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OS PAPAS NA HISTÓRIA

PIO VI. Prisioneiro da Revolução Francesa

por Eugenio Russomanno
24/2/2016 - Gian Ângelo Braschi recusou-se a reconhecer os movimentos de Paris. Por esta razão Napoleão, depois de ter invadido o Estado pontifício, enviou-o para o exílio na França. Aceitou "sua via crucis" com serenidade e, na hora da morte, perdoou seus inimigos
Pio VI retratado por Pompeo Batoni.
Pio VI retratado por Pompeo Batoni.

“Pio amava muito a pompa e o protocolo cerimonioso; fez renascer o nepotismo, outorgando aos parentes generosas pensões e construindo para o sobrinho Luigi o palácio Braschi. Desejando ser lembrado como patrono das artes, aplicou vultosas somas para construir esplêndidos edifícios, como a sacristia de São Pedro e o museu Pio-Clementino e para melhorar a rede viária. Estas despesas excessivas, além de sua ousada na malsucedida tentativa de drenar os Pântanos Pontinos, provocaram o desalinhamento das finanças papais. Além disso, ele cedeu aos sobrinhos a propriedade absoluta de grande parte dos territórios recuperados”.
Estas palavras de John Kelly dizem muito sobre o Papa Pio VI, mas certamente não dizem toda a verdade sobre o Papa que teve de enfrentar os fatos da Revolução Francesa.

Gian Ângelo Braschi nasceu em Cesena aos 25 de dezembro de 1717. Conseguiu o título de doutor em Jurisprudência em 1735. Empreendeu a carreira eclesiástica, até quando em 1753 foi escolhido por Bento XIV como secretário particular em virtude de sua habilidade diplomática. Clemente XIV em 1773 o nomeou Cardeal. Um difícil conclave, que durou 134 dias nos anos 1774-1775 o elegeu Papa; e ele assumiu o nome de Pio VI.

No que diz respeito à política externa, as grandes potências estavam em geral bem dispostas com ele e o seu pontificado. Contudo, é preciso recordar o caso austríaco. Aqui, na católica Áustria, o imperador José II (1780-1790), o filho “iluminado” de Maria Teresa, influenciado pelo febronianismo (doutrina que limitava o papel do Papa a um cargo de honra e previa que a chefia da Igreja coubesse a um concílio universal) e pelo Iluminismo, serviu-se de seu sistema de absoluta supremacia do Estado sobre a Igreja para instaurar o assim-chamado “josefismo”: completa tolerância religiosa, limitação da intervenção papal à esfera espiritual, subordinação da Igreja ao Estado sob todos os aspectos, de modo a realizar reformas despóticas, valer-se dos direitos de jurisdição eclesiásticos e suprimir, de forma gradual, os mosteiros e as outras fundações eclesiásticas. Nem mesmo uma viagem de Pio VI a Viena (1782) conseguiu demover o imperador; isso como demonstração do fato de que a reputação do papado tinha caído de novo, como outras vezes na história, a um nível bastante baixo.

“Com a Revolução Francesa iniciou um capítulo muito mais infausto”, observa John Kelly. Inicialmente Pio VI não tomou providências contra a “Constituição civil do clero” (12 de julho de 1790). Mas, quando aos sacerdotes foi imposto um juramento de fidelidade ao regime, o Papa condenou a Constituição como cismática, declarou sacrílegas as ordenações dos novos “bispos de estado”, suspendeu os padres e os prelados que haviam prestado o juramento civil e condenou a “Declaração dos direitos do homem”. As relações diplomáticas foram rompidas e a Igreja francesa ficou profundamente dividida.

Em 1796 Napoleão Bonaparte ocupou Milão, mas o Papa Pio VI continuava a rejeitar os pedidos franceses visando a anular a condenação pronunciada contra a Constituição e a Revolução. Quando Napoleão invadiu os Estados pontifícios, o Papa Pio VI teve que aceitar duras condições de paz: um vultoso tributo de guerra, a entrega de preciosos manuscritos e obras de arte e a cessão de vastos territórios de seus estados (paz de Tolentino, 19 de fevereiro de 1797).

Quando o general francês Duphot foi assassinado durante um motim em Roma, o Diretório ordenou uma nova ocupação dos estados pontifícios. Aos 15 de fevereiro de 1798 o general Berthier entrou em Roma, proclamou a República Romana e, deposto o pontífice (considerado como um Chefe de Estado), o forçou a retirar-se na Toscana; por alguns meses o Papa viveu na Cartuxa de Florência. Para evitar qualquer tentativa de libertação, foi transferido de Florência, passando por Turim e os Alpes, a Briançon e depois a Valence. Pio VI morreu prisioneiro na cidadela de Valence aos 29 de agosto de 1799.

Escreveu João Paulo II: “Os últimos meses de Pio VI foram a sua via crucis. Com mais de oitenta anos, gravemente acometido pela enfermidade, foi arrancado da sede de Pedro. Em Florença ainda pôde beneficiar-se algum tempo com uma relativa liberdade que lhe permitiu exercer a sua responsabilidade de Pastor universal. Depois foi forçado a atravessar os Alpes percorrendo trilhas cobertas de neve. Chegou a Briançon e em seguida a Valence, onde a morte encerrou sua viagem terrena, deixando alguns acreditarem que tivesse chegado o fim para a Igreja e o Papado. É bom lembrar aqui as palavras de Cristo a Pedro, que correspondem à experiência vivida pelo Papa Pio VI naquele ano de 1799: ‘Quando fores velho, estenderás as mãos, e outro te amarrará pela cintura e te levará para onde não queres ir’ (cf. Jo 21, 18). Pio VI aceitou a provação com serenidade e na oração, e, na hora da sua morte, perdoou os seus inimigos, suscitando assim a admiração deles. Entretanto, aos seus sofrimentos físicos juntou-se um tormento moral acerca da situação eclesial. Apesar da agitação que reinava naquele tempo na França, recebeu numerosos e comoventes testemunhos de respeito, de compaixão e de comunhão na fé por parte do povo simples, ao longo do caminho, em Briançon, em Grenoble e em Valence. Por mais que fosse humilhado, o ‘pai comum dos fiéis’, como o chamava o poeta Paul Claudel, era reconhecido e venerado pelos filhos e pelas filhas da Igreja. Esta acolhida simples e solícita, naquelas circunstâncias dramáticas, é uma consolação para todos”.

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