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OS FATOS

São dois os paraísos

por Alessandra Stoppa
12/8/2014 - Seul espera a visita do papa Francisco (14-18 de agosto) que beatificará 124 cristãos mortos in odium fidei. Uma rápida viagem por histórias, rostos e lugares que marcaram a Igreja coreana nascida, caso único no mundo, da fé dos leigos

A catedral de Myeondong, em Seul, está exatamente onde morava Kim-Beom-u. Um homem de letras, um intelectual. Dentro de sua casa, no início do século XIX, aconteciam os encontros dos primeiros cristãos desse país. Reuniam-se os amigos semeando o que é hoje a Igreja da Coreia, caso único no mundo em que a Igreja foi fundada por simples leigos. Kim-Beom-u morreu no exílio. Seu amigo Ly Beyok foi aprisionado por sua própria família e morreu aos 31 anos, depois de quinze dias de jejum.

Como eles, 124 mortos in odium fidei serão beatificados pelo Papa Francisco durante sua visita a Coreia, entre 14 e 18 de agosto. A história deles nos levará a conhecer a vida de fé que levou os católicos desse país (dez mil, em 1880) a chegarem hoje a 10% da população.

“Se há vento, haverá boa colheita”, diz padre Paolo Lee, custódio do santuário de Solmoe. O vento são as grandes provações que tiveram que enfrentar os discípulos de Jesus na Coreia (dos 230 anos de história da Igreja, 100 foram marcados por perseguições). E a semente da colheita é o ardor daqueles primeiros intelectuais que se empenharam na “sabedoria ocidental”: obras de Literatura e Ciência que chegavam da China, traduzidas por jesuítas. Estudiosos do confucionismo ficaram fascinados pelo que liam, cada vez mais desejosos de conhecer os autores. Foi a partir daqueles textos que encontraram a fé, que se tornou a deles.

Peter Yi Seung-hun foi o primeiro coreano a ser batizado. Em 1784, teve que ir a Pequim, para receber o sacramento, pois na Coreia não havia padres. Um ano depois, o catolicismo é banido do país, porém, em 1794, já eram quatro mil os batizados. Por causa das perseguições (a primeira em 1801), os fiéis que restaram esconderam-se nos campos mais distantes, “terras nunca atingidas pela pregação”. Lá viveram e anunciaram o Evangelho. Assim nasceram as Gyouchon, aldeias só de católicos: um novo mundo dentro daquele mundo impregnado pelo confucionismo e por uma rígida e injusta classificação social. A vida nas comunidades era diferente: o trabalho e o alimento eram condivididos, cuidava-se dos órfãos e dos doentes. As mulheres, desde sempre discriminadas, começavam a ser protagonistas.

Os primeiros religiosos chegaram ao país muitos anos depois. Em 1824, um dos responsáveis pela comunidade católica, Chong Há-sang, escreveu ao Papa pedindo-lhe que enviasse missionários. A carta chegou a Roma três anos depois e impressionou o então prefeito da Propaganda fidei, o cardeal Alberto Cappellari que, em 1831 se tornou o papa Gregório XVI. Uma de suas primeiras decisões, como pontífice, foi a de enviar um vigário apostólico da Coreia, o missionário francês Barthélemy Bruguière.

A história dos cristãos na Coreia é marcada por outras duas cartas: uma, datada de 19 de março de 2013, dia de São José, enviada ao Papa Francisco por Dom Lazzaro You Heung-sik, Bispo de Daejeon, a diocese na qual nasceram muitos dos mártires coreanos, na qual escreve: “Santidade, estou pronto a dar minha vida pelo senhor”. E a segunda, de 20 de outubro do mesmo ano, na qual o Bispo convida o Santo Padre para a Jornada da Juventude Asiática e a Jornada da Juventude Coreana: convite aceito.

“Rezemos para que esta visita represente um novo início tanto para a Igreja coreana quanto para a Igreja universal”, escreveu o Cardeal Soo-jung na introdução do livro recém-publicado na Itália, Cristãos na Coreia, no qual é apresentada uma entrevista na qual conta a história dos 124 futuros beatos. Mattia Choe In-gil foi o protagonista da primeira missa em coreano: estava pronto para traduzir a celebração de um padre vindo da China. Quando as autoridades descobriram a presença do sacerdote, Mattia fingiu ser o padre chinês mas a verdade foi descoberta e ele foi torturado e morto. Por sua vez, Simon Hwang Il-gwang tinha simplesmente a culpa de ser muito pobre. Desde sempre tratado como um escravo, descobriu a dignidade de sua vida no abraço da comunidade católica, o que fez que ele dissesse: “Agora creio que existem dois paraísos, um depois da morte e um sobre a terra”. Preso e interrogado, em 1801, recusou-se a dar o nome de seus amigos. Foi decapitado.

O livro de Martini Grimaldi é um percurso através dos lugares que serão visitados pelo Papa em agosto: do estádio de Daejeon, onde celebrará a missa da Assunção, ao santuário de Solmoe, lugar de nascimento de Andrea Taegon (o primeiro sacerdote coreano), onde Bergoglio encontrará os jovens asiáticos; e, ainda, a fortaleza de Haemi, centro das perseguições aos católicos que, em 18 de agosto, será o palco da missa conclusiva (são esperadas cem mil pessoas).

O livro é, também, uma viagem que vai dos primeiros “catecismos” coreanos para quem não sabia ler (cantos e poesias populares aos quais se mudou as palavras), ao drama dos mil abortos estimados, por dia, na Coreia, até os jovens cristãos de hoje. Há Elisabetta, que conheceu a fé através da avó “que se tornou católica na clandestinidade”. Ou seu irmão, morto aos treze anos com o desejo de tornar-se padre, o que levou seu pai à conversão. Depois, Rena que “adoeceu de tanto estudar” durante o temido Ksat, o exame vestibular para a escola superior. Os estudantes sul-coreanos chamam o último ano do ensino médio de “ano do inferno” mas, foi dentro dessa dificuldade que Rena conheceu o caminho de fé de alguns colegas e foi batizada, já há quatro anos. E há Maria, que veio de Buenos Aires, do bairro Flores, o mesmo do Papa Bergoglio. Formada em Medicina, chegou à Coreia e trabalha como voluntária no hospital de Kkottongnae. E espera Francisco.

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