Dom Filippo Santoro.

Além do Oceano

Em novembro ele foi nomeado Arcebispo de Taranto pelo Papa Bento XVI. Com obediência e espírito de fé, Dom Filippo deixa a Diocese de Petrópolis e regressa à Itália após dedicar-se incansavelmente à construção da Igreja no Brasil (de Passos, fev 2012)
Ana Luiza Mahlmeister e Isabella S. Alberto

Após 27 anos no Brasil, nos últimos sete anos como bispo de Petrópolis, no Rio de Janeiro, Dom Filippo Santoro se despediu do Brasil para assumir o cargo de arcebispo na Arquidiocese de Taranto, na Itália. Nascido em Bari-Carbonara, na Itália, em 1948, Dom Filippo chegou ao Brasil como padre no ano de 1984. A pedido de Dom Giussani deixou sua terra natal para se dedicar à missão. Deste sim nasceu uma história dentro da grande história do carisma e da Igreja, no Rio de Janeiro, em Petrópolis, no Brasil e na América Latina. “Um sim a Cristo que se dilata por meio do sim de cada pessoa”.
Ao se instalar no Rio de Janeiro, junto com padre Giuliano Renzi, em pouco tempo deu início à comunidade de CL na cidade. Ao longo destes anos de presença no país, Dom Filippo teve uma presença marcante na sociedade, tanto na cidade do Rio de Janeiro, onde trabalhou como padre e bispo auxiliar, ordenado em 1996 pelo Cardeal Dom Eugênio de Araújo Sales, como em Petrópolis, para onde foi nomeado bispo da diocese e se transferiu em 2004.
Recentemente, em novembro de 2011, o Papa Bento XVI convocou novamente Dom Filippo e lhe pediu para assumir o cargo de arcebispo, na Arquidiocese de Taranto, sul da Itália. Assim, no dia 1º de janeiro, Dom Filippo Santoro regressou à sua pátria em meio a diversas homenagens do povo brasileiro a quem ele tanto se dedicou e contribuiu no crescimento da fé. A sua posse foi realizada no dia 5 de janeiro, com muita festa. Em Taranto, dá continuidade ao seu carisma: viver a dimensão pública da fé como uma proposta de libertação para todos.

Que balanço o senhor faz desses 27 anos de Brasil?
Nestes 27 anos participei da vida da Igreja na América Latina e o movimento de CL me fez protagonista, não pelas coisas que fiz, mas porque me ajudou a dizer sim a Cristo. Um sim disponível diante das circunstâncias como o primeiro sim que respondi a Dom Giussani. No Rio de Janeiro, no Brasil, no Continente latino americano, desde o México até a Terra do Fogo. Desde a paróquia de Nossa Senhora de Copacabana, à CNBB, ao CELAM, à Conferência de Aparecida, a Nossa Senhora de Guadalupe, ao Sínodo dos Bispos sobre a Palavra de Deus. Fico maravilhado e cheio de gratidão por tudo isso ter acontecido comigo.
Pela responsabilidade que tive do Movimento de CL na América Latina lembro com muita saudade, além das comunidades do Brasil, as comunidades da Argentina, do Paraguai, do Chile, do Uruguai, do Peru, da Venezuela, do México e aquelas que fundei na Colômbia, Equador, Panamá, República Dominicana e Cuba. A beleza destes encontros dependia da comunhão vivida na origem com Dom Giussani e com o centro do Movimento. Ao mesmo tempo, na missão, me sustentava a comunhão que vivia na Fraternidade dos Padres da América Latina, com padre Virgilio Resi, padre Massimo Cenci, Dom João Carlos Petrini, Dom Giuliano Frigeni, padre Giuliano Renzi, padre Vando Valentini, padre Aldo do Paraguai, padre Antonio do Chile, padre Mário e Padre José da Argentina; só para citar alguns deles. E depois a Fraternidade com os Memores Domini e com os leigos, meus amigos e meus filhos. Não era um projeto, mas um sim ao senhor e à Igreja que se dilata por meio do sim de cada pessoa. E isso continua hoje na amizade com Carrón, seguindo o caminho que ele nos ajuda a viver, e com as maravilhas que continuam acontecendo com o testemunho do Bracco, responsável nacional de CL, e dos novos amigos Cleuza e Marcos Zerbini, de São Paulo.

O que leva de mais caro de sua estada no Brasil ?
Levo tantos amigos, uma afeição nova aos pobres, e, sobretudo, a liberdade e a beleza de responder ao Senhor desde o momento em que Dom Giussani me convidou a deixar a Itália e a servir a Igreja do Brasil, até o presente em que o Papa Bento XVI me convida a voltar pra Itália como arcebispo de Taranto. A coisa mais cara é que, mesmo com todos os meus limites, se aprofundou e ficou mais evidente a afeição ao Senhor e o anúncio da sua presença que, por meio da comunhão, liberta. É um dado objetivo que o Senhor construiu utilizando o meu sim imediato, frágil e um tanto ingênuo a Dom Giussani e à Igreja. Deste sim, como um milagre que me supera infinitamente, o Senhor fez nascer e crescer o que Ele quis.

