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OS FATOS

“Quero um pensamento, não teorias”

por Monica Scholz
8/9/2015 - “Um filme me acontece. Chega a mim. E percebo um sentido para mim”. Margarethe Von Trotta, autora dos filmes sobre Rosa Luxemburg e Ildegarda de Bingen, conta o seu percurso de mulher e a aventura de confrontar-se com Hannah Arendt.
Barbara Sukowa em uma cena de Hannah Arendt.
Barbara Sukowa em uma cena de Hannah Arendt.

“Está pronta a ver a realidade de frente”. É esta a coragem que a fascinou e que diz invejar. Margarethe Von Trotta, nascida em 1942, uma entre os maiores diretores de cinema europeus, a viu em Hannah Arendt e dela seguiu as pegadas até dedicar-lhe o seu último filme, que saiu na Alemanha em 2012, e chegou às salas italianas só em janeiro de 2014, graças a uma pequena distribuidora independente, a Ripley’s. Hannah Arendt narra os quatro meses do processo Eichmann, as 114 audiências que levaram a filósofa hebreia, enviada a Jerusalém pelo New Yorker, a dizer: “Tudo isto contradiz as nossas teorias do mal”. Referia-se à ideia de “mal radical” que ela mesma havia introduzido com as origens do totalitarismo, mas que chegou a negar: “Só o bem é radical”, vai escrever em uma carta de 1963.
O filme da Von Trotta é o retrato do pensamento da Arendt, um pensamento que recusa tornar-se teoria. “Nunca ritualizado”. E que tanto se parece com aquilo que se vislumbra no seu modo de trabalhar. “Quando dirijo um filme, eu não parto de uma mensagem para depois procurar uma personagem”, disse uma vez: “Um filme me acontece, um filme chega a mim e percebo um sentido para mim”.

No caso de Hannah Arendt, o que a fascinou na proposta de realizá-lo? Como iniciou esta aventura?
Eu já tinha me deparado com a Arendt fazendo o filme Rosenstrasse. Tinha estudado muito para entender a cultura hebraica e a história do nazismo no nosso País. E assim encontrei o seu livro sobre Eichmann e o processo em Jerusalém. Logo me marcou a independência dela em seus juízos: isto me agradou muito. Do mesmo modo eu gostara de Rosa Luxemburg também ela sempre independente do seu pensamento. Gosto das mulheres que pensam com sua cabeça. Mas certamente não pensei fazer um filme sobre uma filósofa, nunca me passou pela cabeça. Foi um amigo que, depois de Rosenstrasse me disse: “Sabe? Você seria verdadeiramente perfeita para fazer um filme sobre Hannah Arendt”. Eu respondi: “Está enganado, não é possível. Diga-me como se pode mostrar em um filme uma teoria ou uns pensamentos, uma pessoa pensando; não se pode mostrar uma pessoa sempre sentada à mesa e vê-la pensar. Não, não é para mim”. Depois, pouco a pouco, sabendo que eu tinha gostado do livro, tive coragem de entrar nesta estrada sem saber se teria podido sair de algum lado.

E o que aconteceu?
Conversei com minha roteirista auxiliar de Rosenstrasse, Pamela Katz, que, na época, eu havia escolhido porque pensava que soubesse tudo sobre ritos e tradições hebraicas (ainda que, no fundo, descobríssemos que eu já sabia muito mais que ela, tendo lido tanto. Aliás, a Pam diz sempre: “procurem a Margarethe”, para saber de verdade alguma coisa sobre os hebreus). Ela ficou logo entusiasmada por trabalhar comigo e, morando em Nova York, poderia ter feito pesquisas sobre a Arendt. Isto era o plano de fundo. Eu me sentia como num sanduiche, esmagada durante um ano e meio entre dois que pressionavam para que eu fizesse absolutamente este filme. Começamos a ler, indo em frente por anos, lemos quase tudo. Procurei o último assistente da Arendt e alguém que pudesse contar-me alguma coisa sobre ela. Eu li toda a correspondência disponível. Na Alemanha fora editada a com Heidegger, com Jaspers, que é talvez a correspondência mais importante. E depois a com Mary McCarthy, com Kurt Blumenfeld, com Bloch. E com seu marido Heinrich Blücher. Assim, lentamente, senti e entendi que personagem ela era.

