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OS FATOS

Contra a corrupção precisamos de um novo humanismo

por Papa Francisco
9/8/2017 - O apelo do Santo Padre nos parece a proposta mais concreta para nós no momento atual. Um chamado a todos os homens, sem distinção de posição política, a edificar um espaço comum onde construir um novo humanismo

O ser humano, de fato, tem uma relação com Deus, uma relação com o seu próximo, uma relação com a criação, isto é, com o ambiente no qual vive. Essa tríplice relação – na qual se insere também aquela do homem consigo mesmo – dá contexto e sentido ao seu agir e, em geral, à sua vida. Quando o homem respeita as exigências dessas relações, é honesto, assume responsabilidades com retidão de coração e trabalha para o bem comum. Quando, ao invés, ele sofre uma queda, isto é, se corrompe, essas relações se rompem.

Assim, a corrupção expressa a forma geral da vida desordenada do homem decaído. Ao mesmo tempo, ainda como consequência da queda, a corrupção revela uma conduta antissocial tão forte a ponto de desfazer a validade das relações e, portanto, depois, as pilastras sobre as quais se apoia uma sociedade: a coexistência entre pessoas e a vocação para desenvolvê-la.

A corrupção rompe tudo isso, substituindo o bem comum por um interesse particular que contamina toda perspectiva geral. Ela nasce de um coração corrompido e é a pior praga social, porque gera gravíssimos problemas e crimes que envolvem a todos. A palavra “corrupto” (corrotto) lembra o coração rompido (rotto), o coração partido, manchado por alguma coisa, arruinado como um corpo que, naturalmente, entra num processo de decomposição e exala mau odor.

A corrupção, de fato, é a arma, é a linguagem mais comum também das máfias e das organizações criminosas no mundo. Por isso, ela é um processo de morte que dá linfa à cultura de morte das máfias e das organizações criminosas.

Está em jogo uma profunda questão cultural que é preciso enfrentar. Hoje, muitos não conseguem sequer imaginar o futuro; hoje para um jovem é difícil acreditar verdadeiramente em seu futuro, em qualquer futuro, e assim também para a sua família. Essa nossa mudança histórica, tempo de crise muito vasta, retrata a crise mais profunda que envolve a nossa cultura. Nesse contexto encaixa-se e acontece a corrupção em seus diversos aspectos. E vai embora a presença da esperança no mundo, sem a qual a vida perde aquele senso de busca e possibilidade de melhoramento que a torna tal. Este livro explica bem a ramificação desses significados de corrupção, e o faz concentrando-se em especial na origem interior desse estado que, justamente, germina no coração do homem e pode germinar no coração de todos os homens. De fato, estamos todos muito expostos à tentação da corrupção: mesmo quando pensamos tê-la derrotado, ela pode se reapresentar. O homem deve ser visto em todos os seus aspectos, e assim, a corrupção precisa ser lida em seu conjunto, abarcando o homem todo, seja em suas expressões de crime, seja em suas expressões políticas, econômicas, culturais, espirituais.

O que acontece se a pessoa se fecha em si mesma e se o pensamento e o coração não exploram um horizonte mais amplo? A pessoa se corrompe, e corrompendo-se assume a atitude triunfalista de quem se sente melhor e mais esperto do que os outros. A pessoa corrupta, porém, não se dá conta de que está construindo, por si mesma, a própria algema. Um pecador pode pedir perdão, um corrupto se esquece de pedi-lo. Por quê? Porque não tem mais necessidade de ir além, de buscar pistas para além de si mesmo: cansase, mas está saciado, pleno de si. A corrupção carrega, de fato, em sua origem um cansaço com a transcendência, como também a indiferença.

A Igreja precisa ouvir, levantar-se e dobrar-se sobre as dores e as esperanças das pessoas, segundo a misericórdia, e deve fazê-lo sem ter medo de se purificar, buscando assiduamente o caminho para melhorar a si própria. A nossa corrupção é a mundanidade espiritual, a tibieza, a hipocrisia, o triunfalismo, dar prevalência ao espírito do mundo sobre as nossas vidas, o senso de indiferença. E é com essa consciência que nós, homens e mulheres da Igreja, podemos acompanhar a humanidade sofredora, sobretudo aquela que é mais oprimida pelas consequências criminais e de degradação geradas pela corrupção.

Enquanto escrevo, encontro-me aqui no Vaticano, em locais de uma beleza absoluta, nos quais a inteligência humana procurou elevar-se e transcender, na tentativa de fazer com que o imortal vença o caduco, o corrompido. Essa beleza não é um acessório cosmético, mas algo que coloca no centro a pessoa humana, para que ela possa levantar a cabeça contra todas as injustiças. Essa beleza precisa casar-se com a justiça. Assim, precisamos falar de corrupção, denunciar os seus males, entendê-la, mostrar a vontade de afirmar a misericórdia sobre a sordidez, a curiosidade e a criatividade sobre o cansaço resignado, a beleza sobre o nada.

Nós, cristãos e não cristãos, somos flocos de neve, mas se nos unirmos podemos nos tornar uma avalanche: um movimento forte e construtivo. É esse o novo humanismo, esse renascimento, essa re-criação contra a corrupção que podemos realizar com audácia profética. Precisamos trabalhar todos juntos, cristãos, não cristãos, pessoas de todas as crenças e não crentes, para combater essa forma de blasfêmia, esse câncer que deteriora as nossas vidas. É urgente tomar consciência disso, e para tanto é preciso educação e cultura misericordiosa, é preciso cooperação por parte de todos, segundo as próprias possibilidades, os próprios talentos, a própria criatividade.

Trechos traduzidos do Prefácio do Papa Francisco ao livro “Corrosione” (editado em italiano pela Rizzoli), escrito pelo Cardeal Peter K.A. Turkson com Vittorio V. Alberti.


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