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Passos N.133, Dezembro 2011

PÁGINA UM

O mais poderoso desafio à positividade do real

Notas da Assembleia de Julián Carrón com os universitários da Faculdade de Ciências da Universidade dos Estudos de Milão, por ocasião da morte de Giovanni Bizzozero. Faculdade de Física, Milão, 9 de novembro de 2011

FEO. Uma das coisas que Julián me disse na manhã de sexta-feira, quando soube da morte de Bizzo, foi esta: “Com a sua morte, Bizzo fez um grande gesto de amizade por nós, porque nos colocou a todos diante do eterno”. Posso dizer, por experiência vivida nestes dias, que essa frase é verdadeira. Meu desejo, hoje, é que possamos nos ajudar a olhar o que realmente aconteceu, deixando-nos provocar profundamente: podemos dizer também hoje, diante da morte de um amigo querido, que, em última instância, a realidade é sempre positiva? A partir de quais sinais na experiência podemos dizê-lo? Entendam que, frente a essa pergunta, está em jogo a nossa vida. Estou aqui com o desejo de que possamos nos ajudar a olhar as urgências que afloraram. Que Julián tenha aceitado vir é uma ocasião enorme; por isso, não percamos tempo.

Intervenção. Não consegui reduzir a morte de Bizzo. Fiquei arrasado e até agora tenho dificuldade para me conscientizar profundamente. Naquela noite, eu olhava o corpo dele e dizia: onde está a realidade positiva? Onde está? Nesses dias tenho necessidade de um cristianismo que dê uma resposta profunda ao acontecido. Dois exemplos. No Rosário, ouço um pai dizendo ao filho pequeno: “Veja, Giovanni não foi embora, ele está aqui conosco”. Imediatamente tive uma reação: o que isso quer dizer? É uma frase que dizemos às crianças para consolá-las ou é verdade? O que me garante realmente que Bizzo não caiu no nada? O que me garante que agora Bizzo está realizado? É um salto que a razão não é capaz de compreender? Em tudo isso, me vêm à mente as palavras de sua mãe nos funerais: “Jovens, não creiam no que lhes dizem, pois a realidade é verdadeiramente positiva”. E isso é a evidência de que existe um cristianismo convincente e pleno de razões, que eu desejo e não conheço.

