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MÚSICA

High Hopes: o novo álbum de Bruce Springsteen

por Walter Muto
24/2/2014 - Enriquecido com sólidas colaborações, saiu o décimo oitavo álbum em estúdio do cantor. Trinta anos depois de “Born to run”, o roqueiro americano nos oferece esse hino à esperança
Bruce Springsteen em um concerto beneficente.
Bruce Springsteen em um concerto beneficente.

Como começar a falar do novo trabalho de um grande artista como Springsteen? Há apenas um modo: escutá-lo e tentar identificar o que quer nos dizer (letra) e como (música). Digo isso porque esses dois componentes não podem ser separados quando se trata deste cantor e compositor: o que as palavras dizem é importante, às vezes supera a música em interesse, mas é a união com a voz que as canta que faz com que elas se tornem algo mais do que uma poesia ou uma proclamação.
Como não sou um fã de Springsteen, fiz uma pesquisa e comecei a escutá-lo. Descobri que o álbum (12 faixas) é um mix de covers – a maioria, já executadas ao vivo –, músicas deixadas de fora de outros discos, antigas canções repaginadas e algumas músicas inéditas. Descobri, além disso, a presença da grande E-street Band, incluindo algumas partes gravadas antes da morte de Clarence Clemons e Danny Federici. E descobri, por fim, a presença (em 8 das 12 músicas) do guitarrista Tom Morello, que se uniu a Springsteen durante a turnê australiana de 2013, substituindo Steve Van Zandt, temporariamente afastado para se dedicar a outros trabalhos. O próprio Springsteen explica que “Tom e sua guitarra tornaram-se a minha musa, conduzindo esse projeto a outro nível”. Uma presença substancial no disco, que enriquece o som da banda com seus riffs e seus solos realmente convincentes, motivados também pelo fato – como disse Morello – de ser um grande fã do cantor. Bingo!

Aparecendo de maneira livre, mas não casual, os clássicos riffs e sonoridade da E-Street Band são ouvidos em primeiro plano em Just Like Fire Would e Frankie Fell in Love, seguramente as duas faixas mais alegres e descompromissadas de todo o trabalho. A identidade de Morello já é notável na música de abertura, a inebriante High Hopes, cover dos desconhecidos californianos Havalinas, já tinha sido tocada ao vivo por Springsteen na metade dos anos 90. Um hino à esperança, já atual na época, ainda mais atual e dramático trinta anos depois. Harry’s Place e Down in the Hole (esta última valorizada pelas belas harmonias vocais de Patti Scialfa) são as duas músicas não incluídas no álbum feito após a queda das Torres Gêmeas, The Rising. No meio, a sempre intensa American Skin (41 shots) dedicada à morte de um jovem atingido por 41 tiros de pistola disparados por policiais de Nova Iorque, imprudentemente, uma vez que o rapaz estava desarmado. A sexta faixa é Heaven’s Wall, provavelmente pertencente a um projeto gospel jamais lançado, cujas músicas acabaram sendo distribuídas em outros trabalhos. “Havia uma mulher no poço, que retirava água sob o céu azul do deserto. Disse que aquela água cura o cego, ressuscita da morte, cura todas as doenças”. Seguem as duas faixas mais ligadas ao universo acústico, embora de caráter totalmente diferente. This is Your Sword começa com um clima de música irlandesa e de repente se encaminhe para territórios mais desconhecidos: gaitas-de-fole e tin whistle (um tipo de flauta irlandesa) continuam sendo ouvidas, mas o ritmo e o estilo são puro Springsteen. Hunter of Invisible Game é, ao contrário, outro tipo de balada, uma valsa com a participação de instrumentos de corda, e a letra é centrada na necessidade de um tu para poder seguir em frente: quando “a força é vaidade e o tempo é uma ilusão, sinto você respirar, o resto é confusão, a tua pele toca a minha, o que mais há para explicar?”.

Mas é a tríade conclusiva que representa o ápice desse trabalho. A faixa 10 é uma versão eletrizante de The Ghost of Tom Joad. Em 1995, quando essa música foi lançada através do álbum homônimo, Springsteen foi convidado para o Festival de San Remo, na Itália, abrindo – só com violão, gaita e textos traduzidos simultaneamente – uma das noites da “maratona” musical, mostrando a todos a diferença entre artista e fantoche do poder musical. Todos o acusaram de ser muito americano: até os dramas do qual falava não pareciam preocupar-nos muito. Hoje que a profecia se cumpriu, a nova proposta dessa música, a letra, o desafio da guitarra do arranjo podem nos inflamar, como algumas grandes canções do rock fizeram na historia dos últimos 60 anos. O solo final de Morello deve ser colocado entre os mais belos e expressivos solos de rock dos últimos anos, até porque quase não se ouvem mais...

A guerra do Vietnã – outra ferida aberta de Springsteen e de toda a América – aflora na sucessiva The Wall, uma homenagem a dois musicistas do Jersey Shore que partiram para a guerra e não voltaram. Um, foi o primeiro baterista com quem Bruce trabalhou, e o segundo, o líder de uma banda local, na qual Bruce se inspirava desde menino. A música é tocante, extremamente intensa e comovente. A interpretação de Bruce está perfeita. Vívido, envolvente, direto, com uma música intensa amplificando tudo.

A faixa que fecha o álbum, Dream Baby Dream, é outro cover, desta vez do grupo punk Suicide, proposta pelo cantor como bis final do show por sua natureza coral e repetitiva. “É um mantra”, diz Springsteen, “e funciona, porque a noite é repleta de detalhes narrativos e, depois, no final, fica apenas estas poucas frases repetidas, que são a essência de tudo o que eu disse e fiz durante o show. É uma aula sobre o que é uma canção: essa é a maravilha desta música, é muito simples e puramente musical”.

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