O que a senhora descobriu?
No começo, pareceu-me uma pessoa muito arrogante: eu tinha escutado aquela famosa entrevista que fez com Günter Gauss, apenas tinha escutado de um CD. E disse: não, não me agrada esta mulher, é arrogante demais, não posso, não posso entrar em contato com ela. Depois a vi de novo na televisão, e vi que era uma mulher com muito charme, de repente, uma pessoa totalmente outra. Muitos homens se apaixonaram por ela, mesmo quando não era mais tão bela como quando era jovem. Portanto, devia ter alguma coisa de atraente, não só a sua cabeça. Então, pouco a pouco me aproximei, também pensando em que época, em qual momento de sua vida poderia concentrar-me. Porque estava claro que não podíamos descrever a sua vida do início ao fim. Teria sido demais, com saltos demais, uma maratona demasiadamente acelerada e não poderíamos aprofundar nenhum momento. É uma filósofa, é uma pessoa que pensa, devíamos de algum modo aprofundar este seu pensamento. Só no final encontramos esta solução dos quatro meses do processo Eichmann. Ali, quando decidimos concentrarmo-nos só sobre isto, senti-me protegida. Senti-me pronta a empreender este trabalho dificílimo.

E a senhora tocou no ponto mais original, para nós que assistimos o filme, ao escolher o tema da “banalidade do mal”. É uma coisa que nos perturba, ouvir esta expressão. E custamos a entendê-la, a vê-la, porque “banalidade do mal “quer dizer responsabilidade, juízo, discernimento entre o bem e o mal, e esta é uma atividade difícil”.
Eichmann, com efeito, não sabia fazê-lo. A Arendt diz que Eichmann não era estúpido, mas não pensou, não viu, não soube distinguir entre o mal e o bem.

Certa vez a senhora falou de uma diferença muito interessante e exemplar. Disse que o único antídoto a esta homologação que há no mundo é: pensar. E acrescentou: existem três tipos de homens. Aqueles como Eichmann, um homem medíocre que não pensa, mas executa. Depois um Heidegger que pensa, e contudo cai ele também na ideologia. E depois há uma Hannah Arendt que pensa e permanece livre...
Que pensa, e isto o diz no seu discurso final, porque com o pensar o homem pode proteger-se, pode não cair na armadilha.

Mas, agora que a senhora conheceu mais de perto, que respirou essa sensibilidade de uma Arendt, que havia estudado santo Agostinho e a importância da unidade de corpo e espírito no conhecimento, se tivesse que descrever aquele seu pensar, o que diria?
Que o seu pensamento nunca é baseado sobre uma teoria. Por isto, nunca é ritualizado, nunca é ligado ao que disse no dia anterior. Ela olha o mundo sempre com olhos novos e do momento; e esta é a diferença entre ela e Heidegger.

Se olho três mulheres de seus filmes: Rosa Luxemburg, Ildegarda de Bingen e Hannah Arendt, vejo um percurso: da ideologia ao eu. Acaso foi também o seu percurso?
Eu não fui verdadeiramente uma ideóloga. No fundo, nem mesmo Rosa Luxemburg. De fora era vista como uma revolucionária forte e cruel, foi chamada “bloody Rosa”. Mas, quando a olhamos de perto, tal como Hannah Arendt, percebemos que era um ser profundamente sensível, ligada à natureza, à paz. O fato de que ela, amante da paz, queria ter sido uma revolucionária, era meio contraditório. Mas estas contradições me atraem. E, quando lemos também as cartas da Luxemburg, podemos ver o quanto ela era humana, interessada ao outro, incentivadora para seus amigos, e como ela tinha um tom tão caloroso, muito mais caloroso que a Arendt. E, com efeito, ela vinha do Leste, enquanto Hannah Arendt era profundamente ashkenazita, uma hebreia alemã de uma família culta. Certamente, quando eu fiz Rosa Luxemburg, ainda era de esquerda e naqueles tempos não me aproximei da Arendt, porque não era muito bem vista por nós de esquerda. Ela havia escrito As origens do totalitarismo, obra na qual comparava comunismo e nacional-socialismo. Para nós, o nacional-socialismo era um totalitarismo, já o comunismo era ainda uma coisa intocável.