JULIÁN CARRÓN. Não achava que poderíamos tão rapidamente verificar o Dia de Início de Ano. Mas a vida urge. E fico contente, porque já o modo como vocês fazem as perguntas indica a razoabilidade do percurso que estamos fazendo. Porque, como vemos, não conseguimos reduzir essa circunstância ao corriqueiro – como o fazemos tantas vezes. Por isso, a pergunta se torna ainda mais decisiva: onde está a positividade da realidade, diante desse fato?
Qual é a novidade das suas intervenções? Vocês começam a intuir que precisamos de um cristianismo capaz de dar resposta a esses desafios. Diante desse fato, a afirmação de que “a realidade é positiva” é verdadeira ou não? Nós dizemos que é positiva só para nos consolarmos?
Se retomarmos o Dia de Início de Ano, Davide Prosperi terminava a sua intervenção com esta pergunta: “Se aquilo de que mais precisamos para viver (além do ar que respiramos) é uma razão capaz de reconhecer o real em toda a sua profundidade, perguntamos: de onde nasce e como se realiza uma razão assim?” E eu respondia: uma razão capaz de reconhecer o real em toda a sua profundidade nasce e se realiza no acontecimento cristão. É em virtude do acontecimento cristão que a razão cumpre a sua natureza de abertura para o desvelar-se do próprio Deus. Entendemos, então, por que Dom Giussani afirma que “o problema da inteligência está todo dentro” do episódio de João e André. Por que o cristianismo é isso? Dom Giussani diz: “O coração da nossa proposta é [...] o anúncio de um acontecimento que se dá e que surpreende os homens do mesmo modo que, há dois mil anos, o anúncio dos anjos em Belém surpreendeu alguns pobres pastores. Um acontecimento que se dá, independentemente de qualquer consideração sobre o homem religioso ou não religioso” (Un avvenimento
di vita, cioè una storia
, Edit. Il Sabato, Roma-Milão 1993, p. 38). Como se conclui que é assim mesmo? O que acontece quando aparece o cristianismo? Ele nos torna mais visionários, de modo que podemos nos consolar diante dos golpes da vida? Ele nos leva para fora do real ou nos permite – como nunca antes – fazer a experiência de um uso da razão finalmente verdadeiro? Dom Giussani dizia que o cristianismo se dá como acontecimento. Não quando falamos à toa e não acontece nada. Não quando o cristianismo é reduzido a uma série de instruções de uso, e nós continuamos a viver como todos, mas acrescentamos um “chapéu” ou fazemos alguma atividade para nos distrair... Não! O cristianismo só se dá como acontecimento. O que acontece quando a gente se apaixona? Acontece ou não alguma coisa com o nosso eu?
Se o cristianismo não acontece, se não for um acontecimento, então se compreende que diante dessas coisas fiquemos perdidos, como todos ficam. Mas quando o cristianismo acontece, o que sucede? Um sentimentalismo? É só uma emoção? Basta aplicar as instruções do manual? Diz Giussani: “Esse acontecimento [quando o cristianismo é um fato] volta a suscitar ou potencializa o senso elementar de dependência e o núcleo de evidências originais ao qual damos o nome de senso religioso”. E o que quer dizer “volta a suscitar e potencializa” o eu do homem? O acontecimento cristão torna o homem homem, isto é, mais capaz de viver segundo as suas evidências originais, mais capaz de ser atingido pelo real, de viver a realidade segundo a sua verdade, porque capaz de usar a razão segundo a sua verdadeira natureza de abertura para a totalidade da realidade.
