“Todos os dias me lembro daquele dia”

Uma enfermeira italiana, opositora por consciência, acompanha por alguns meses mulheres depois do procedimento de aborto. “Você me condena?”
Alessandra Stoppa

Há vinte anos Marisa trabalha como enfermeira. Há dez anos está numa seção de Ginecologia em Milão. Certo dia, sua chefe lhe propõe, por alguns meses, cuidar das pacientes internadas no Day Hospital. Considerando que ali são feitas interrupções da gravidez, pergunta-lhe se ela ficaria à vontade, pois sabe que ela é opositora por consciência. “Vou e depois discutiremos”, responde-lhe atrevida. Porém, na manhã seguinte, fica chocada. Ela diz: “Imaginar é uma coisa. Mas chegar ali e ver diante de mim nove moças esperando para abortar, me arrasou”. Durante o turno, é chamada na seção de internação para ajudar uma mulher em quimioterapia. “Pensava: ela se aflige, pois deseja muito continuar vivendo, enquanto que, na outra sala, aquelas jovens sadias esperam para fazer algo que as mata. Se eu me sinto mal assim, elas como estarão?”.

Na manhã seguinte, Marisa atende vários pacientes até que uma jovem chega à sala; ela está livre e a atende. Fez um aborto. Maria a coloca num leito, verifica a febre e a pressão. Tudo certo. Mas, antes de sair, fixa a jovem por alguns instantes. Sempre faz isso, com todos. Não sai da sala sem olhar o paciente: “Não sei o que acontece mas percebo, se algo não vai bem. É como uma suspeita; então, confiro melhor. Caso contrário, saio”. Naquele momento, enquanto a observa, a jovem abre os olhos: “Você me condena?” . É uma fração de segundos. “Qual é o seu nome?”. “Elisabete”. E Marisa diz: “Elisabete, eu não te julgo, nunca o faria. Se tivesse sabido antes, teria procurado com todo empenho impedi-lo”. A moça sussurra: “Estou triste. Esse desgosto não posso tira. Ninguém pode tirá-lo de mim, nem eu mesma. Matei meu filho”.

A jovem é tomada por uma crise de pânico, um medo de tudo e Marisa fica com ela até o momento em que recebe alta. “No dia anterior, não acreditava que eu e aquelas mulheres, na sala de espera, tivéssemos o mesmo coração. Dizia para mim mesma: eu quero gerar, este é o meu desejo, oposto ao delas! Mas, não. Olhando para elas compreendi que tinham o meu idêntico desejo: Deus nos faz sede de vida. A diferença estava em que elas não estavam sendo sustentadas em seu drama”. Ela volta para casa inquieta com o pensamento de que ninguém poderá tirar de Elisabete o sofrimento por aquilo que fez. Mas um amigo lhe diz: “Não, Marisa. Existe Alguém”. “O tempo parou ali, para mim. Foi um dos momentos maiores de que tenho memória na vida. Não estava pensando em Cristo: mas, ao contrário, existe Alguém, sempre. Salva a mim, salva a elas”. Apenas por causa disso, voltei àquele quarto no dia seguinte, e no outro, por meses.

Terminado o período no Day Hospital, Marisa continua a trabalhar, mas carrega uma tristeza: naquela época nenhuma mulher havia mudado de ideia. “A minha presença não tinha sido útil para salvar nem mesmo um”.

Num dia de setembro, atravessava o pátio do hospital, apressada para chegar à seção: “Senhora!”. Uma mulher com seu marido me mostrava uma receita com alguns exames prescritos. “Não sei onde devo ir”. Marisa pega a folha e lê. Entende que está se preparando para fazer um aborto. “Venha comigo”. O corredor é longo. Caminhando, olham-se em silêncio até que lhe pergunta o seu nome. “Jéssica”. “Perdoe-me, Jéssica, mas você pensou bem?”. “Sim... mas já tenho cinco filhos, não o farei mais. Até minhas amigas me dizem que ficarei louca”. “Senhora, já expliquei a ela...”, diz o marido com um fio de voz. Marisa não esperava por isso. “Mas por que diz isso? O senhor deseja essa criança?”. E ele responde: “Sim, é minha mulher que precisa ser convencida. É ela que deve suportar tudo...” Então Marisa olha para ela: “Veja, Jéssica, eu não gostaria que você tivesse que suportar, por toda a vida, o peso daquilo que está para fazer. Eu vi aquelas moças. Você entende?”. A mulher começa a chorar. Marisa a abraça. “Deseja esta criança?”. “Sim”, responde Jéssica. Então pegue a receita e rasgue-a. “Vamos para casa”, diz ao marido.

Naquela manhã, Marisa tinha lido o Evangelho: isto vos disse para que a minha alegria esteja convosco e a vossa alegria seja plena. Ia para o trabalho e pensava: alegria plena? Mas o que é uma alegria plena? Tinha perguntado e naquele dia a experimentei. Quando Jéssica jogou fora a receita, voltei para minha seção e as pernas tremiam. Antes, tínhamos ido juntos à capela rezar uma Ave Maria para que amparasse a ela e a sua criança. Disse-lhe: “Não vai falta nada para você e estou aqui para qualquer coisa”.
Tempos depois, Jéssica telefona. Seu marido encontrou um emprego por tempo indeterminado. E a criança? É uma menina, depois de cinco meninos. “Todos os dias me lembro daquele dia”, diz-lhe: “Eu tinha pedido informação a outras pessoas, mas você foi a única que olhou a receita”.