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OS FATOS

Eu diante do Papa

por Luca Doninelli
13/7/2011 - No dia 4 de julho, Bento XVI falou com os artistas. Luca Doninelli, jornalista e escritor, nos conta o “seu” encontro com o Santo Padre: “a certeza que vi no seu rosto é o dom mais bonito que eu já recebi...”
Bento XVI durante o encontro com os artistas.
Bento XVI durante o encontro com os artistas.

Imagino a dificuldade dos cronistas diante da necessidade de escrever sobre este evento. Qual foi o evento? O verdadeiro evento?
A moldura, comecemos pela moldura. Depois do encontro do Papa com os artistas em novembro de 2009, o Cardeal Gianfranco Ravasi quis continuar no caminho da retomada do diálogo entre arte e fé. A ideia é justa: a arte não pode perder aquela “ferida da beleza” de onde nasceu, para continuar a perseguir os fantasmas pós-modernos da Provocação e da Transgressão a todo custo. A arte deve voltar a falar ao coração do homem.
A nova iniciativa de Ravasi ganhou corpo por ocasião do 60° aniversário de ordenação sacerdotal de Bento XVI. O comunicado chegou em fevereiro: sessenta artistas presenteariam o Santo Padre com uma de suas obras. As obras seriam expostas no átrio da Sala Paulo VI. Dia da inauguração: 4 de julho.
No entanto, esta foi apenas a moldura, mesmo que muito bonita. No meio dela toda a ferrugem que mais de meio século de recíproca indiferença entre Igreja e artistas (assim pensa o vulgo, mesmo que, segundo penso, as coisas seja um pouco mais complicadas) havia depositado em nós, artistas: não tanto em nossos sentimentos – porque mesmo o artista mais transgressivo experimenta sempre, pelo menos, um pouco de respeito quanto à instituição Igreja –, mas em nossos projetos.
Que lugar um evento como este tem no nosso sistema de expectativas, na agenda das nossas prioridades? Que importância damos a um encontro pessoal, ainda que muito breve, com o Papa? Com este Papa?
Porque o protocolo previsto por Ravasi chegava até ali: depois de um breve discurso do Santo Padre, cada artista se colocaria diante de sua própria obra e, quando o Papa chegasse para visitar a exposição, o artista deveria falar brevemente sobre sua obra.
Não sei quantos de nós se deram conta de que, por um minuto, um minuto e meio, estariam diante de Bento XVI. Não sei quantos de nós entendiam claramente a importância daquele momento. Cada um vive no seu habitat, e o habitat dos artistas normalmente é feito de outras hierarquias. Quem sabe se, no lugar do Papa, estivesse, sei lá, o célebre proprietário de galerias de arte Gagosian, a emoção tivesse sido melhor percebida. Meu Deus, o que Gago dirá?

Quanto a mim, a ideia de ao menos apertar sua mãos, de poder beijar o anel do Papa, já me tirava o sono. Eu estava feliz, um pouco confuso por causa deste estranho privilégio – o único narrador do mundo convidado para este encontro! – mas, ao mesmo tempo, exatamente o sentido de desproporção que me invadia me fazia sentir como se eu fosse um súdito qualquer convocado inesperadamente para estar diante do rei.
Eis dois dos meus problemas.
Primeiro: como me vestir? O meu amigo Emanuele me proibiu de usar a camisa de sempre: certamente o Papa não se importa com o como você está vestido, mas o seu entorno sim. E então? Então, de repente, me dei conta de que não possuo o terno certo, nem a camisa certa. E os sapatos? Será que eles vão olhar também para os sapatos? Talvez não. Eu até os tenho, mas será que são bons?
Outro problema. Estou firmemente determinado a me ajoelhar diante dele, porque tenho um pedido no coração, um pedido inevitável. Então, me ajoelharei seja como for, porque diante do Papa sinto que sou apenas um pedido, nada mais do que isto: um artista, um escritor, um intelectual, no máximo um pai/marido/amigo para alguém, mas substancialmente um nada, um gemido, um pedido. E então, Emanuele, como sempre, me lembra que eu deverei providenciar um apoio para me levantar, porque corro o risco de ficar ali para sempre. Cento e vinte e cinco quilos não são como cinquenta, levantar é difícil... experimentem para ver. Tudo isto, para dizer como ficamos quando algo de desproporcional se aproxima. Toda presunção desaparece, e nos descobrimos feitos de pó – e, além do mais, um pouco ridículos.

