciso muito tempo. Tempo em que eu os ouvi. Amá-los quis dizer amar a sua raiz profunda; que é aquela de ser amados por Deus, de vir de um amor. Com eles, aprendi que a verdade é sinfônica: não pertence a uma cultura isolada ou dominante, como foi por tantos anos aquela europeia. E o cristianismo faz, sim, com que todos sejam respeitados e valorizados».
Pensando na grande paixão do Papa Francisco por «toda a biodiversidade que essas terras encerram», explica-nos que «a floresta não é feita de monocultura: uma planta depende de outra para nascer e crescer. Se se tenta plantar uma única espécie, para explorar plantações de fruta tropical ou de madeira nobre destruindo as outras plantas, o projeto fracassa, as plantas não crescem. Assim acontece também entre nós, homens de raças e culturas diferentes».

É «padre Juliano», como todos o chamam aqui, que nos apresenta o padre Enrico Uggé: é preciso conhecê-lo, se se quiser entender alguma coisa dessa terra. Encontrar esse homem de 76 anos, que continua a andar de barco para ir encontrar os seus amigos índios na floresta, significa fazer a experiência daquela paixão pelo homem a qual havia tomado conta de Giussani.
Padre Uggé deseja que aquilo que descobriu não se perca. Por isso nos coloca num barco e nos leva para conhecer os seus amigos. As comunidades ao longo do rio são isoladas, as distâncias enormes, e quase ninguém possui barco a motor. Grande parte dos saterés e dos caboclos se move ainda em canoas. Ele pensa, com desprazer, nos muitos subsídios que foram mandados pelos governos para essas comunidades, em vez de tentar entendê-las, trabalhar com elas, deixar nas mãos delas o protagonismo do desenvolvimento.
Enquanto o barco desliza sobre as águas cheias de reflexos, ele começa a nos falar desse seu profundo relacionamento, que anos de escuta e de dedicação o tornaram sólido como a amizade entre «homens de palavra». Ele ajudou as comunidades a se tornarem titulares legais das terras, obtendo as garantias jurídicas que impedem a expropriação. Isso favoreceu o crescimento das populações que ali habitam e uma melhora das suas condições de vida. Os sateré-mawés são imensamente gratos a ele. Mas não é essa a verdadeira razão da amizade. «A gente precisa conhecê-los, e para isso ajuda a disponibilidade», diz. «Eles buscam quem os escute. Porque se abrem, é preciso respeitar os tempos deles, completamente diferentes dos nossos. Nós fazemos com que o cristianismo coincida com uma certa ideia de tempo, espaço, razão. Mas carregamos uma cultura europeia, iluminista. Mas eles precisam entender que a vida deles e a sua cultura são, para mim, coisas belas e boas. Como todo mundo, aceitam um relacionamento se se sentem entendidos, acompanhados e estimados. Ao longo de um tempo que não é o nosso».

Padre Enrico Uggé

Enquanto reflete sobre a sua história de missionário, repete que também Jesus ia de povoado em povoado. E ele quer fazer o mesmo. Não pretende mudar nada. «O que ajuda é a presença, não os discursos. Não aceitaram o meu raciocínio, mas a minha pessoa. Como Jesus não fugia de um relacionamento pessoal, também nós não podemos fugir».
Os saterés começaram a confiar quando perceberam que tinham diante de si «um homem de palavra»: dizia que ia voltar e voltava de fato; exatamente no dia em que eles o esperavam. Ele não era como os estudiosos e os jornalistas, que são chamados de «os mortos», porque o morto só é visto no dia do funeral. O “padre”, pelo contrário, volta sempre.
Ele tem um caderno para cada família, no qual marca nomes e histórias, para não se esquecer de ninguém. Porque eles não esquecem e aprendem olhando. «Quando adquirem confiança, exigem seriedade. E assim me ajudam a ser sempre padre». Comove-se um pouco quando pensa na coisa mais bonita que lhe disseram: «Te agradecemos, padre, porque nos tratou como pessoas».
Seu ideal de missão é o mosteiro. As Reduções eram mosteiros, no fundo. Ninguém foi mais missionário que os monges. «O Papa mandava que eles saíssem para se encontrar com o povo em suas terras, e nascia assim a Igreja da França ou a Igreja da Inglaterra». Aqui, a Igreja da Amazônia. Perguntamos sobre sua próxima viagem. Ele partirá em breve, dormirá muitas noites no rio, onde as estrelas parecem pérolas e não se entende «onde termina o céu e onde começa o rio». As comunidades o esperam. Deverá navegar durante vinte dias.