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OS PAPAS NA HISTÓRIA

LEÃO XIII
O respeito do homem e de sua dignidade

por Eugênio Russomanno
20/4/2017 - Vinte e cinco anos de pontificado tentando reconciliar a Igreja com a época moderna. Vincenzo Pecci o faz através de tantas encíclicas. A mais importante? A "Rerum Novarum": fundamento da doutrina social e resposta à questão operária
Papa Leão XIII.
Papa Leão XIII.

Vincenzo Gioacchino Pecci nasceu em Carpineto Romano no ano de 1810 e morreu em Roma no ano de 1903. A intervenção mais significativa do seu pontificado foi a encíclica Rerum novarum (15 de maio de 1891) que constituiu o fundamento teórico da doutrina social católica e representou a resposta da Igreja sobre a questão operária. A encíclica denunciava as repercussões sociais das transformações econômicas provocadas pela expansão do capitalismo industrial, solicitava a formação de associações sindicais operárias inspiradas na solidariedade cristã, afirmava a necessidade de um papel do Estado nos conflitos entre capital e trabalho.

O pontificado de Leão XIII marcou para o papado um período de crescente prestígio; aumentou, com efeito, o número de representantes diplomáticos junto da Santa Sé (até Países não católicos firmaram relações diplomáticas com o papado); desta aumentada dignidade foram expressão também as homenagens unânimes que foram tributadas por todos os lados a Leão XIII, por ocasião dos seus jubileus pessoais. A Rerum Novarum pela primeira vez ofereceu uma via católica à questão social.

Ordenado sacerdote em 1837, Pecci entrou imediatamente no serviço da cúria pontifícia. Foi nomeado governador, primeiro, de Benevento e depois de Perúgia: em ambos os lugares demonstrou-se um administrador firme e capaz, também frente às tentativas subversivas de Mazzini. Foi nomeado cardeal em 1853. Como bispo de Perúgia tornou-se conhecido por suas posições favoráveis à conciliação entre catolicismo e cultura contemporânea. Em 1877 Pio IX chamou-o a Roma e o nomeou Camerlengo (o cardeal que governa a Igreja no período em que a Sé papal está vaga). No conclave de fevereiro de 1878, o primeiro convocado após a perda do poder temporal por parte da Santa Sé, a sua fama de prelado experiente e equilibrado lhe valeu a eleição ao trono pontifício. Foi eleito no terceiro escrutínio "como um moderado de ampla visão", escreve John Kelly.

Leão governou a Igreja por mais de 25 anos, manifestando dotes excepcionais e obtendo grandes sucessos para a Igreja e para todo o mundo católico da época. A sua obra maior foi a tentativa de reconciliar a Igreja com a época moderna. "O esforço de Leão XIII tinha em vista romper o curso tido como reacionário do seu antecessor e oferecer uma resposta cristã às agudas questões sociais, políticas e culturais do seu tempo" (A. Franzen). As suas posições contra o socialismo, o comunismo e o niilismo na Quod apostolici muneris (28 de dezembro de 1878), contra a maçonaria na Humanum genus (20 de abril de 1884), a sua doutrina sobre matrimônio na Arcanum illud (10 de fevereiro de 1880) são marcadas pela mais autêntica tradição doutrinal católica. Mas o que mais o destacou foi a abertura do diálogo entre a Igreja e o mundo moderno "com uma sensacional série de declarações solenes", observa ainda John Kelly.

Em muitas das suas encíclicas ele desenvolveu a sua teoria, prevalentemente inspirada no modelo do pensamento de Tomás de Aquino, do Estado cristão; dando relevo à independência e à dignidade do Estado. Na encíclica Aeterni Patris (4 de agosto de 1879) evidenciou a importância da teologia e da filosofia de Tomás de Aquino, aprovando oficialmente a filosofia neoescolástica e fundando em Roma uma academia para aprofundar tal doutrina. No Vaticano promoveu o estudo da astronomia e das ciências naturais, exortando os estudiosos católicos a estudar e pesquisar de modo objetivo; aos 18 de agosto de 1883 abriu o Arquivo Vaticano aos estudiosos de todas as confissões (o arquivo e a biblioteca do Vaticano foram, desde então em diante, centros de estudos históricos de importância internacional); Leão XIII se demonstrou um progressista também em matéria de ciências bíblicas, fixando na Providentissimus Deus (18 de novembro de 1893) novos critérios científicos para a pesquisa bíblica; definiu os âmbitos do poder temporal e do poder espiritual na Immortale Dei (1 de novembro de 1885); concedeu um formal reconhecimento à democracia na Diuturnum illud (29 de junho de 1881) e declarou na Libertas praestantissimum (20 de junho de 1888) que a Igreja era a guardiã da liberdade corretamente entendida.

