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OS FATOS

100 dias de protestos

por Aliosha
7/7/2017 - Através da experiência e do juízo de Aliosha podemos seguir mais de perto a situação que se vive em um país mergulhado em violência e crise, onde os episódios mais trágicos se misturam com histórias corajosas de perdão

Já são cem dias de protestos; cem dias vendo como as pessoas saem às ruas para protestar, para pedir mudanças no governo. Cem dias vendo que o desejo de liberdade se faz cada dia maior, vendo que comunidades inteiras vão às ruas rezar o terço para pedir ao Criador que detenha a violência. Cem dias protestando para que haja democracia, justiça e para que cessem as violações ao direitos humanos. Cem dias vendo como os governantes permanecem indiferentes diante do sofrimento de um país inteiro.

Cem dias de protestos podem parecer muito, um exagero, algo sem sentido; mas para um venezuelano não é assim. Para um venezuelano passar cem dias protestando não é nada além de uma resposta justa, uma resposta justa a um governo que, em nome de uma ideologia, levou o país a uma situação terrível e desumana. Uma situação terrível e desumana, isto também pode parecer um exagero, sendo necessário explicar, ainda que de maneira muito geral, a dita situação.

A crise econômica que o país vive é das piores do mundo. As políticas intervencionistas do governo, principalmente os fortes controles dos preços e do tipo de câmbio, assim como a perseguição à propriedade privada e o uso ineficiente de recursos públicos provocaram o desmoronamento do sistema produtivo do país. Por outro lado, a queda dos preços do petróleo, recurso do qual a Venezuela obtém quase a totalidade de suas divisas, afetou muito a economia do país.

A conjunção de todos estes fatores faz com que quase um terço da população da Venezuela não possa comer três vezes ao dia. A escassez de alimentos é feroz, a tal ponto de dezenas de milhares de crianças abandonarem a escola para ir diariamente em busca de comida. Originou também uma escassez de medicamentos que chega a 90%, escassez que, entre outras coisas, é responsável pela perda da vida de 11.466 crianças menores de um ano nos hospitais do país em 2016. E fez do diabetes a terceira causa de morte entre a população. Uma escassez que faz com que todos nós, venezuelanos, soframos quando saímos para procurar um remédio, que faz as famílias se desesperarem enquanto vêm seus idosos morrerem por não conseguir medicamentos. Se tudo isto ainda fosse pouco, a Venezuela registra a inflação mais alta do mundo: 720% em 2016. Não é um exagero, é uma situação terrível e desumana.

Ainda, a situação social não é muito melhor. A violência é brutal, tanto é que o número de assassinatos na Venezuela de 2011 a 2016 foi de 150.000, o mesmo número de mortes durante a guerra do Iraque de 2003 a 2011. Apesar de a Venezuela não estar em guerra, o número de assassinatos é o mesmo de um país nestas condições. A sociedade está polarizada, há muito pouco espaço para o diálogo. Não é um exagero, é uma situação terrível e desumana.

Finalmente, a situação política é preocupante. Diante da crise, os governantes não fazem nada além de culpar aqueles que pensam de modo diferente, não fazem mais do que justificar por qual motivo a sua ideologia não trouxe prosperidade nem progresso para o país quando na realidade foi precisamente esta ideologia que nos trouxe a miséria que hoje nos envolve. Além disso, o governo bloqueou todos os mecanismos possíveis para uma saída democrática desta situação: em 2016 impediu, ilegalmente, o referendo revocatório, não levou a cabo os acordos resultantes do processo de diálogo com a oposição ocorrido no final de 2016 e desabilitou o parlamento do país que tem maioria da oposição. Há alguns dias o presidente da Venezuela afirmou: “se a revolução bolivariana fosse destruída, iríamos ao combate, nós jamais nos renderíamos. E o que não foi possível com os votos o faremos com as armas”. O que não foi possível com os votos o faremos com as armas, assim são os governantes do meu país, assim é a política no meu país. Não é um exagero, é uma situação terrível e desumana.

Pois bem, quando se há tantas mortes como numa guerra, quando os idosos morrem por que não há remédios, quando as crianças deixam de estudar para tentar encontrar comida e a resposta do presidente é “O que não foi possível com os votos o faremos com as armas”, então é justo levantar a voz, é justo ser dissidente e opor-se ao governo, então se compreende por que o povo passou cem dias protestando.