Então, quando estamos diante desse fato, a morte de Giovanni, cada um de nós – querendo ou não – verifica se o cristianismo se dá, para nós, como acontecimento. Fica sabendo se é apenas um consolo ou se acontece alguma coisa, e por isso nada – nem mesmo um fato tão dramático como este – chega a fechar a razão e a impedi-la de reconhecer todo o real. Eu os desafio! Eu pensava nisso quando morreu meu pai: imaginem João e André. Viveram com Ele, O viram, viram o que viram, todos os fatos, todos os sinais, toda a documentação de quem Ele era... Até O viram ressuscitado. E imaginem quando morreu o primeiro dos Doze: viram-se na mesma situação que nós, diante de um amigo que morreu. O que terão pensado? O que não conseguiriam de jeito nenhum tirar dos olhos? Que viram Alguém vivo. Vivo! E somente por terem visto esse Alguém vivo é que podiam usar uma razão aberta e não uma razão fechada, parando na aparência da realidade. Não podiam mais olhar o caixão do amigo sem ter diante dos olhos aquilo que tinham visto. Eram visionários? Ou era esse fato que lhes permitia usar a razão segundo toda a sua natureza de razão?
Sem isso, sem que o cristianismo exista em nós como um acontecimento, qualquer coisa – não só um drama como a morte de um amigo – nos fecha. E olhamos a realidade como todos. Mas quando João e André pensavam n’Ele era para se consolar ou era um fato de conhecimento que não podiam ignorar? Era real ou não? Cada um precisa decidir. O que é mais complicado? Reconhecer que agora nenhum de nós dá a vida a si mesmo (precisa ser visionário para reconhecer isso?) ou reconhecer que Aquele que nos dá a vida é capaz de restituí-la para sempre? Reconhecer que agora nenhum de nós dá a vida a si mesmo não nos torna capazes de reconhecer que Aquele que nos dá a vida pode dá-la de novo para sempre? Somos visionários quando pensamos que não somos nós que damos a vida a nós mesmos ou é o uso da razão que nos permite não ser tão desligados e presunçosos e pensar o contrário? E se não somos nós que nos damos a vida, repito, para Deus seria mais difícil dar-nos a vida agora ou dá-la de novo depois, para sempre?
O problema é que nós vivemos com a cabeça coberta: não reconhecemos as coisas presentes como presença. Achamos tudo muito óbvio. E como não nos surpreendemos toda manhã com o fato de a vida nos ter sido dada, nos é dada agora, temos dificuldade em pensar que Aquele que nos dá a vida agora possa restituí-la a Giovanni, agora. Mas como conseguimos explicar isso a nós mesmos? O que nos possibilita usar assim a razão? O que dá razão à razão? Somente uma experiência como aquela que vivemos é capaz de não fechar a questão. Sem isso, não conseguimos pensar na fé a não ser como um consolo. Não conseguimos reconhecer que o acontecimento cristão torna possível à razão reconhecer o real segundo todos os fatores, pois fomos tomados pelo racionalismo, com um uso reduzido da razão.
É isso que o cristianismo como acontecimento desafia continuamente e manda para o espaço. Quando, desde o primeiro momento, experimentamos que acontece algo que faz explodir a vida, dando uma intensidade ao viver que nem podíamos sonhar, então começa a ir para os ares essa medida da razão e começamos a nos abrir. E quando começamos a usar assim a razão, não podemos observar o real sem pensar no Mistério que o habita. Até poder dizer, em qualquer circunstância, que a realidade é positiva justamente por causa do Mistério que a habita. Não porque nós a tornamos positiva, mas porque não conseguimos – por aquilo que acontece – reduzi-la à nossa medida. A nossa medida vai para o espaço, pelos fatos que acontecem. É por isso que o cristianismo, como nada mais, desafia o uso da razão. E abre, ressuscita e potencializa não o fato de ser visionários, mas a razão! Se fôssemos visionários, as coisas que dizemos não seriam fatos que experimentamos. Seria tudo virtual, mas sabemos todos qual é a diferença entre virtual e real. Se não, a vida nos fará compreender, porque o trem chega à estação pontualmente no horário.