De qualquer forma o ato mais importante do pontificado de Leão resta a encíclica Rerum novarum (15 de maio de 1891), na qual eram reconhecidos e assumidos pela Igreja teses e programas do movimento católico-social. A encíclica propunha uma terceira via entre o conservadorismo dos partidos liberais e a atitude subversiva dos socialistas, definindo a orientação da ação política e social dos sindicados e partidos católicos que iam surgindo. O elemento básico do pensamento social de Leão XIII é o respeito pelo homem e pela sua dignidade. Tudo o que pode lesar este princípio fundamental é condenado, em especial a deificação do dinheiro, do progresso, da técnica e da capacidade de controle e exploração da natureza. Um outro fator inovador foi a atenção para o papel do Estado na área social. Segundo o Papa, o Estado tem o dever de remover as causas do conflito entre operários e patrões, tornando-se árbitro e legislador atento aos direitos e aos deveres de todas as classes sociais. Por ter defendido a justiça social lhe foi atribuído o título de “papa dos trabalhadores” e Paulo VI o definiu "verdadeiro advogado do povo e fundador da sociologia cristã, a ciência da boa sociedade vivida segundo os princípios cristãos".

Também o aspecto político do pontificado de papa Leão XIII é certamente de se lembrar. Em um discurso consistorial de março de 1878, Leão reiterou as razões temporais da Santa Sé, mas com um tom menos áspero do que o do suo antecessor Pio IX, de tal forma que pareceu abrir-se a possibilidade de alguma conciliação com o Reino da Itália, logo inviabilizada, porém, pela atitude anticlerical do governo da esquerda histórica no poder. Leão procurou, portanto, apoiando-se na opinião pública católica internacional, manter viva a questão romana e obter, mediante o apoio das potências estrangeiras, uma restauração do poder temporal, mas a manobra fracassou. Um discurso consistorial de maio de 1887, no qual Leão auspiciava uma atitude conciliadora também por parte italiana, e a publicação do opúsculo A conciliação do abade L. Tosti, suscitaram mais uma vez esperanças, que logo se esvaíram, porém, devido a uma retomada de anticlericalismo. Nos anos seguintes, apesar da habilidade do secretário de estado cardeal Rampolla, Leão não logrou obter um melhoramento das relações da Igreja com a Itália.

No que concerne a “política externa” do pontificado de papa Leão, ele deu um grande impulso à expansão do catolicismo em terra de missão, fundando 248 sedes episcopais, 48 vicariatos ou prefeituras e dois patriarcados; em particular, instituiu 28 novas dioceses nos EUA e em 1892 nomeou o primeiro delegado apostólico para os Estados Unidos. O seu interesse pela unidade das Igrejas (foi o primeiro papa a falar de “irmãos separados”) é documentado e expresso por meio das encíclicas Grande Munus (1880) sobre os santos Cirilo e Metódio e Orientalium dignitas (1894), e por meio da ação prática, como o Congresso Eucarístico de Jerusalém (1893), bem como das suas cartas Praeclara (1894) e Satis cognitum (1896); na primeira convidava seja os ortodoxos seja os protestantes a retornar à fé romana, na segunda rejeitava a ideia de uma confederação das Igrejas, enquanto ideia não correspondente ao real corpo místico de Cristo. A carta Ad Anglos (1895) revela um interesse especial pela conversão da Inglaterra (foi ele, em 1879, que nomeou cardeal John Henry Newman).

Homem e papa bem consciente do valor do mistério da encarnação, dedicou 11 encíclicas a Maria e ao Santo Rosário, uma à obra redentora de Cristo e uma à Eucaristia. Instituiu a festa da Sagrada Família e, desenvolvendo uma iniciativa de Pio IX, no ano jubilar de 1900 consagrou o inteiro gênero humano ao Sagrado Coração de Jesus.

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