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MÚSICA

A nota da vida

por Luigi Giussani
7/6/2016

Este trecho de Chopin [A gota] eu tinha escutado dezenas e dezenas de vezes junto com o finado meu pai, que amava ouvir sempre música toda vez que tinha um tempinho para estar em casa. Meu pai gostava muito deste trecho e eu também começava a gostar: enquanto ia crescendo – nove, dez anos – começava a gostar. Gostava muito da melodia em primeiro pla¬no, porque é fácil de se entender e é muito agradável: o primeiro vislumbre do trecho impõe, com efeito, o caráter evocativo da música em primeiro plano.

Mas, depois de tê-lo escutado dezenas e dezenas de vezes – era ainda antes de entrar no seminário (faltavam ainda poucas semanas para entrar, porque eu já tinha decidido: de junho a outubro tinha decidido) – aconteceu que, enquanto eu estava lá sentado, ouvi que meu pai iniciava mais uma vez este trecho. Improvisamente entendi: entendi que não havia entendido nada. Entendi que o tema do trecho não era a música em primeiro plano, a me¬lodia imediata, terna e sugestiva, em primeiro plano; não era a audição instintiva do trecho que fazia emergir a verdade do trecho.

A verdade daquele trecho era uma coisa absolutamente monó¬tona, tão monótona é uma nota só que se repete continua¬mente, com alguma leve variação, do princípio ao fim. Mas quando alguém se dá conta desta nota, é como se o resto – e assim deve ser – passasse, não apenas em segunda linha, mas para as margens, tornando-se como a moldura de um quadro. No quadro está esta nota, o quadro é feito só desta nota, que se torna como que uma idéia fixa, e assim, do princípio ao fim, a gente é percutido continuamente por esta ideia fixa.

E eu entendi, sem ser capaz de pronunciá-lo em forma de discurso, entendi então de que se tratava. Eu disse: “A vida é assim! E¬ste trecho é belíssimo porque é o símbolo da vida”. Na vida o homem é percutido pelas coisas que o enternecem mais instintivamente, que instintivamente lhe agradam, lhe são confortáveis, aprazíveis... Enfim, domina o instintivo, o imediato, o fácil, o arrebatador.

Ao passo que a vida é uma coisa que está para além da música de primeiro plano: é uma nota só do princípio ao fim, desde quando o homem é criança até quando é velho.

Uma nota só. Quando a pessoa toma consciência desta nota, não a perde mais, não é mais possível perdê-la, fica como idéia fixa. Mas é uma idéia fixa que torna sábio o homem, é a idéia fixa que faz o sábio, é a idéia fixa que faz o inteligente, é a idéia fixa que faz o homem: é o desejo de felicidade. Aquela é a nota que do princípio ao fim domina e decide o significado de todo o trecho de Chopin; esta é a nota que decide do princípio ao fim o que é a vida do homem: é a sede de felicidade. Qualquer coisa que te agrade, qualquer coisa que te atraia, qualquer coisa que você deseje, no momento te alegra, mas logo passa. Porém existe uma nota que permanece intacta, ainda que com alguma leve mutação; do princípio ao fim permanece intacta na sua profundidade e na sua simplicidade absoluta, e – eu dizia antes – na sua univocidade domina a vida: a sede de felicidade.

Todos os artistas têm a genialidade de recompor e repetir, em algum trecho seu mais belo que os outros, esta monotonia, que é mais bela que qualquer variação.

Em certo momento, se você acompanha a nota como idéia fixa, é como se não conseguisse mais respirar, porque você está como que carregado, esta nota torna-se um peso, tanto que a um certo ponto a nota se retrai; em um dos últimos momentos, a nota se retrai e a música de primeiro plano parece ter vencido. É como dizer: “Final¬mente chegamos! Finalmente estamos livres”. E se distinguem duas, três, quatro notas, no fundo. Mas você mal chegou a pensar: "estamos livres desta nota", que a nota retoma e termina o trecho. A sede de felicidade, o destino de felicidade pode ser olvidado por breve tempo, esquecido, mas retorna, como urgência sem a qual o homem não pode viver: inicia e termina o breve trecho da nossa vida.

Assim nós fizemos ouvir de novo este trecho de Chopin para que aquela nota seja reconhecida por vocês em vocês mesmos: pois o eu é um trecho de música feito daquela nota, que tem aquela nota como tema, ainda que as coisas que impressionam sejam as mais superficiais: o prazer imediato, o gosto imediato, o sucesso imediato, a impressão imediata, a reação, o instintivo... Aquela nota destrói continuamente o instintivo e impede que a gente fique recostado ou parado; impede que você pare, se retenha, porque o instintivo petrifica: o instintivo do amor, o instintivo da beleza, o instintivo do gosto do trabalho, o instin¬tivo do sucesso te fossiliza, te empedernece. É esta nota que esmigalha estas pedras e move toda a realidade do tempo de nossa vida, move-a como a água do rio move as pedras e como o mar move a areia.

Cristo é a resposta à sede de felicidade, porque é o Mistério de Deus que se fez homem para nos fazer entender; ele se fez homem para comer junto, comer e beber junto, caminhar junto. Falava como falava qualquer outro, apenas havia dentro alguma coisa, havia dentro uma nota naquele homem.... “Ninguém nunca falou como esse homem”. Até que não aguentaram mais e o assassinaram. Mas ele ressuscitou... e a nota encerra o trecho.

*O texto acima foi extraído e traduzido do livreto encartado no CD FRYDERYK CHOPIN - Brani scelti, da coleção SPIRTO GENTIL (1997-2010).

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