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MAGISTÉRIO

Família, escola de humanidade

por Papa Francisco
23/9/2015 - Discurso do Santo Padre no Encontro com as Famílias (Catedral de Nossa Senhora da Assunção em Santiago, Cuba, 22 de setembro)

Estamos em família! E quando alguém está em família, sente-se em casa. Obrigado a vocês, famílias cubanas! Obrigado, cubanos, por me terem feito sentir todos estes dias em família, por me terem feito sentir em casa. Obrigado por tudo isto! Este encontro com vocês tornou-se como “a cereja do bolo”. Concluir a minha visita vivendo este encontro em família é motivo para agradecer a Deus pelo “calor” que brota de gente que sabe receber, que sabe acolher, que sabe fazer sentir-se em casa. Obrigado a todos os cubanos!

Agradeço a Dom Dionisio García, Arcebispo de Santiago, a saudação que me dirigiu em nome de todos e ao casal que teve a coragem de partilhar com todos nós os seus anseios, os seus esforços para viver o lar como uma “igreja doméstica”.

O Evangelho de João apresenta-nos, como primeiro acontecimento público de Jesus, as bodas de Caná, uma festa de família. Está lá com Maria, sua mãe, e alguns dos seus discípulos. Compartilham a festa familiar.

As bodas são momentos especiais na vida de muitos. Para os “mais veteranos”, pais, avós, é uma ocasião para recolher o fruto da sementeira. Dá alegria à alma ver os filhos crescerem, conseguindo formar o seu lar. É a oportunidade de verificar, por um instante, que valeu a pena tudo aquilo por que se lutou. Acompanhar os filhos, apoiá-los, incentivá-los para que possam decidir-se a construir a sua vida, a formar a sua família, é um grande desafio para os pais. Os recém-casados, por sua vez, encontram-se na alegria. Todo um futuro que começa. E tudo tem “sabor” de casa nova, de esperança. Nas bodas, sempre se une o passado que herdamos e o futuro que nos espera. Há memória e esperança. Sempre se abre a oportunidade de agradecer tudo o que nos permitiu chegar até ao dia de hoje com o mesmo amor que recebemos.

E Jesus começa a sua vida pública precisamente numa boda. Insere-se nesta história de sementeiras e colheitas, de sonhos e buscas, de esforços e compromissos, de árduos trabalhos lavrando a terra para que dê o seu fruto. Jesus começa a sua vida no interior de uma família, no seio de um lar. E é precisamente no seio dos nossos lares que Ele incessantemente continua a inserir-se, e deles continua a fazer parte. Gosta de entrar na família.

É interessante observar como Jesus se manifesta também nos almoços, nos jantares. Comer com diferentes pessoas, visitar casas diferentes foi um lugar que Jesus privilegiou para fazer conhecer o projeto de Deus. Vai à casa dos seus amigos – Lázaro, Marta e Maria –, mas – atenção! – não é seletivo: não lhe importa se há publicanos ou pecadores, como Zaqueu. Vai a casa de Zaqueu. E não era só Ele que agia assim; quando enviou os seus discípulos a anunciar a boa nova do Reino de Deus, disse-lhes: “Ficai na casa [que vos receber], comendo e bebendo do que lá houver” (Lc 10, 7). Bodas, visitas aos lares, jantares: momentos devem ter algo de “especial” na vida das pessoas para que Jesus prefira manifestar-se lá.

Lembro-me que, na minha diocese anterior, muitas famílias me explicavam que o único momento que tinham para estar juntos era, normalmente, o jantar, à noite, quando se voltava do trabalho e as crianças terminavam os deveres da escola. Era um momento especial de vida familiar. Comentava-se o dia, aquilo que cada um fizera, arrumava-se a casa, guardava-se a roupa, organizavam-se as tarefas principais para os dias seguintes, as crianças brigavam... era o momento. São momentos em que uma pessoa chega também cansada, e pode acontecer uma ou outra discussão, um ou outro “litígio” entre marido e mulher. Surgem, mas não é preciso temer… eu tenho mais medo quando os casais me dizem que nunca, nunca tiveram uma discussão. É raro, muito raro. Jesus escolhe estes momentos para nos mostrar o amor de Deus, Jesus escolhe estes espaços para entrar nas nossas casas e ajudar-nos a descobrir o Espírito vivo e atuante nas nossas casas e nas nossas realidades quotidianas. É em casa onde aprendemos a fraternidade, onde aprendemos a solidariedade, onde aprendemos a não ser prepotentes. É em casa onde aprendemos a receber e agradecer a vida como uma bênção, e aprendemos que cada um precisa dos outros para seguir em frente. É em casa onde experimentamos o perdão, e somos continuamente convidados a perdoar, a deixarmo-nos transformar. É curioso! Em casa, não há lugar para “máscaras”: somos aquilo que somos e, de uma forma ou de outra, somos convidados a procurar o melhor para os outros.

