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OS FATOS

O que resta (e o que muda) da família

por Maria Annella
23/5/2016 - Na Universidade de Nápoles, um encontro organizado por Eugênio Mazzarella, com a presença de Julián Carrón, Mônica Maggioni e Giuseppe Tesauro. Em pauta, a crise dos laços. E a redescoberta daquilo que é essencial
O encontro na Universidade de Nápoles Frederico II.
O encontro na Universidade de Nápoles Frederico II.

No início da tarde de 17 de maio, os antigos muros da Universidade de Nápoles Frederico II são reavivados por um debate intenso, dedicado a um tema atual como nunca: a Família que muda, a família que resta. Uma breve introdução de Gaetano Manfredi, Reitor do Ateneu, e depois fala o organizador e moderador do encontro, o professor de Filosofia teorética Eugênio Mazzarella, que indaga o que significa na sociedade de hoje, exposta a processos econômicos e sociais substancial e existencialmente móveis, falar de família que “deveria restar”.

O tema do encontro é abordado através de diversos aspectos. O do direito e da comunicação, respectivamente com Giuseppe Tesauro, presidente emérito da Corte Constitucional italiana, e Mônica Maggioni, presidente da RAI - Rede de TV italiana, que depois deixam espaço à colocação de padre Julián Carrón, presidente da Fraternidade de CL, sobre a complexidade da questão acerca da família a partir de um olhar meramente antropológico: “Trata-se de voltar a abordar uma coisa que interessa a todos. Quem não se preocupa com o problema da vida, dos relacionamentos? Estes temas dizem respeito a cada um de nós, porque têm a ver com a nossa realização”, explica o sacerdote espanhol. A discussão começa a partir de uma constatação tão real quanto dramática: como afirma Mazzarella, “estamos em presença de uma crise antropológica da família tal como a conhecemos, que acarreta a reivindicação de novos direitos”. Diante da perda das certezas tradicionais acerca das normas e diante da exigência de novos laços sociais, como pode responder a sociedade de hoje?

Giuseppe Tesauro tenta responder, sublinhando como uma sólida base jurídica e legal possa ser útil, aliás, necessária para sujeitar a regras e permitir “uma solução concreta daqueles problemas que nascem com a consolidação dos relacionamentos entre seres humanos”. E, mais ainda, como frente às mudanças que efetivamente afetam a família, por exemplo, o desvanecer-se progressivo da diversidade de sexo como pilar de um núcleo familiar, parece necessário voltar-se para normas que possam concretizar em uma única fórmula as diversas exigências da sociedade. Entretanto, se de um lado o direito tenta responder a isto, ao mesmo tempo tropeça em uma outra delicada questão: “Corre o risco de cair em um vácuo legislativo, em uma omissão do legislador, que entrega as normas à interpretação do jurista”, restituindo a questão ligada à família a um multiforme e confuso conceito desprovido de especificações. Com Mônica Maggioni o debate se desloca para a vertente da comunicação e para a centralidade que o tema da família veio assumindo na vida das pessoas. Como observa a jornalista, é clara a necessidade de não reduzir a questão a banais contraposições, na certeza de que “se há uma beleza da esfera do humano na qual estamos inseridos é a extrema complexidade, discordância e dificuldade de redução a poucos esquemas simples”.

A questão da família não pode ser reduzida, sublinha Mazzarella, às “banais categorias de ‘atraso’ e ‘avanço’, mas reporta-se à necessidade de uma renovação das evidências originárias”. E Carrón abre a sua colocação exatamente falando de crise como oportunidade: “Cada um pode ser chamado por esta crise a uma seriedade, a apurar a audição do coração para ver a qual direção ela está nos chamando”. Justamente a época que abate as antigas certezas se torna ocasião para voltar ao essencial. Não pode haver resposta à crise da família se não voltando à origem da questão, ou seja, recuperando aquele grito do coração capaz de perceber o Mistério, que toda relação entre duas pessoas introduz. “Na relação eu-tu está presente todo o mistério do ser: o que encontramos é o sinal de algo outro que nos é prometido”.

Somente do interior desta perspectiva mais ampla é possível compreender o papel do cristianismo neste grande debate: “Aquilo de que tudo é sinal pode ser encontrado. O Verbo se fez Carne. A pessoa de Cristo, pondo-a no centro da afetividade e da liberdade do homem, se coloca como a promessa feita carne”. Esta é a contribuição que a Igreja pode continuar a oferecer: não uma doutrina, mas o testemunho de um novo e renovado modo de viver os relacionamentos. Então, como o Papa Francisco declarou, a família não é um problema, mas uma ocasião capaz de despertar o eu.

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© Fraternità di Comunione e Liberazione para os textos de Luigi Giussani e Julián Carrón

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