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LEITURA

A força de Valjean

por Davide e Paolo Prosperi
29/3/2017 - O que há de tão potente em Os miseráveis? Eis uma tentativa de resposta, que perpassa pelas páginas escritas, pelo cinema e pelo musical
Anne Hathaway, que no cinema interpreta Fantine.
Anne Hathaway, que no cinema interpreta Fantine.

Quem é Jean Valjean? Quando o encontramos pela primeira vez, ele estava empenhado em carregar sozinho o enorme mastro da bandeira da França, sob as ordens do carcereiro Javert. Os dois se olham: nos olhos de Javert vislumbramos uma zombeteira complacência. Nos do prisioneiro, o fogo do ódio. Eis Jean Valjean: um preso com força hercúlea. De onde lhe vem essa força?
Valjean roubou, é verdade, mas de fato não se sente culpado. Cumpriu dezenove anos de cadeia por ter roubado um pedaço de pão – e nem era para ele próprio. Não, ele não se sente em dívida. É a França que é culpada e está em dívida com ele.
Não é, pois, só um dom natural a espantosa força de Valjean: ela materializa o ímpeto da sua cólera pelos dezenove anos que lhe foram roubados e que ninguém jamais poderá restituir. E se trata de uma cólera muito ardente e potencialmente devastadora, tão grande quanto a sua alma. De fato, tudo em Valjean é grande, embora ninguém, nem mesmo ele, o saiba.
Esse rápido aceno já basta para podermos ampliar o horizonte. Valjean é ele mesmo e também mais do que isso: ele encarna o espírito do seu tempo; na sua força arde a raiva contida de toda uma geração. Como os Marius, os Enjoras, os Courfeyrac que encontraremos nas barricadas de Paris, prontos a derramar o próprio sangue ao grito de Liberdade, Igualdade, Fraternidade, assim também Valjean é um homem ferido pela injustiça do mundo, do Estado, da lei, da sociedade.
Mas em sua vida acontece algo que lhe abre um caminho diferente, uma estrada que levará exatamente à meta por eles proclamada: “Levantamos a bandeira da liberdade, cada homem será um rei!”, cantam os jovens manifestantes, um dia antes da revolta em que quase todos perderão a vida. Na realidade, é em Valjean que acontece o sonho. Ele é o homem libertado, o homem que, de escravo que era se torna “rei”.
A metamorfose ocorre graças a um encontro. Saindo da prisão, Valjean perambula como um exilado. Embora tenha pagado a sua pena, o seu erro é uma marca de fogo que não pode ser apagada. Delinquente foi, delinquente continua a ser: o seu nome é 24601, o número de sua matrícula no presídio.
Perambulando, encontra o bispo Myriel, que o acolhe em casa. Valjean, de noite, rouba a prataria e foge, mas é capturado e levado de volta à presença do Bispo. Aí acontece o inimaginável. Myriel não só afirma que lhe tinha dado de presente a prataria, mas até o critica por ter deixado de lado os dons mais preciosos: dois candelabros de prata, que veremos de novo no final da história. Valjean, de fato, não se desfaz mais deles. Não o fará porque nesses candelabros está guardado o mistério do evento que o transformou de miserável em rei.

O resgate. Para compreender, é preciso notar a fineza da correspondência: há uma semelhança entre a situação de Valjean na saída do presídio e a do Bispo depois do roubo. Ambos foram “roubados”. Mas Myriel não se enraivece. Ao contrário; faz um gesto que tem o poder de dar um novo significado ao acontecido, embora sem cancelar a injustiça do fato: doa a Valjean o que este havia surrupiado. Aliás, acrescenta algo mais. E assim transforma o sinal da culpa de Valjean no sinal de um amor mais poderoso do que aquela própria culpa. Na verdade, aqui é o próprio Cristo quem irrompe ao vivo na existência do ex-presidiário. A mesma “alquimia” que Jesus realizou com seu sangue, Myriel realiza com a sua prataria. Como Jesus se entregou à morte em perfeita liberdade, aquele sangue que o golpe da lança fez escorrer do seu lado ferido (cf. Jo 19, 34) se torna, ao mesmo tempo, dom, sinal da insuperável potência do Amor, que vence o pecado no exato momento em que é cometido. O mesmo, de certo modo, faz Myriel. Ele doa para Valjean toda a prata que este havia roubado. E assim conquista o seu coração.
Eis o mistério da Misericórdia: o perdão de Cristo não é um indulgente “fechar o olho”, mas é a força do amor que liberta o homem do seu mal, pagando o resgate com o próprio sangue.