E depois, que tipo de reflexão aconteceu, como mudou o seu olhar sobre a realidade?
Eu era radicalmente de esquerda. Não é que hoje eu veja as coisas de modo diferente, mas naquela época éramos como os ativistas de ‘68 que pouco conheciam o passado. Entendi que aquele caminho era completamente errado e isso se vê no filme que fiz sobre a RAF (grupo terrorista alemão.). Então de certa maneira tem razão. Não é mais um pensamento de uma ideologia, mas um pensamento humano. Hannah Arendt é uma verdadeira humanista, pronta a ver a realidade verdadeira de frente.

A senhora disse que queria ter este olhar sobre a realidade.
Sim, ela tinha um olhar para o passado e para o futuro que era muito mais lúcido que o meu.

Ainda sobre estas três mulheres, Rosa Luxemburg, Ildegarda de Bingen e a Arendt, são três mulheres fascinantes, com muitos contrastes. São mulheres cheias de energia e cheias de fragilidade. O que fascina a senhora, também do ponto de vista do “feminino” delas?
Não é só o “feminino”, mas o seu ser complexas, sob certos aspectos contraditórias. Interessam-me, propriamente, os contrastes e as contradições. Porque também na minha vida, ou no meu temperamento, ou na minha alma, amiúde sinto-me “duas”. Dois extremos que tenho a impressão de não poder juntar. Por isto nos meus primeiros filmes usei sempre mais mulheres. Fiz um filme sobre três irmãs que eram no fundo uma só pessoa. Mas tive que ter três personagens para mostrar todos esses caracteres de uma só pessoa.

O filme termina com esta grande frase da Arendt: “Só o bem é radical”.
Este é o caminho que ela percorreu através da sua observação de Eichmann. No seu livro sobre o totalitarismo tinha falado do mal radical, e também no filme a certo ponto fala do mal radical. É um pensamento corajoso: sem aquela crueldade, sem a experiência do totalitarismo não teríamos tido a possibilidade de ver e conhecer o mal radical. Ela está quase contente por ter tido esta ocasião de entender o que é. Só depois de ter observado Eichmann, escreveu o livro sobre esta forma de mal ou de não-mal, entendeu que o mal não pode ser radical, só o bem o é. E isto o diz em uma carta a Gershom Scholem que a havia acusado de não amar o seu povo.
Isto tinha se tornado, a meu ver, o caminho rumo a uma luz; até o fim da sua vida ela se ocupou com a ideia do mal, procurou entendê-lo.

O filme teve um grande sucesso: por que, a seu juízo?
Eu acredito que vivemos em um momento no qual temos a impressão de não poder mais pensar de verdade com a nossa cabeça. Que todos somos tão condicionados pelas crises, pelas modas, pela política, pela publicidade, pela televisão. Não temos mais um espaço livre para dizer-nos quem somos e o que temos como dom. Com Hannah Arendt, quem viu o filme, encontrou uma pessoa que queria entender e, talvez, agora tem, por sua vez, o desejo de utilizar mais a própria cabeça. Porque o pensar é para mim um dom da natureza, que nós devemos usar, e isto as pessoas entendem. Têm vontade de mudar, mas não sabem ainda como e para onde ir. Não há mais as normas da religião, mas talvez Deus ficaria contente se nós usássemos o dom que nos deu.

(Artigo publicado na Revista Passos n.166, janeiro/ fev 2015)

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