Nestes cem dias a repressão do governo tem sido brutal, nós venezuelanos temos visto muitas atrocidades, são muitos e repetidos dias lendo “outro jovem morto enquanto protestava”. Doeu-nos muito quando vimos que Armando Cañizales, jovem de dezessete anos que tocava viola numa das tantas orquestras que existem na Venezuela, morreu no dia 3 de maio em consequência de um disparo em sua cabeça. Armando nunca mais voltaria a tocar viola. Também ficamos desalentados ao ver o assassinato de David Vallenilla, enquanto protestava em 22 de junho, pelas mãos de um militar. O vídeo é cruel e desumano, revoltante e terrível. O militar está a uma distância de dois metros de David, que está completamente indefeso, o militar aponta a sua escopeta e dispara. David cai por terra, o militar atira outras duas vezes e vai embora. David morre. Ficamos com muita raiva ao ver que em muitas ocasiões os militares entraram disparando com armas de fogo em diversas universidades do país. Observamos impotentes em 12 de maio o governo reprimir com gás de pimenta idosos que caminhavam com suas bengalas. Vimos muitas atrocidades.

É preciso, porém, ter um olhar atento, não devemos deixar que a tristeza e o incomodo tirem a nitidez do nosso juízo, não é justo dizer que só ocorreram atrocidades. Não é verdade por que esta situação revelou o pior dos venezuelanos mas também o melhor.

Também revelou o melhor porque, um dia depois do assassinato de David, sua mãe disse publicamente, com lágrimas nos olhos que perdoava os assassinos de seu filho: a mãe de David deixou claro que o perdão é mais forte que o ódio, que o perdão se impõe à violência, que o caminho não é a vingança. Também revelou o melhor porque quando os colegas de Armando souberam de sua morte decidiram não responder com violência, e decidiram seguir outro caminho. No dia seguinte, nas ruas de várias cidades venezuelanas, estavam milhares de jovens cantando e tocando música como resposta ao assassinato de Armando. De fato um destes jovens afirmou: “eles nos enviam a morte, nos respondemos com música”. Estes jovens nos demonstraram que para combater um monstro não é necessário tornar-se um. Também revelou o melhor, porque poucos dias depois da morte de Armando, sua mãe estava num protesto e, ali, foi descoberto um paramilitar do governo infiltrado. Os manifestantes queriam amedrontar o paramilitar mas a mãe de Armando se dirigiu à ele, mais alterado, e disse: “você está diante da mãe de um destes mortos e não vai fazer nada de errado. Nada fora da lei. Você vai continuar deste lado da história!” Em seguida, o manifestante caiu em prantos e abraçou à mãe. Este paramilitar pode ter sido o assassino de seu filho. Ela impediu que o machucassem. A mãe de Armando nos testemunha que o perdão é uma postura mais razoável que a vingança. Também revelou o melhor porque vizinhos que não se falavam há mais de vinte anos agora se reúnem todas as noites para rezar e pedir por um país melhor, pedir pelos responsáveis da situação atual do país. Também revelou o melhor porque olhando mais atentamente à realidade se compreende que a história da Venezuela não é a história da violência, mas a história do perdão e do amor. A história das pessoas que trabalharam juntas contra a obra do totalitarismo.

Já são cem dias, cem dias vendo como do drama surgem histórias belíssimas, vendo como o coração do homem é capaz de manter-se firme nas piores situações. Não se tem certeza do que acontecerá no próximo mês, se o governo conseguirá estabilidade continuando com a ditadura no país, não sabemos se depois deste governo virá outro com a pretensão imbecil de instaurar outra ideologia melhor; ou que seja capaz de resolver os problemas da população. Não sabemos quantos mortos mais haverão e quando terminará a violência. O que sim ficou claro, nestes cem dias de protestos, é que na Venezuela existe uma infinidade de homens e mulheres que não querem seguir a via da violência, pessoas como a mãe do David que tem a coragem de perdoar mesmo quando estão tomadas pela dor. Pessoas como os colegas de Armando, que diante da violência respondem com sua vocação. Pois bem, não façamos parte dos radicais que existem em cada grupo. Estes radicais que atraem toda a atenção da mídia no quotidiano. Façamos todos parte desta infinidade de homens que perdoam, amam e trabalham silenciosamente para que, lentamente, e com alegria, construamos uma comunidade viva e alegre, que demonstre que o caminho razoável não é o da vingança, mas o do diálogo.

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