O dom. Mas há mais. Myriel não se limita a transformar a prata roubada em dom. Acrescenta os candelabros, que sozinhos valem mais do que tudo o que Valjean havia levado. Parece um detalhe, mas não o é: Valjean não é simplesmente liberado da sua culpa; ele recebe de presente de Myriel a descoberta de uma liberdade bem maior do que a simples absolvição, uma liberdade que, de fato, é sem limite. Chama-se gratuidade. Em Myriel, Valjean encontra a verdadeira liberdade, uma liberdade a tal ponto soberana que consegue transformar a injustiça sofrida num instrumento da própria afirmação. As fontes do rancor que o mantinham escravo são, assim, enxugadas. Valjean é libertado, libertado como aquele que pode doar-se sem medida, porque sem medida se reconhece amado.
Entendemos, então, porque os dois candelabros se tornam, para ele, o bem mais precioso. Eles materializam – por assim dizer – o algo mais que Valjean recebeu de Myriel: o poder de “redamare”, como diziam os medievais, isto é, de responder ao amor recebido com gratuidade. O homem redimido não é simplesmente um homem perdoado. Ele recebe como algo mais um poder que não tinha antes, que é o poder de participar da gratuidade mesma de Deus. “Lá onde abundou o pecado, a graça superabundou” (Rm 5, 20): é o dom do Espírito. Assim Myriel não se limita a perdoar Valjean. Confia-lhe uma tarefa, uma missão. “Mas lembre-se, meu irmão, veja nisso um projeto maior: você deve usar essa preciosa prata para se tornar um homem honesto. Pelo testemunho dos mártires, pela paixão e pelo sangue, Deus o levantou das trevas, salvou a sua alma”. Também nisso Myriel evoca Cristo. Assim, de fato, Jesus havia feito com Pedro: “Tu me amas? Apascenta as minhas ovelhas”. O Bispo não tem dó de Valjean. Não o acaricia como se faz com um cavalo coxo, do qual se tem pena. Não. Ele crê no poder soberano da graça, que levanta o mendigo e o torna um rei. E por isso aposta tudo nele, como se nunca tivesse caído. Como se tudo começasse hoje, pela primeira vez. E, de fato, isso é a Misericórdia. “As coisas velhas já passaram. Eis que nasceram novas...”.
E Valjean responderá. Todo o resto do romance, como do filme, mostra num crescendo o fruto da semente lançada pelo Bispo no coração dele: uma vida plena de gratuidade – uma gratuidade que leva Valjean a mover-se segundo uma lógica diferente daquela do mundo que gira à sua volta e que, feitas as contas, comove. Porque corresponde à verdadeira medida pela qual o homem é feito.
Isso não significa que o resto da vida de Valjean seja uma estrada reta. Ao contrário; a sua liberdade é continuamente posta diante de uma encruzilhada. Um desconhecido é confundido com ele e poderia ser condenado em seu lugar. Para Valjean seria a definitiva “libertação” do espectro da prisão. Mas ele pode trair a sua nova “liberdade”? Depois de uma noite atormentada, ele se apresenta diante dos juízes e reassume, desta vez livremente, aquele nome e aquele número, que no início havia raivosamente rejeitado: “Eu sou Jean Valjean. Eu sou o 24.601!”.
Quando fica sabendo que o jovem revolucionário Marius ama e é amado por sua Cosette, poderia fugir de Paris, como havia projetado. Ao invés, arrisca a vida para salvar a vida do homem que poderia levar embora o único afeto que lhe restara.
Enfim, quando Javert, seu provocador antes e implacável perseguidor depois, cai repentinamente em suas mãos, Valjean é, pela última vez, posto diante da alternativa entre duas liberdades: aquela do mundo, que calcula, e aquela da gratuidade, do amor ao Bem até o sacrifício. E de novo opta pela segunda. Talvez nenhuma cena capte melhor a transformação de Valjean do que o “resgate” do pobre Fauchelavant, que está sendo esmagado debaixo de um carro. Exposto ao olhar de Javert, Valjean sabe que uma sua intervenção poderia alimentar a suspeita que já brilhava na mente do ex-provocador: poucos, exceto ele, teriam a força de carregar tal peso... Mas Valjean não hesita, não faz cálculo. No filme, a música que acompanha a cena, não por acaso, é a mesma que, no início, acompanhava a hercúlea exibição de força de Valjean: a força da ira, de então, se transforma na força ainda maior do amor que se entrega sem hesitar.

