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MARIA NA HISTÓRIA

A vós recorremos

por Fidel González
16/7/2015 - Na frente de combate ao perigo otomano ou enfrentando os efeitos da Reforma Protestante, a figura de Nossa Senhora impõe-se como segurança do povo cristão e esperança para o futuro. O florescimento de santuários e peregrinações

Durante o século XVII, “os valores da imaginação criadora assumem o máximo relevo” (S. De Fiores). Ampliam-se os horizontes do mundo ocidental com as descobertas e a colonização de países extra-europeus; a atividade missionária da Igreja chega a todos os cantos do mundo, em meio a grandes dificuldades e, às vezes, tendo que enfrentar terríveis perseguições, como no Japão e no Vietnã. Os debates teológicos são vivíssimos e geralmente têm como objeto, temas ligados à antropologia teológica e à salvação do homem. Temas que, muitas vezes, se refletem na arte e na literatura. No campo teológico, a Igreja responde às críticas dos protestantes de forma polêmica e sistemática. É um dos aspectos da chamada Contra-Reforma. Essa ampliação de interesses e de polêmicas afeta todos os níveis da vida.

Devoções marianas
Nesse ambiente cultural e eclesial é que se coloca o florescimento das devoções marianas: o nascimento de numerosas congregações que têm Maria como centro, a multiplicação de santuários marianos e das respectivas devoções no nível popular, e o surgimento de numerosos tratados sobre Maria.
Em torno dos jesuítas nascem as congregações marianas, iniciadas pelo jesuíta belga Leunis (1563); seus membros consagram-se a Maria com especial intensidade. Trata- se do “pequeno caminho” da vida cristã, em que Maria se torna a guia segura rumo à plenitude de Cristo. Aí se distingue São Luís Maria Grignion de Montfort (1673-1716), fundador dos Missionários da Companhia de Maria (monfortianos) e das Filhas da Sabedoria. Educado pelos jesuítas, ele se torna amigo de outras figuras excepcionais da história da França, como Claude-François Poullart des Placet, fundador da Congregação Missionária do Espírito Santo. Ele se tornará um apóstolo das zonas descristianizadas da França. Esse santo encarna o espírito católico da missão popular e da difusão da devoção mariana, junto com outros grandes santos contemporâneos, como São Vicente de Paulo (1660) e São João Êudes (1680). “Lembrai-vos de amar ardentemente Jesus Cristo – escreve Montfort em Carta aos moradores de Montbernage –, de amá-Lo por meio de Maria, fazendo brilhar diante de todos a devoção à Santíssima Virgem, nossa boa Mãe, a fim de que sejais por toda parte o bom perfume de Jesus Cristo... assim, cumpri e mantende fielmente as promessas do Batismo”. O Batismo ocupa o centro da sua experiência cristã e da sua proposta. Por isso, fazia com que se renovassem com frequência as promessas batismais, inclusive por escrito, e promovia a consagração a Jesus Cristo pelas mãos de Maria. Tal experiência torna-se o núcleo do seu Tratado sobre a verdadeira devoção à Virgem Maria (1711-1712), nascida de uma relação de amizade também com outros grandes santos.
Mas muito antes de Montfort os teólogos católicos já se dedicavam a escrever de forma sistemática sobre Maria: entre eles destaca-se o grande jesuíta Francisco Suárez, que no final do século XVI escreve numerosas obras a respeito. Para conhecer o Verbo segundo a natureza humana é preciso conhecer Maria, escreve. Distinguem-se também na mesma direção São Roberto Belarmino, São Francisco de Sales, e outros. O siciliano Plácido Nigido escreverá sistematicamente sobre Maria no início do século XVII, dando lugar à ciência teológica chamada justamente de Mariologia; seguirão seus passos Vicente Contenson (1674) e Dionísio Petavio (1652), que descobrem os aspectos marianos da antiga teologia patrística.
Depois do Concílio de Trento e durante todo o período barroco difundem-se numerosos livros marianos; começam a ser coroadas as imagens de Nossa Senhora e a se consagrar a ela as nações; muitos reinos, como a Espanha, fazem o voto de se empenhar, até ao derramamento de sangue, na defesa da Imaculada Conceição. Os reis espanhóis dedicam-se, com grande empenho, para que a festa da Imaculada Conceição seja celebrada por toda parte e para que se chegue à declaração pontifícia do dogma da Imaculada (o que será feito por Pio IX, em 1854). Em 1645, o rei da Espanha obtém do Papa a bula In his per quae Beatissimae Virginis, que estabelece a festa da Imaculada em todos os domínios do império espanhol. Não só: em 1656 é pedido e obtido que a Imaculada seja declarada padroeira de todo o reino espanhol.