Por isso, a comunidade cristã designa as famílias pelo nome de igrejas domésticas, porque é no calor do lar onde a fé permeia cada canto, ilumina cada espaço, constrói comunidade; porque foi em momentos assim que as pessoas começaram a descobrir o amor concreto e o amor operante de Deus.

Em muitas culturas, hoje em dia, vão desaparecendo estes espaços, vão desaparecendo estes momentos familiares; pouco a pouco, tudo leva a separar-se, a isolar-se; escasseiam os momentos em comum, para estar juntos, para estar em família. Assim não se sabe esperar, não se sabe pedir licença, não se sabe pedir desculpa, não se sabe dizer obrigado, porque a casa vai ficando vazia: vazia não de gente, mas de relações, vazia de contatos humanos, vazia de encontros entre pais, filhos, avós, netos, irmãos. Recentemente, uma pessoa que trabalha comigo contava-me que a sua esposa e os filhos tinham ido de férias e ele ficara sozinho, porque tinha de trabalhar naqueles dias. No primeiro dia, a casa estava toda em silêncio, “em paz”, estava feliz, nada estava fora do lugar. Ao terceiro dia, quando lhe perguntei como estava, disse-me: quero que voltem todos já. Sentia que não podia viver sem a sua esposa e os seus filhos. E isto é bonito. Isto é bonito.

Sem família, sem o calor do lar, a vida torna-se vazia; começam a faltar as redes que nos sustentam na adversidade, as redes que nos alimentam na vida quotidiana e motivam na luta pela prosperidade. A família nos salva de dois fenômenos atuais, duas coisas que acontecem hoje em dia: a fragmentação, ou seja, a divisão, e a massificação. Em ambos os casos, as pessoas transformam-se em indivíduos isolados, fáceis de manipular, de controlar. E assim encontramos no mundo sociedades divididas, desfeitas, separadas ou altamente massificadas, que são consequência da ruptura dos laços familiares, quando se perdem as relações que nos constituem como pessoa, que nos ensinam a ser pessoa. E, infelizmente, a pessoa acaba por se esquecer como se diz pai, mãe, filho, filha, avô, avó… de certo modo, vão-se esquecendo estas relações que são o fundamento. São o fundamento do nome que temos.

A família é escola da humanidade, escola que ensina a pôr o coração aberto às necessidades dos outros, a estar atento à vida dos demais. Quando se vive bem em família, os egoísmos diminuem – existem, porque todos temos algo de egoísta –, mas, quando não se vive uma vida de família, vão-se formando personalidades que poderíamos designar deste modo: “eu, meu, mim, comigo, para mim”, personalidades totalmente centradas em si mesmas, que nada sabem de solidariedade, de fraternidade, de trabalho em comum, de amor, de discussão entre irmãos. Não sabem. Apesar de tantas dificuldades como estas que afligem hoje as nossas famílias no mundo, não nos esqueçamos, por favor, disto: as famílias não são um problema, são sobretudo uma oportunidade; uma oportunidade que temos de cuidar, proteger, acompanhar. É uma maneira de dizer que são uma bênção. Quando se começa a viver a família como um problema, você se cansa, não caminha, porque está muito centrado em si mesmo.