O Papa deveria chegar às 10h30, mas teve uma dificuldade e acabou se atrasando. Mais tarde, saberíamos qual era a natureza da dificuldade: teve que se ocupar da excomunhão de um bispo chinês. Alguns aproveitam para uma pausa: um café e um cigarro. Serpenteiam os lugares comuns de sempre daqueles que querem se fazer de compreensivos: “também, com tudo o que tem para fazer...”.
Mas, pouco depois do meio-dia, eis que chega: um aplauso levemente surpreso o acompanha. Tem as palavras de boas-vindas do Cardeal Ravasi, depois uma belíssima voz acompanhou o maestre Arvo Pärt, um dos maiores compositores vivos, que se assenta ao piano para executar um Pai nosso em alemão escrito especialmente para o Papa: um canto simples e profundo, de traços elegantes, marcado por pausas de silêncio cheio de fascínio.
Depois, coube ao Papa. Um discurso breve, que não vou citar porque pode ser lido na íntegra. São palavras claras, límpidas e ao mesmo tempo comprometidas, nas quais cada artista pode ler toda a tensão do seu próprio trabalho. Como é possível manter juntas beleza, verdade e caridade? E no entanto não é a isso que aspiramos? O que mais deseja um artista, no fundo, se não se doar inteiro, para que a beleza que lhe foi permitido poder tirar do coração das coisas, se torne uma carícia, um abraço, um aperto de mãos para alguém?
Fico tocado com a inteligência da fé, que sabe descer até à profundidade das coisas não para transformá-las, mas para transfigurá-las. Mas o que é a transfiguração de algo se nãoa afirmação definitiva do seu ser, do seu valor, da sua verdade? Tantos pedaços do meu trabalho, tantos problemas concretos que me vejo tendo que enfrentar florescerm, iluminados, nas palavras do Papa. Todos, artistas e não artistas, precisamos que a beleza da verdade e da caridade toquem o íntimo do nosso coração e o torne mais humano.