O cume. Para concluir, não podemos deixar de abordar um ponto. Um dos maiores méritos do musical, junto com os óbvios limites em relação ao romance, é o fato de conseguir lançar, justamente através da semelhança das melodias, pontos entre cenas distantes, fazendo com que o espectador perceba nexos não imediatos. Les Mis, como o chamam os americanos, é toda uma trama desse tipo de evocações. Assim, a ária que expressa o tormento de Javert antes do suicídio é quase idêntica ao solo de Valjean, que, ao ficar só, luta consigo mesmo antes de se render ao amor recebido. Desse modo compreendemos um outro e decisivo aspecto: o impacto com a Misericórdia não anula o drama da liberdade diante de Deus. Ao contrário, o faz explodir em toda a sua radicalidade. No fundo, é justamente diante da Misericórdia que é posto a nu o drama do homem: aceitar a dependência da gratuidade de um outro, é, de fato, menos fácil do que parece.
Em L´attrativa Gesù, Dom Giussani diz que, em certo sentido, o cume do amor é aceitar ser perdoado. Por quê? Porque é difícil. É difícil porque “agride a cara do nosso orgulho, da nossa presunção. A pessoa, de fato, gostaria de ser amada porque tem valor”. E continua dom Giussani: “Mas se você quer ser amado porque tem valor, então não ama o outro. Ama a si mesmo”. Por acaso não é esse mesmo, afinal, o problema do homem moderno? A rejeição da dependência. A diferença entre Valjean e Javert está, no fundo, toda aí. Ambos são colocados diante da mesma Gratuidade. Mas um se rende, humildemente. O outro, ao invés, resiste; indo contra o próprio coração, que não pode deixar de render homenagem à justiça “maior” do inimigo de sempre. Ao encontrá-lo de novo na noite, enquanto este está levando a salvo Marius, Javert sabe muito bem o que deveria fazer. No entanto, pela primeira vez o seu coração hesita: algo como uma mão invisível o bloqueia. Valjean se afasta, com o jovem nas costas, e Javert o deixa ir. Mas não consegue se perdoar por ter feito isso. Uma brecha se abriu in the heart of stone. Todavia, Javert não consegue suportar o e estilhaçamento do seu “mundo”...

“O meu coração é de pedra, mas treme
O meu mundo se torna sombra
Este homem vem do paraíso
ou do inferno?
E ele sabe que poupando a
minha vida naquele dia
matou-me ainda mais?
Eu me inclino, mas caio
E as estrelas são negras e frias
Enquanto contemplo o vazio
De um mundo que terminará
Eu fujo do mundo
Do mundo de Jean Valjean”.


(Matéria publicada na edição de Novembro/2016 de Passos)

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© Fraternità di Comunione e Liberazione para os textos de Luigi Giussani e Julián Carrón

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