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DOCUMENTOS

Papa Francisco em Milão. A esperança num abraço

por Julián Carrón*
9/3/2017 - Assim como o Inominado de Manzoni, nós também podemos ficar admirados de que um só homem possa ser a pedra angular da solução dos nossos tormentos.

Caro diretor, pensando na visita do Papa Francisco a Milão, voltou-me à memória uma página pela qual nutro uma grande afeição e que os leitores do Corriere devem conhecer bem; ela parece-me descrever o sentimento de muitos nestas semanas: uma espera cheia de curiosidade.

“À claridade que vinha pouco a pouco crescendo, distinguia-se na estrada do fundo do vale uma gente que passava, mais outra que saía das casas e se dirigia para o mesmo lado, para uma passagem à direita do castelo, todos em trajes domingueiros e num alvoroço extraordinário. – Que diabo têm eles? [...] O castelão ficou encostado à janela, contemplando atentamente aquele espetáculo móvel. Eram homens, mulheres, crianças; em grupos, aos pares, sozinhos; um, alcançando quem lhe ia à frente, juntava-se a ele; outro, saindo de casa, juntava-se ao primeiro que se lhe deparasse; e prosseguiam juntos, como amigos numa viagem combinada. Os gestos denotavam manifestamente uma pressa e uma alegria comuns. [...] Ele olhava, olhava; e crescia-lhe no peito muito mais do que
uma curiosidade de saber o que seria tão capaz de transmitir um arrebatamento igual a tanta gente diferente. Pouco depois, o sicário veio referir-lhe que, na véspera, o Cardeal Frederico Borromeu, arcebispo de Milão, chegara […]. O castelão, ficando sozinho, continuou a fitar o vale, ainda mais pensativo. – Por um homem! Todos alvoroçados, todos alegres, para ver um homem! Entretanto
cada uma dessas criaturas deve ter um diabo que a atormente. Mas ninguém, ninguém terá um como o meu; ninguém terá passado uma noite como a minha! Que tem esse homem, para alegrar assim toda essa gente? […] Oh! se ele pudesse achar para mim as palavras capazes de consolar! Se...! Por que não hei de ir também? Por que não?... Eu vou, vou sim” (Cf. A. Manzoni, Os noivos. São Paulo: Abril Cultural, 1971, p. 179-181). Nós também ficamos tomados pelos nossos tormentos. Mas a própria consciência da nossa necessidade sem fim pode deixar-nos atentos ao menor sinal que anuncie uma possível resposta. Nós também, como o Inominado, podemos ficar admirados de ser um homem, um único homem, a pedra angular da solução dos nossos tormentos.

A chegada do Papa a Milão é para mim o reacontecer dessa possibilidade. E, na companhia do Inominado, digo a mim mesmo: “Eu vou, vou sim” encontrar aquele que tem palavras “capazes de consolar”, ou seja, de despertar a esperança.

Desejo que todos os que forem ver o Papa possam reviver a experiência do encontro perturbador descrito por Manzoni: “Tendo acabado de entrar o Inominado, Frederico foi ao seu encontro de rosto amável e sereno, e de braços abertos, como a uma pessoa desejada. [...] O Inominado [...] ao levantar os olhos para o rosto daquele homem, sentia-se penetrar mais e mais por um sentimento de veneração imperioso e ao mesmo tempo suave [...]. Frederico estendeu a mão para apertar a do Inominado. – Não! – bradou este. – Não! Longe, longe de mim! Não manche essa mão inocente e benfazeja. Não sabe tudo o que fez esta que quer apertar. – Deixe – atalhou Frederico, tomando-a com amorosa violência. – Deixe-me apertar essa mão que há de reparar tantos males, espalhar tantos benefícios, aliviar tantos aflitos, estender-se inerme, pacífica e humilde a tantos inimigos. […] O Inominado desvencilhou-se daquele abraço […] e exclamou: – Deus é realmente grande! Deus é realmente bom! Agora me conheço, percebo enfim quem sou; tenho as minhas iniquidades à frente, tenho horror de mim mesmo. Contudo…! contudo sinto um refrigério, uma alegria! Sim, uma alegria, como nunca senti em toda esta minha horrível vida!” (Cf. Ibidem, p.185-187).

Quem não gostaria de receber esse abraço do Papa Francisco? Aquele abraço que vimos repetir-se por todo o Ano da Misericórdia e que em breve alcançará fisicamente também a nossa diocese ambrosiana, como ressaltou o Cardeal Scola: “Encontrar pessoalmente o Papa, ainda que numa multidão, receber esse dom [...] é uma experiência que marca a vida” (11 de fevereiro de 2017).

Desejo que a admiração com a caridade do Papa para conosco nos leve a desejar ser como ele, experimentando o alcance pessoal e público da misericórdia, que nos torna – cada um onde estiver – mãos que reparam males, espalham benefícios, aliviam os aflitos e se estendem inermes, pacíficas e humildes, no abraço até mesmo aos inimigos.

Dizia Dom Giussani, filho desta diocese: “Cada um de nós, alcançado pela grande Presença, é chamado a ser reconstrutor de casas destruídas. [...] Cada um de nós é, todos os dias – desde que adiramos com sinceridade –, a bondade de Jesus, sua vontade de bem pelo homem que vive nestes tempos tristes e obscuros”, e assim “nasce o espetáculo de fragmentos de um povo, de uma sociedade diferente, definida por um clima diferente, [...] na qual se torna possível uma estima vencedora” (L’Osservatore Romano, 10-11 de fevereiro de 1997). E todos sabemos quanta necessidade há de sermos alcançados por um olhar cheio de estima para podermos enfrentar sem medo o incessante e quotidiano desafio da vida.

Corriere della Sera – 1 de março de 2017, p. 28.

*Presidente da Fraternidade de Comunhão e Libertação

 
 

Credits / © Sociedade Litterae Communionis Av. Nª Sra de Copacabana 420, Sbl 208, Copacabana, Rio de Janeiro - RJ
© Fraternità di Comunione e Liberazione para os textos de Luigi Giussani e Julián Carrón

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