Intervenção. Gostaria de lhe contar o que aconteceu comigo nestes dias. Sexta-feira de manhã, Riccardo me disse: “Esta noite, Bizzo morreu”. De pronto me dei conta de que a vida, a existência toda, poderosamente está além das minhas capacidades. Ou seja, realmente a minha vida não depende de mim. A minha vida, a de Bizzo ou daqueles que me são mais queridos, por mais que eu seja agradecida pela presença deles, não depende de mim. Nem o meu desejo, por maior que seja, de que eles continuem existindo é capaz de mantê-los ao meu lado. Eu me dei conta profundamente de que eu sou uma criatura, Bizzo é uma criatura, fomos criados. Foi uma surpresa até para os meus pais. Eu me dei conta de que todos os meus traços, o meu caráter e a minha índole chegaram a eles de maneira imprevista. O meu existir é uma surpresa também para mim. E aí eclodiu a pergunta: mas quem me fez? Quem pensou em mim? Dei de frente com o fato de que Alguém, antes de qualquer outro, desejou Bizzo, e isso não como uma força de expressão, mas ao ponto de fazê-lo, de tirá-lo do nada, de fazê-lo ser, de dar vida às fibras do seu corpo, de pensar para ele um rosto único. Continuamente me vejo a pensar que podíamos não existir; mas existimos. E me dei conta de que o meu existir, o existir de Bizzo, é o gesto de Alguém, o ato contínuo de um Outro. Frente a isso, como pensar que Aquele que, mais do que ninguém desejou Bizzo, a certa altura se esqueceu dele, deixou de cuidar dele? Assim, a frase: “O que aconteceu não tem sentido” despertava uma rebelião incrível dentro de mim. Tinha vontade de dizer: como pode acontecer que Aquele que foi fiel a Bizzo mais do que todos nós, mais do que todos os seus amigos, mantendo-o na existência instante após instante, tenha se esquecido dele? Diante do corpo, no velório, eu me perguntava: onde estará Bizzo agora? Pela imponência da percepção de que somos criaturas, eu não podia deixar de responder: ele voltou para o Pai, para os braços do seu Pai. No funeral fiquei comovida, estava totalmente ferida por ser uma criatura. Vinha à minha mente aquela passagem da Bíblia: “Te amei com um amor eterno, tive piedade do teu nada” (cf. Jr 31,3). Tremia ao me conscientizar de ter sido plasmada por um Outro, de ter sido desejada – eu mesma – por um Outro. Eu me redescobri filha de Deus, um pontinho na realidade, tocado e querido pelo Mistério. E me pergunto: por que me foi dado viver? Qual é a minha tarefa? E me veio todo um desejo vertiginoso de viver obedecendo ao Pai. Quando, no cemitério, cobriram o corpo de Bizzo de terra, explodiu toda a exigência de eternidade, retornou a pergunta que me acompanha e me fere: o que é para sempre? O que, de mim, é eterno? É insuportável que a minha vida seja um parêntese. Diante da grande necessidade do meu coração e diante de Bizzo sepultado – que é algo tão diferente do que posso pensar –, eu vibrava dando-me conta de que o amor de Deus por mim e por nós, criaturas suas, é eterno. Vejo a desproporção total entre essa consciência de mim como criatura, filha de Deus, ânsia do meu coração, e uma concepção reduzida de mim mesma. Queria lhe perguntar: como essa consciência, que emergiu de forma tão clara nestes dias, pode se tornar estável, enraizada em mim? Vejo que se ofusca em mim facilmente, é encoberta por mil preocupações. Assim, o fato de viver não é mais uma provocação, mas uma preocupação; e volta o medo de que nessa obediência ao Pai eu possa perder alguma coisa.