O senhor foi pastor da Igreja de Petrópolis num dos seus momentos mais difíceis, que foram os deslizamentos de terra e as inundações do verão de 2011. O que esta experiência significou para o senhor?
Estes sete anos em Petrópolis foram particularmente intensos, pois convivi com pessoas de valor, seja no campo cultural e social, como da educação e no campo pastoral. Os momentos difíceis que vivemos no início de 2011, com a tragédia que matou mais de 900 pessoas na Região Serrana, nos levou a nos tornarmos uma grande família, pautada pelo amor de Cristo, único que dá sentido a nossa vida. Foram muitos momentos intensos, mas o mais forte foi o recente encontro com as vítimas das chuvas. Foi visível a solidariedade do povo e a sua gratidão, inclusive entre as pessoas que viveram a tragédia, que se sentiram abraçadas com o mesmo abraço de Cristo.

O senhor sempre teve uma atenção especial ao tema da educação. Por quê?
A educação bem trabalhada, como formação integral do ser humano, inclusive o ensino religioso, é uma das formas de prevenção para que nossos jovens não entrem para a criminalidade. Sempre me entusiasmou o trabalho com a Pastoral da Educação e o Ensino Religioso que oferece uma orientação positiva à vida oferecendo a jovens e crianças uma formação integral. A Pastoral da Educação, assim como outras implantadas ou intensificadas nestes sete anos, é uma realidade na Diocese de Petrópolis. As pastorais, seja a da Educação como outras, têm como compromisso estar perto do povo e ser a voz da Igreja na sociedade. Fico muito satisfeito com a aprovação pela Câmara Municipal do Rio de Janeiro e de Petrópolis da Lei que rege o Ensino Religioso, aqui aprovada em 17 de dezembro. Será um grande avanço para a formação de jovens e crianças oferecendo na educação religiosa um sólido ponto de referência para a vida pessoal e social.

Como vive a experiência de “deixar lugares e pessoas” desde sua saída da Itália e agora no retorno ?
Não perdi os amigos que já tinha na Itália e ganhei muitos outros amigos. Espero encontrar ainda novos amigos em minha nova missão. O segredo da amizade é aquele que Dom Giussani me ensinou: “Levar as pessoas a encontrar a beleza de Cristo e não ligá-las a mim”.

Como o carisma do Movimento Comunhão e Libertação contribui para seu ministério ?
O carisma de Dom Giussani é algo que marca a minha pessoa, inseparável do olhar que tenho para a realidade e para a Igreja.
É uma novidade que me acompanha desde quando me levanto e rezo o Angelus até os encontros com os padres, os trabalhos com os planos pastorais, nas Assembleias Gerais da CNBB, na Comissão de Doutrina, no Conselho Permanente da CNBB, no Leste 1 do Estado do Rio de Janeiro e agora na arquidiocese de Taranto e com os Bispos da Itália. Trata-se de algo que, como uma graça e um respiro, vem antes de tudo. Também antes das questões eclesiais, políticas e sociais. Do relacionamento com o poder político, da batalha feita com muito ardor para o Ensino Religioso Confessional e Plural no Estado do Rio de Janeiro e que agora foi reconhecida como algo válido para todo o Brasil pelo Acordo Brasil Santa Sé.
O carisma nos dá uma inteligência nova da realidade e nos lança no mundo com uma paixão irresistível. O carisma sempre me levou a viver a dimensão pública da fé como uma proposta de libertação para todos desde quando era professor de Teologia na Pontifícia Universidade Católica do Rio e tinha que lidar diretamente com a problemática da Teologia da Libertação. Este aspecto de presença na sociedade não pode ser perdido como manifestação da novidade que a fé introduz na vida.

Neste momento, quais são, em sua opinião, os maiores desafios e as principais perspectivas da Igreja no Brasil?
O Brasil e a América Latina precisam desta novidade para não repetir, particularmente nestes tempos de crescimento econômico, os erros da Europa que separou política e economia da religiosidade da pessoa e do substrato cultural cristão dos povos. Também vejo como importante na vida da Igreja uma valorização das experiências vivas dos Movimentos e das Novas Comunidades, e de muitos carismas presentes em comunidades paroquiais, para superar uma visão burocrática da Igreja, e responder, sempre em profunda comunhão com o Santo Padre e os Bispos, às grandes inquietações do nosso tempo. Como bispo, quero continuar a propor o que aconteceu na minha vida: um encontro que, mesmo nas dificuldades e contradições do nosso tempo, dá certeza ao nosso coração e alegria ao nosso rosto.