Congregações, santuários, peregrinações
O povo cristão quer ver, tocar e sentir a presença do Mistério. Por isso, durante o período barroco – e mesmo depois – multiplicam-se as “memórias” dos mistérios de Cristo, da vida de Maria e dos santos. Por toda parte erguem- se capelas, constroem-se capelas nos cruzamentos das estradas, nas ruas das cidades... Elas são ornamentadas com flores e velas; os fiéis param ali, por breves momentos, para recitar uma prece, pendurar ex-votos.
Erigem-se os Montes Santos para celebrar os mistérios da salvação e onde o lugar reservado à Virgem Maria é sempre destacado, seja no percurso da Via Crucis, seja dos mistérios do Santo Rosário. Nós encontramos um exemplo no Monte Santo de Varese (Itália), transformado num gigantesco Rosário, que representa de forma monumental os quinze mistérios da vida de Cristo e de Nossa Senhora. No cume do monte ergue-se a capela consagrada ao último mistério, a coroação da Virgem, onde se venera uma antiga imagem de Nossa Senhora atribuída a São Lucas. Outro exemplo é o Monte Santo de Varallo, um santuário fundado em 1493 por um franciscano que trouxe da Terra Santa um afresco no qual é representada a sepultura da Virgem Maria e a sua ascensão ao céu. Pelo monte estão espalhadas 900 estátuas e 45 capelas, que evocam os mistérios da fé. Na mesma tradição encontramos outros montes santos, que enriquecem a geografia europeia com uma espécie de escala sagrada, ornada com capelas ou memórias dos mistérios de Cristo e de Maria, como o de São Lucas em Bolonha, o da Guarda em Gênova, e muitos outros.
Com frequência são famílias inteiras que saem em peregrinação para agradecer a Maria por uma graça recebida ou para implorar um favor. Os fiéis procuram ir a Cristo conduzidos pelas mãos amorosas de Nossa Senhora, que é representada com o Menino Jesus no colo; como Mãe das Dores, na Paixão, acariciando o Filho deposto da Cruz. Difunde-se, assim, a imagem da Pietà. No século XVII, essas imagens espalham-se sobretudo pela Alemanha, onde muitos santuários são dedicados a Nossa Senhora das Dores.
É também muito difundida a imagem da Virgem Maria com um grande manto, como refúgio dos pecadores. Nossa Senhora recebe o nome de Notre-Dame du-Bom Secours, ou do Perpétuo Socorro, ou outro nome semelhante, conforme o país. Na mesma linha encontramos Maria da Ajuda, como no santuário de Passau, na Alemanha. Nossa Senhora é representada com o Menino, que parece buscar refúgio entre os seus braços. Supõe-se que a pintura seja de Luca Granach, e teria sido um presente do eleitor protestante da Saxônia ao príncipe-bispo Leopoldo de Asburgo. Colocada numa pequena capela pelo decano da catedral, logo o povo começou a acorrer em massa. Entregue aos capuchinhos em 1624, depois ali foi erguido um grande santuário. Em 1677, fala-se de 120 mil comunhões distribuídas nesse santuário. Os peregrinos vêm de diversos países da Europa central e a imagem espalha-se por todos os cantos do mundo alemão.