CARRÓN. Marta, como você chegou a essa consciência?

Intervenção. Desde o ano passado, a partir do trabalho sobre os Exercícios, eu me encontrava ferida e necessitada. Em todo esse período, não encontrei nada que estivesse à altura da minha necessidade e da minha ferida como o fato de Cristo.

CARRÓN. É somente isso. Portanto, não é pelo fato de dizermos essas coisas que passamos a entender: nós só entendemos quando elas acontecem. O que nos torna assim? Uma razão capaz de reconhecer o real em toda a sua profundidade nasce e se realiza no acontecimento cristão. Nós participamos desse acontecimento na comunidade cristã, só vivendo na comunidade cristã, tal como você descreveu: uma comunidade cristã que constantemente nos desafia, faz acontecerem coisas que continuamente nos educam para isso. Nem mesmo um evento tão doloroso consegue manter aberta a ferida, porque a razão decai. Sentimos isso muitas vezes na Escola de Comunidade, ou na carta daquele jovem de Roma no Dia de Início de Ano: quando estava no hospital tudo era novo, nada era óbvio, mas quando saiu tudo voltou a ser óbvio. Quer dizer que nem mesmo um fato que nos fere tanto é capaz de manter aberta a nossa razão. Isso só é possível se estivermos dentro da comunidade cristã, o que expressa muito bem o que é, para nós, a comunidade cristã.
Quando nos damos conta de que é só a comunidade cristã que nos faz viver a realidade, como nos testemunhou Marta, o que é que isso diz sobre a comunidade cristã? O que ela é? Por que um grupo de homens pobres e cheios de limites – como cada um de nós sabe ser, se for minimamente consciente – pode dar uma contribuição tão decisiva para viver o real com essa verdade? É porque somos melhores? Não, todos sabemos que não. “Só o divino [dizia Dom Giussani de Cristo, como o sinal mais assombroso de quem era] pode salvar o homem, isto é, as dimensões verdadeiras e essenciais da figura humana” (Na origem da pretensão cristã, Nova Fronteira, Rio de Janeiro 2003, p. 120) e fazer com que venha à tona na consciência de cada um de nós. Então, quando falamos assim de uma comunidade cristã, isso expressa a sua origem: nesses vasos de barro que nós somos habita o divino. Porque nenhum outro fato, por mais evidente que seja, tem a capacidade de nos manter abertos, Marta. Nem um fato tão clamoroso como a morte de um amigo.
O que me impressiona no testemunho de Marta é o olhar, que, quando tudo parece ruir, lhe permite usar a razão como ela usou. Você não disse que teve uma visão para viver isso. Começou a movimentar a razão, isto é, a se olhar sem se considerar óbvia! A se olhar como criada, como criatura, a ver o seu existir como surpresa, como algo não óbvio. Ao ponto de reconhecer Alguém que desejou que Bizzo vivesse, porque a vida é um ato contínuo de um Outro. Ao ponto de sentir toda a rebelião dentro de si quando alguém tentava reduzi-lo. Não é como dizia alguém na Equipe dos universitários [CLU], não se trata de pensar que reconhecer um Outro seja uma complicação! Que rebelião! Todo o eu, cada fibra do ser se rebela diante dessa redução da realidade.
Justamente porque o cristianismo gera um homem assim, um homem capaz de não reduzir, e que se rebela quando sente que alguém reduz, então alguém começa a entender que Quem tem a força de nos gerar, tem também a força de nos dar a vida para sempre. Nascemos para viver para sempre. Existe Alguém que tem a força, a energia de nos gerar a partir do nada: imaginem se para Ele é um problema dar-nos a vida para sempre! Por que eu posso dizer isso? Basta que cada um pense no que sucedeu em sua vida quando aconteceu Cristo, e não como puro nome! Essa intensidade de vida, essa capacidade de estar no real, essa positividade no enfrentar tudo, essa consciência de si, esse maravilhamento diante de si mesmo, essa intensidade, esse algo mais de humanidade, vem de nós mesmos? De jeito nenhum. Não mesmo! Então o único modo de explicar o fato de sermos os primeiros a admirar essa intensidade do viver, uma intensidade tão absolutamente desproporcional a todos os nossos esforços e tentativas, é render-nos à evidência desse Outro que está no meio de nós, algo tão evidente que não pode ter sido criado por nós.
Isso quer dizer que Ele está agindo, e que por isso não estamos sozinhos com o nosso nada. A realidade é positiva porque Ele está aí, porque é Ele a realidade, diz São Paulo (cf. Cl 2,17). A realidade é positiva porque existe, e por isso podemos reconhecê-la. Inclusive neste momento. Aliás, este é um momento que nos desafia mais do que qualquer outra coisa: desperta em nós uma pergunta tão potente que precisamos encontrar uma resposta à altura da pergunta.
Precisamos, mesmo, tomar consciência do que é a vida que nos foi (e nos é) dada, da intensidade de vida que encontramos no acontecimento cristão: somente isso nos impede de reduzir a razão. Porque não estamos falando de teorias abstratas, mas da vida, meus jovens: se a vida que vivemos aqui e agora não é verdadeira, se não é vida, se não é real, então nem a morte de Bizzo é real. A vida é real? É real a intensidade de vida que encontramos ao viver a fé? É real ou não?
A questão, portanto, é que essa realidade tem uma origem real: Alguém real. Não é uma coisa que aparece virtualmente. A origem deve ser tão real como a vida que nos foi dada, e como a intensidade de vida, como esse algo a mais de vida que Cristo introduz. Real! Tanto é verdade que fora do cristianismo não poderíamos sequer sonhá-lo.
Por isso, diante de um fato como a morte de Giovanni, quem não viveu o cristianismo como acontecimento real fica desnorteado, nele prevalece a medida racionalista, e assim não entende nada. Vive o drama da pergunta sem a possibilidade de uma resposta. Mas nós não inventamos a resposta, não a tiramos do bolso, não somos visionários: nós carregamos a resposta porque não podemos arrancá-la de cada fibra do nosso ser. Não a inventamos ad hoc para responder a essa questão. E é quando chega um desafio tão poderoso como esse que nos damos conta verdadeiramente do que aconteceu na vida, da graça que recebemos!

Intervenção. Marta me havia contado essas coisas sexta-feira passada. Elas me desafiaram muitíssimo. Fui tomada por uma angústia insuportável, um vazio, e diante dos amigos eu fiquei emudecida, não sabia o que dizer, no almoço, no jantar... Eu tentava me identificar com o que Marta me havia dito; tentava sinceramente. Porque eu estava nua e crua diante do que estava acontecendo. Mas não conseguia: não tenho paz...