Discute-se muito hoje sobre o futuro, sobre o tipo de mundo que queremos deixar aos nossos filhos, que sociedade queremos para eles. Creio que uma das respostas possíveis se encontra pondo o olhar em vocês, nesta família que falou, em cada um de vocês: deixemos um mundo com famílias. É o melhor legado. Deixemos um mundo com famílias. É certo que não existe a família perfeita, não existem esposos perfeitos, pais perfeitos nem filhos perfeitos, nem – eu diria, mas não se aborreçam – sogras perfeitas. Não existem. Não existem, mas isso não impede que sejam a resposta para o amanhã. Deus nos incentiva ao amor, e o amor sempre se compromete com as pessoas que ama. O amor sempre se compromete com as pessoas que ama. Portanto, cuidemos das nossas famílias, verdadeiras escolas do amanhã. Cuidemos das nossas famílias, verdadeiros espaços de liberdade. Cuidemos das nossas famílias, verdadeiros centros de humanidade. Aqui me vem à mente uma imagem: uma imagem de quando, nas Audiências das Quartas-feiras, passo a saudar as pessoas, e muitas, muitas mulheres me mostram o ventre dizendo: “Padre, o abençoe?” Pois bem! Agora eu vou propor uma coisa a todas as mulheres que estão “grávidas de esperança” – porque um filho é uma esperança –: proponho-lhes que neste momento toquem o ventre. Se aqui há alguma, faça-o aqui. Ou as que estão ouvindo pela rádio ou pela televisão. E a cada uma delas, a cada menino ou menina que dentro está lá esperando, eu lhe dou a bênção. Então cada uma toque o ventre e eu lhe dou a bênção em nome do Pai e do Filho e do Espírito Santo. E desejo que venha são, que cresça bem, que o possa criar bem. Acariciem o filho que estão esperando.

Não quero concluir sem fazer menção da Eucaristia. Vocês devem ter notado que Jesus, como espaço do seu memorial, quis utilizar uma ceia. Escolhe como espaço da sua presença entre nós um momento concreto da vida familiar; um momento vivido e compreensível por todos: a ceia.

E a Eucaristia é a ceia da família de Jesus, que, de um extremo ao outro da terra, se reúne para escutar a sua Palavra e alimentar-se com o seu Corpo. Jesus é o Pão de Vida das nossas famílias, quer estar sempre presente, alimentando-nos com o seu amor, sustentando-nos com a sua fé, ajudando-nos a caminhar com a sua esperança, para que possamos, em todas as circunstâncias, experimentar que Ele é o verdadeiro Pão do Céu.

Daqui a alguns dias, participarei juntamente com famílias de toda a terra no Encontro Mundial das Famílias e, dentro de um mês, no Sínodo dos Bispos, cujo tema é a família. Convido-vos a rezar. Peço-vos, por favor, que rezeis por estas duas intenções, para que saibamos todos juntos ajudar-nos a cuidar da família, para que saibamos cada vez mais descobrir o Emanuel, isto é, o Deus que vive no meio do seu povo fazendo de cada família e de todas as famílias a sua morada. Conto com a vossa oração. Obrigado!

Palavras do Papa, no final, saudando do terraço

Quero saudar-vos e agradecer-vos a recepção, o entusiasmo… Obrigado! Realmente os cubanos são amáveis, bondosos e fazem uma pessoa sentir-se como se estivesse em casa. Muito obrigado! E quero dizer uma palavra de esperança. Uma palavra de esperança, que nos pede talvez para voltar a cabeça para trás e para diante. Olhando para trás, memória. Memória daqueles que nos foram transmitindo a vida e, de modo especial, memória dos avós. Uma grande saudação aos avós. Não esqueçamos os avós. Os avós são a nossa memória viva. E, olhando para diante, temos as crianças e os jovens, que são a força de um povo. Um povo que cuida dos seus avós e que cuida das suas crianças e dos seus jovens, tem o triunfo assegurado. Que Deus vos abençoe e permitam que vos dê a bênção, mas com uma condição – vão ter de pagar alguma coisa –: peço-vos que rezeis por mim. Esta é a condição. Abençoe-vos Deus Todo-poderoso, o Pai e o Filho e o Espírito Santo. Adeus e obrigado!

© Copyright - Libreria Editrice Vaticana

 
 

Credits / © Sociedade Litterae Communionis Av. Nª Sra de Copacabana 420, Sbl 208, Copacabana, Rio de Janeiro - RJ
© Fraternità di Comunione e Liberazione para os textos de Luigi Giussani e Julián Carrón

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