Mas, finalmente chegou o momento! Não demoraria muito e eu o encontraria. Olhei para os rostos dos meus companheiros de aventura. Há os que fingem que estão tranquilos, como se se tratasse de um encontro como outro qualquer, mas a emoção, às vezes a comoção mesma, pode ser vista em seus olhos, no olhar que vagueia procurando um apoio (uma reserva caduca, diria Clemente Rebora), um pensamento comum, um pedacinho da usual e confortável rotina.
O Papa se aproximou, acompanhado pelo Cardeal Ravasi e por fotógrafos e jornalistas. Ele parecia ignorar a confusão que o circundava e seguia direto para os artistas, para as obras: como se não esperasse nenhuma homenagem e, pelo contrário, fosse ele a querer homenagear a obra humana, aquele fio de honestidade e de fraqueza que, frequentemente, transparece por trás da aparente segurança de quem quer mostrar saber daquilo que fez. Olhou-nos por aquilo que somos: pobres pedaços de terra com um coração vermelho no centro, exatamente como o Ícaro de Matisse.
E ele, finalmente, chegou em mim. Apresentaram-me. Ajoelhei-me, beijei o seu anel, o Papa quis tirar a mão, mas eu a agarrei bem com minhas patas de urso pardo. Levantei-me o mais rápido que pude (eu havia treinado o gesto diversas vezes no quarto do hotel), balbuciando o pedido que trazia no coração desde o dia de fevereiro em que recebi a convocação. Sempre a mesma oração.
Mas, foi o seu rosto que me surpreendeu. Expliquei-lhe que a ideia do relato que lhe dava nascia da leitura de um de seus escritos. Título: O homem realizado. Argumento: Emaús. Enquanto explicava, eu olhava para ele. Conheci-o em 1985, por ocasião de uma reunião. Havia visto o seu rosto milhares de vezes, fotografias em jornais ou na TV. Mas, aquilo que eu via diante de mim não pode ser explicado com precisão. O seu rosto, os seus olhos, possuem uma luz que transforma aquele mesmo rosto: uma paz, uma letícia – depois de uma coisa dolorosa como uma excomunhão, uma ferida no corpo da Igreja! – que não podem ser deste mundo.
Não sou um visionário, venho de uma família laica, sou um intelectual típico dos nossos dias, que está sempre lutando contra o cinismo e o ateísmo teórico e prático que nem tanto a ideologia explícita, mas o exercício mesmo da profissão de intelectual (escrever livros e artigos, dar conferências, manter relações com estes e aqueles), adentram o pensamento de qualquer homem que seja, mesmo aquele que se diz crente.
Mas, aquela luz era algo de objetivo. E a luz de um homem que, certamente, é um dos maiores intelectuais vivos, mas em quem a fé realizou um milagre: o de testemunhar não somente aquilo que pensa, mas também e sobretudo aquilo que vê. É o rosto de um homem que – não saberia como dizer melhor – vê as coisas de que fala. Naquele rosto, eu vi, perfeitamente resumidas, todas as coisas que o meu longo caminho em CL me ensinou: o grito do coração humano, a dor e a nostalgia do Bem, a surpresa do encontro, o dom do alto que não para de se comunicar a quem é fiel a esta história, que é uma história excepcional porque nos permite, dia após dia, dificuldade após dificuldade, derrota após derrota, alegria depois de alegria, verificar, ou seja, ver nascer da terra, a verdade que as palavras de Dom Giussani nos comunicaram.
Aquilo que carrego desse encontro é uma certeza cheia de paz. Não uma emoção, não um sentimento. Os problemas que me atormentam, as dores que me afligem não foram arrancadas, mas foram salvos, ou seja, foram preenchidos com significado, e, por isso, não dão mais medo. E retornam à minha mente as palavras de Jesus a Pedro, depois do “sim” na beira do lago de Tiberíades: “Quando fores velho, estenderás as tuas mãos, e outro te cingirá e te levará para onde não queres”.
A certeza da vida não está, de fato, naquilo que conseguimos fazer (e juro a vocês que não sou um fatalista, e que tem um monte de coisas que eu quero conseguir fazer), mas na obra de um Outro: eu sou Tu que me fazes, mesmo na hora da nossa morte.
Esta certeza é a luz definitiva que vi no rosto de Bento XVI, o dom mais bonito que eu já recebi. Enquanto eu olhava para ele, a minha mente voltava para quando, aos 15 anos, acabei quase por acaso numa reunião dos colegiais, na minha cidade. Eu revia aqueles rostos: Laura, Gloria, Daniela, Giorgio, Carlo, Lia, Ettore, Marco. Alguns deles estão ainda conosco, outros não. Alguns voltaram para a casa do Pai. Mas o fio desta história que, daquele dia distante, me conduz até a este encontro, é a coisa mais concreta que eu tenho.
A minha gratidão não é somente ao Papa, mas a toda a minha história: a Dom Gius e a Padre Julián, aos meus amigos, aos meus companheiros de caminho. Existe um ponto na vida, no qual a unidade dos eventos precede – com uma evidência outras vezes difícil de se ver – todas as diferenças; um ponto no qual, milagrosamente, o que estava despedaçado se recompõe, e as feridas são medicadas.
O milagre daquilo que nos aconteceu é exatamente este, de forma que podemos até mesmo amar aqueles que nos odeiam.

 
 

Credits / © Sociedade Litterae Communionis Av. Nª Sra de Copacabana 420, Sbl 208, Copacabana, Rio de Janeiro - RJ
© Fraternità di Comunione e Liberazione para os textos de Luigi Giussani e Julián Carrón

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