CARRÓN. O que você aprende a partir disso? Vejam, se a fé não acontece, se o cristianismo não é um acontecimento, não conseguimos nos convencer só com nossas tentativas. Experimentem! Fomos nós que inventamos isso? Bem que você gostaria que fosse. Mas não consegue. Vocês percebem como a mentira emerge? Não a mentira dela, mas a mentira de dizer que essa é uma invenção nossa: por nada deste mundo você conseguiria inventá-lo! E isso dois mil anos depois da Ressurreição de Jesus, entendem? Dois mil anos depois que alguém disse que Jesus ressuscitou. Nem depois de dois mil anos, nos quais ouvimos milhares de vezes isso, conseguimos gerá-lo por nós mesmo. Então a fé, como dizia alguns anos atrás o Papa, em Verona, é uma criação ou um reconhecimento? Só alguém que está fechado em seu quarto pode tentar gerá-la, como se fosse uma criação sua, e ficar satisfeito. Mas quando a vida urge, a última coisa que vem à nossa mente é que podemos gerá-la. A mentira tem pernas curtas: na primeira curva já está derrotada. Onde está, então, o seu erro? Está aqui: você não devia partir de um esforço de identificação (que facilmente se reduz à sua própria imaginação) com o que lhe disse Marta, mas partir do que aconteceu na sua vida e que você não é capaz de eliminar nem agora: a morte de Bizzo leva-a a se dar conta de que você existe agora. Você é capaz de se dar a vida? Isso quer dizer que a nossa dificuldade não está em sermos visionários, mas, ao contrário, em reconhecer o real, em partir do real como experiência. E quando tentamos substituí-lo pela tentativa de criar ou de imaginar algo, mais nos damos conta de que não somos nós que a geramos. Você tem alguma dificuldade para reconhecer que existe? Tem alguma dificuldade para reconhecer que nesta sala existe luz? Em quantos somos aqui? Tem dificuldade de se identificar com isso? É assim. Você não deve se identificar com o que lhe diz Marta como discurso, mas se identificar com o modo como ela vive o real. Então você começa a usar a razão de maneira diferente. Mas não é fácil, dá um trabalho enorme.

Intervenção. Eu não tenho nenhuma dificuldade em reconhecer que não sou nada, que sou frágil... Porque é assim mesmo. Mas isso não me dá a certeza de que Bizzo agora está realizado.

CARRÓN. Uma coisa por vez. O que leva você a entender o fato de que você não se faz agora? Não é preciso fazer triplos saltos mortais, mas começar a usar a razão. O que o leva a entender que você não dá a vida a si mesmo? Não que Bizzo está realizado, mas que coisa implica o fato de reconhecer que você não dá a vida a si mesmo? Maria, use a cabeça! Não se deixe bloquear. Vocês percebem? Nós nos deixamos bloquear constantemente pelo nosso sentimento e nos tornamos loucos. Loucos, ou seja, que é como se a razão estivesse paralisada. Mas você não é louca, porque se chegou até aqui, à universidade..., alguma coisa você fez! Se você pode reconhecer que existe agora, a coisa mais evidente é que existe um Outro que a faz agora. É difícil reconhecer isso? Esse é o primeiro passo. Então, quer dizer que Aquele que a faz agora, Aquele que fez Bizzo, está agindo na realidade: se não estivesse agindo na realidade, você não estaria aqui. Se você começar a olhar isso, que lhe torna presente agora, começará a olhar a realidade não só baseada na sua capacidade. Se a olha baseada apenas na sua capacidade, vai pensar que o que acontece na realidade é só o que a sua pequenez consegue imaginar: dado que a sua pequenez, a sua razão como medida, não consegue imaginar como um seu amigo possa viver para sempre, então isso para você significa que não é verdade. E se alguém lhe dissesse outra coisa diferente, para você ele estaria errado, porque a sua medida é uma razão reduzida. Mas quantas vezes na sua vida aconteceram coisas que você não imaginava? “Há mais coisas entre o céu e a Terra, Horácio, do que sonha nossa vã filosofia” (W. Shakespeare, Hamlet, ato I, cena V). Quando dizemos que a razão, para nós, é uma medida, estamos falando de um problema para filósofos, para especialistas, para gente que gosta de complicar a vida? Quando chega alguma coisa que vai além da nossa capacidade de imaginação, da nossa capacidade de medida, da nossa capacidade de ver como é possível, dizemos: “É impossível”. Negamos a categoria da possibilidade, isto é, negamos a razão. Então ficamos bloqueados. Mas isso é verdade ou não? Já aconteceram muitas coisas na sua vida que você não pensava que fossem possíveis, sim ou não? Essa medida já foi superada milhares de vezes na sua vida, sim ou não? Então, quem lhe garante que não possa ser superada de novo?
Esse é um percurso mais lento, mas que nos ajuda a usar a razão. Não nos convence de nada, nem queima os neurônios: nos faz usar a razão segundo a natureza dela. Se você reler agora O senso religioso, verá que a tentativa que estamos fazendo juntos é de aprender a usar a razão sem precisar fazer nenhum passo que você já não tenha visto na sua experiência, no real. Não precisamos ser convencidos: precisamos tomar consciência. É diferente. Porque você não tem nenhuma dificuldade em tomar consciência do que estou lhe dizendo, na medida em que eu explico e o coloco frente aos fatos: não estou tentando convencer você de algo que não existe ou que você não vê, para que você me diga sim. Não preciso convencê-lo de que nesta sala existe luz. É a mesma coisa: essa possibilidade que agora não vem à sua mente, somente Aquele que está lhe dando a vida agora torna possível. Só quando aceitar isso é que poderá responder à urgência da sua pergunta.
Esse é o desafio que as circunstâncias, os fatos da vida, nos lançam. E a gente só encontra resposta se aceitar esse desafio, essa provocação do real, sem pausa até encontrar uma razão adequada. Se perdermos essa ocasião e se pensarmos que alguém poderá nos poupar desse percurso, nos tornamos menos homens. Deve ser uma educação. Não para imaginar o que não existe, mas para tomar consciência do que existe.