Contra o perigo turco
Depois da introdução da festa de Nossa Senhora do Rosário, para celebrar a vitória dos cristãos em Lepanto (1571) sobre o império otomano, florescem numerosas congregações marianas, sobretudo do Rosário. Não se deve esquecer que o chamado “perigo turco” foi uma real ameaça para os cristãos da Europa central e meridional até o século XVIII. Nos diversos momentos dos duros combates entre os turcos e os cristãos, vemos que estes com frequência recorrem à ajuda de Maria, por meio da recitação do Santo Rosário. Assim ocorre durante o cerco a Viena (1683) e durante a luta pela libertação da Hungria (1716). Por ocasião deste último e grave perigo, o Papa estendeu para toda a Igreja a festa do Rosário. Durante o cerco a Viena, o frade capuchinho beato Marco de Aviano (1699) desempenhou um papel fundamental, como legado pontifício, na libertação da cidade e no trabalho de unificação dos cristãos. Nesse trabalho de promoção da união entre os povos europeus, divididos por opostos interesses políticos, ele usava sempre como método o exemplo de Maria e a oração a ela, como auxiliadora dos cristãos.
Essa vitória foi atribuída a Maria e, para testemunhá-lo, o imperador enviou a Passau os troféus de guerra, além de dar o apelativo de Maria, “Hilfe” ( ajuda), a todo um bairro da capital. Também anteriormente Nossa Senhora fora invocada pelos católicos em momentos trágicos, como em 1620, na batalha contra o rei boêmio protestante Frederico V. Depois da vitória, a ela foi dedicado um antigo templo protestante em Praga; o imperador Ferdinando II aí introduz, como ex-voto, uma estátua coroada do Menino Jesus, o célebre Menino Jesus de Praga, cujo culto se espalhou rapidamente pela Europa.
Casos semelhantes ocorreram também na França, com Maria sendo venerada em Benoîte-Vauz, durante a Guerra dos Trinta Anos em Lorena; por isso, a cidade de Nancy e os ducados de Lorena e do Bar colocaram-se sob a sua proteção. Na Polônia, a resistência vitoriosa de Czestochowa, assediada pelos protestantes suecos em 1655, tem história semelhante. A cidade foi libertada – diz-se – pela intercessão de Nossa Senhora (negra) de Jasna Gora. O rei da Polônia, João Casimiro, em abril de 1656, dedica, com voto solene, a Polônia à Virgem de Jasna Gora, e o santuário torna-se, a partir de então, o símbolo da consciência nacional polonesa e meta de contínuas peregrinações.
Um outro santuário famoso é o de Maria-Zell, nas montanhas de Stiria, na Áustria. Ele se tornará o santuário mais renomado de toda a Europa central. Os reis da Áustria visitam-no com frequência. A rainha Maria Teresa nele pendura as medalhas de seu marido e dos seus filhos. No período da guerra contra os turcos, o príncipe Esterhazy foi até lá numa peregrinação, com 11 mil devotos. Em terras que aderiram à Reforma Protestante, a sobrevivência do catolicismo está, geralmente, ligada precisamente aos santuários marianos, como na Suíça. No cantão Ticino, as cidades de Locarno e Lugano rejeitam a pregação dos reformadores justamente em nome do culto mariano. Recordamos o santuário de Einsedeln, denominado “Nossa Senhora dos Eremitas”, porque se diz que um eremita de nome Meinrado promoveu esse culto mariano.
Na Itália, a área que parece ter erguido o maior número de igrejas dedicadas a Maria foi Brianza (Lombardia), que conta hoje com cerca de 50 santuários marianos. Na história de cada um deles contam-se milagres, aparições e graças distribuídas aos peregrinos. São Carlos Borromeu, para formar uma barreira ao protestantismo, reforça o culto mariano construindo ou ornamentando as igrejas dedicadas a Maria. Em Monza, encontramos o santuário das Graças, que é descrito, no século XVI, como “o terceiro santuário da Itália, em termos de antiguidade, presença de público e milagres” (R. Beretta), depois do de Loreto e do Monte Santo de Varese. Com o mesmo título encontramos santuários em Milão (Santa Maria delle Grazie), mas existem por toda parte numerosos santuários também com o nome de Nossa Senhora da Ajuda ou dos Milagres. Como o de Caravaggio, na província de Bérgamo, onde, em 1482, brota milagrosamente uma fonte depois da aparição da Virgem Maria a uma jovem camponesa. No lugar do milagre, o duque Visconti de Milão constrói uma igreja, ornamentada depois por São Carlos Borromeu e destinada a se tornar meta de peregrinações. Muitas mulheres correm a pedir a ajuda de Maria, em seus santuários, para implorar a graça de ter um filho ou, naqueles tempos em que o parto era difícil e inseguro, pedindo que Nossa Senhora as protegesse nesse momento angustiante. Os santuários marianos de Chartre e de Altöting, como também de Santa Maria Podone ou de São Celso, em Milão, são exemplos disso.

Aparições e culto
Em geral, esses santuários marianos também são usados como leprosários durante a ocorrência da peste, ou outras vezes surgem em cemitérios de pessoas que morreram de peste. Ainda na Itália, Nossa Senhora aparece, em 1586, em Vellentimbro, na Ligúria, a um camponês; no lugar é construída uma igreja e, logo depois, a família Dória aí constrói um hospital. Trata-se do santuário de Nossa Senhora da Misericórdia. Em outras ocasiões, Nossa Senhora aparece em bosques, nos campos, geralmente a pastores, camponeses ou peregrinos, como em Imbersago, um vilarejo de Brianza, em maio de 1617, onde surgirá o santuário de Nossa Senhora do Bosque.
Outros santuários marianos com pequenas ou grandes igrejas são construídos em lugares onde se encontrou uma imagem de Maria, achados geralmente considerados milagrosos, como no caso de Santa Maria alla Porta, em Milão, em 1651.
O culto mariano torna-se, cada vez mais, grandioso e pomposo durante o século XVII. Com frequência, antigas estátuas de Nossa Senhora, românicas e góticas, sobretudo no mundo espanhol, recebem amplos vestidos de seda, bordados a ouro e enfeitados com joias preciosas. Os espanhóis e os portugueses divulgam nas Américas, nas Filipinas e por toda a Ásia portuguesa essas imagens de Nossa Senhora e os seus santuários. Maria torna-se a primeira “missionária”. Numerosas cidades levam o seu nome, e não há cidade ou pequeno vilarejo, no Novo Mundo, que não tenha um santuário dedicado a ela, que é o coração do povoado.

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