Intervenção. Gostaria de contar o que ocorreu comigo. Quando fiquei sabendo de Giovanni, me perguntei o que fazer. Depois, ao chegar ao velório, Feo me transmitiu as suas palavras: “O último gesto de amizade de Giovanni foi nos colocar frente ao eterno”. A partir daí, para mim teve início um percurso. Comecei a olhar as coisas como dadas: a sua amizade, os relacionamentos que mantenho, as coisas a serem feitas... Até chegar a dizer, sem fingimento: “Eu sou Tu que me fazes”. Veio-me imediatamente o desejo de não perder tempo. E quando voltei para a Faculdade de Agrária, me impressionou ver que todos estudavam (e era uma sexta-feira: até às 19 horas ficaram umas vinte pessoas). Depois fui à aula com o panfleto, por um desejo de dizer: estou entendendo que a realidade é isso, ou seja, alguma coisa que, no fundo, contém um Mistério bom. E quando procurei o professor, todo titubeante (porque não elimina o titubear), foi para mim algo correspondente, porque foi como dizer: “Eu sou este relacionamento com Cristo”. Nestes dias, a dor é grande, e mesmo de manhã, para nos levantarmos é preciso uma decisão. Hoje, porém, ir à aula e distribuir o panfleto aos colegas de curso, foi para dizer isso. Ao vir para cá, eu tinha uma pergunta: como posso ser como Giovanni, que deu tudo? Percebo, porém, que já existe tudo: hoje, indo à aula, não havia necessidade do amigo que distribuía o panfleto junto comigo, de um suplemento de certeza, como dissemos tantas vezes. Mas eu sou essa relação e o digo ao mundo. É isso que me leva a começar a perceber que tudo, de fato, é um bem.

CARRÓN. O que é que possibilita que, depois da morte de um amigo, alguém volte à Faculdade e encontre os colegas a estudar? Parece banal, absolutamente banal, um fato simples que se pode considerar como óbvio. Mas será possível explicá-lo sem que aconteça alguma coisa diferente? Então alguém começa a dizer: “Eu sou Tu que me fazes”, sem fingimento. Quando alguém sente necessidade de dizer isso, quer dizer que muitas vezes disse dando por óbvio. Começa a acontecer algo no modo de viver as coisas. Acontece alguma coisa, e por isso tudo começa a ser diferente, a ser novo. Eu sou essa relação: esse é o fato que acontece. E que me faz estudar em paz, mesmo em meio à dor, que me faz entregar o panfleto ao professor, me faz entrar na classe, que torna tudo mais exigente. Mas justamente por essa dor que me invade, preciso da memória de Cristo para poder enfrentá-la. Preciso usar a razão sem reduzi-la.
O que quer dizer a memória de Cristo? Usar de novo a razão segundo a sua natureza! Isto é, não reduzir a minha realidade, o meu eu, ao meu estado de espírito. Se reduzisse tudo ao estado de espírito, depois de alguns dias não aguentaria mais. E alguém poderia dizer: “Este, sim, sente a morte de Giovanni...”. No entanto, eu lhes garanto que se permanecesse nesse nível, em pouco tempo não aguentaria mais: precisaria esquecer para poder continuar vivendo. Somente quem não precisa esquecer (aliás, recordar-se exige a memória de Cristo) é que pode se postar frente à morte e pode permanecer amigo de Giovanni de outro modo. Os outros – querendo ou não – o cancelariam da vida. Não por maldade, mas porque não conseguiriam encarar o fato e precisariam esquecê-lo. E em vez de estar diante do eterno, precisariam voltar à habitual mentira e reduzir a realidade à aparência.
No entanto, cada vez que me machuca, cada vez que sinto a ferida, se for ocasião de memória, vemos que Giovanni permanece amigo. Mais amigo do que nunca. Porque nada como a morte de Giovanni nos faz viver diante da verdade, isto é, diante do eterno. E isso julga todas as nossas amizades, que muitas vezes – em vez de nos ajudar a viver diante do eterno – nos fazem esquecê-lo, nos distraem do eterno. Mas que amizade é essa? É como se a morte de um amigo nos metesse num beco sem saída: que tipo de amizade é essa, se não for para poder olhar isso? Se não somos amigos na morte, também não somos amigos nem mesmo na vida. Ainda que não nos machuque tanto quanto uma morte.

Intervenção. Neste último período tive que me defrontar muito com a morte: um ano e meio atrás, morreu num acidente um rapaz que eu conhecia da escola. Isso já havia mexido muito comigo. Há mais ou menos um mês, num acidente de trabalho morreu um outro amigo, que era também meu professor na área que estudo, que me ensinou muitas coisas. E agora Giovanni, um grandíssimo amigo. Nesse um ano e meio, sobretudo nos últimos dias, estou começando a entender uma coisa, que todos esses fatos estão ligados entre si: é o Senhor que está me pedindo alguma coisa. O problema é que eu percebo esta pergunta, mas ainda não entendo o que Ele está pedindo.

CARRÓN. Não se preocupe: quando Deus quer algo, Ele faz com que você entenda tudo com a maior clareza do universo. Calma, dê tempo ao tempo! Espere e verá que o Senhor lhe dará todos os sinais de que você precisa para entender.
Terminemos dizendo o seguinte: não podemos preencher o vazio diante da morte com a nossa imaginação: o que será de Giovanni agora? Como entender isso? Partir de onde? Jesus dizia: “Esta é a vida eterna: que conheçam a ti, o único verdadeiro Deus, e aquele que enviaste, Jesus Cristo” (Jo 17,3). A vida eterna começa a ser uma experiência com o encontro cristão, na medida em que cada um fez a experiência do encontro cristão. E se a intensidade de vida que o encontro cristão introduziu em cada fibra do ser (dizia Dom Giussani: “Uma febre de vida”!), se isso é o primeiro “sabor” do que é Cristo, imaginem como será a realização! Então, é assim que devemos pensar em Giovanni. Porque, se não, preenchemos com a nossa imaginação aquilo que ignoramos. O Mistério é desconhecido, mas desse Mistério alguma coisa nós conhecemos. Porque Cristo o revelou e nós começamos a fazer a experiência dele. Por isso, o único modo de não preencher esse desconhecido com a nossa imaginação e depois atribuí-la ao Mistério (que, quase inevitavelmente, é o risco que corremos se não estivermos atentos), consiste em nos ajudarmos a olhar Giovanni a partir da experiência que fizemos com Cristo. Porque Giovanni, agora, vive a realização dessa experiência: vive mais intensamente essa experiência, vive o pleno dessa experiência, desse início. É a realização do que ele já vivia aqui! Não é uma outra coisa: é a realização plena do que já vivia aqui. Então, a vida eterna não é o tédio eterno, que levaria alguém a pensar: “Pobre Giovanni, coitado!”. Talvez Giovanni seja mais afortunado do que nós. Ou melhor, sem o “talvez”: ele é mais afortunado do que nós! Por isso, hoje ele nos diz: “Vejam, a vida é isso”. Vivendo agora essa plenitude, diz a todos nós: “Vejam, amigos, a vida é isso! A vida é Cristo, e morrer é um lucro”.


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© Fraternità di Comunione e Liberazione para os textos de Luigi Giussani e Julián Carrón

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