Vai para os conteúdos
Logo Tracce
Compartilhar no Facebook   Compartilhar no Twitter   Compartilhar no Linkedin   MySpace

OS FATOS

“Está acontecendo em Dublin”

por Paolo Perego
14/1/2011 - IRLANDA
A sala do Royal College durante o encontro.
A sala do Royal College durante o encontro.

A mostra de Flannery O’Connor, divulgada a muitos desconhecidos. Depois, a apresentação de “O Senso Religioso” em um diálogo entre o arcebispo de Dublin, padre Carrón e um jornalista. Do “bairro dos intelectuais”, crônica de um encontro que nasceu “para dizer a todos Quem esperamos”

Dublin, 5 de janeiro. “Mas como? Mesmo com todos os compromissos que você tem, veio esta noite?”, lhe perguntam assim que entra. “E o que é mais importante do que aquilo que vai acontecer esta noite?”, responde Diarmuid Martin, Arcebispo de Dublin, enquanto sobe ao palco do auditório do Royal College of Physicians, uma das construções mais importantes da capital, a dois passos do Parlamento. Os companheiros de mesa do Arcebispo serão John Waters, editor do Irish Times e padre Julián Carrón, responsável do Movimento Comunhão e Libertação, que organizou o evento. O encontro se intitula “Em Busca do Rosto do Homem” e tem como tema “O Senso Religioso”, um livro que é a pedra angular do pensamento de Dom Giussani.
Cem pessoas na plateia, muitas delas “vindas quase por acaso”, explica Mauro Biondi, responsável pela Comunidade da Irlanda. “O encontro faz parte de uma iniciativa mais ampla que organizamos, a partir de uma ideia de John, como um gesto público para o Natal. “No Advento, devemos dizer a todos Quem esperamos”, diz. Foi um desafio que colocou todos em movimento”. Chamaram a iniciativa de Happening, mas não de Dublin: Happening in Dublin, está acontecendo em Dublin. “Aqui e agora”, frisa Margaret, a esposa de Mauro.
Uma ideia que nasceu com a intenção de levar à cidade, de 26 de dezembro a 12 de janeiro, a Mostra apresentada no Meeting de Rímini sobre a escritora Flannery O’Connor, e expô-la em uma galeria de Temple Bar, um bairro radical chic de Dublin frequentado pelos intelectuais, “onde nunca nos permitiram fazer nada: ‘Este não é um lugar para vocês, católicios’, nos diziam”, explica Mauro. As pessoas passam, entram, visitam a Mostra com um guia. “Para todos aqueles que paravam era realmente um acontecimento: exatamente um happening”.
Nim, uma estudante de Taiwan, depois da explicação de Annie, uma das curadoras da Mostra, norte-americana que veio à Irlanda especialmente para a ocasião, voltou para visitar a Mostra novamente no dia seguinte. E no outro. E no outro. Há também a história de um casal, ele estudante de Teologia em Harvard, nos Estados Unidos, e ela canadense: trocaram duas palavras com os guias e receberam o convite para o encontro sobre O Senso Religioso.
Nos dias anteriores ao evento, foi feita uma panfletagem no bairro, fora das igrejas. “Foi daí que vieram as cem pessoas. Tocadas pelo panfleto, pela Mostra, por duas palavras trocadas por acaso...”, continua Mauro, pensando naqueles rostos no auditório do Royal College: “Todos estavam atentos escutando desde a primeira palavra de Margaret, que abriu o encontro explicando a atualidade e a universalidade de um texto que nasceu e foi escrito em um contexto histórico e geográfico preciso, como a Itália, cada vez mais presa pelo niilismo e pela secularização dos anos sessenta”. “Não é um livro novo”, disse Margaret: “No entanto, hoje como nunca, fala à nossa sociedade, por causa daquilo que passou e que está passando, do escândalo da pedofilia à crise econômica cada vez mais grave”.
O primeiro a responder foi o Arcebispo Martin, que, partindo exatamente das dificuldades da Igreja irlandesa, falou do fator educativo como primeiro ponto de recomeço e de esperança para o país: ‘O problema principal diz respeito exatamente a quem deve educar’”, porque não basta introduzir o catecismo nas escolas, como se pretende fazer. “É verdade”, replica John Waters: “Porque a educação é um relacionamento, um verdadeiro e próprio encontro entre liberdade, razão e tradição. E isso tem a ver com a crise, inclusive econômica. Porque não estamos diante de uma crise que foi jogada em nossos ombros só por causa de fatores ‘externos’: a confiança, a esperança foram abaladas. E isso tem a ver com a esfera religiosa”.
Carrón também retomou o tema e descreveu a trajetória do coração do homem, e o fez aprofundando a natureza do senso religioso, documentada a partir da experiência humana do gênio. Citou Platão, Leopardi, Shakespeare. E chegou a colocar a hipótese da revelação. Depois, Margaret provocou Waters e Carrón: “Como vocês, que vêm de experiências tão diferentes... Você, John, tem um passado muito distante daquilo que estamos dizendo e, no entanto, todo o seu último livro está impregnado de O Senso Religioso, de Dom Giussani...”. “Na escola, me ensinavam que para entrar em relacionamento com Deus seria necessário apenas seguir seus mandamentos”, respondeu o jornalista: “Encontrando Dom Giussani, entendi que para entrar em relacionamento com o Mistério é necessária a realidade e todo o meu eu. E mais ainda, no encontro com ele, o meu eu me foi restituído. Se um dia eu enlouquecer e andar por aí dizendo que não acredito, que sou ateu... façam-me ficar quieto e me digam: ‘É uma mentira. Porque você é feito, é criado, é dado’”. E para você, Carrón? O que lhe faltava? No fundo, você já vivia uma experiência de fé...”, perguntou Margaret. “Quando comecei a dar aulas percebi que não acontecia nada com os meninos, com os colegas. Muitos suportavam a situação. Outros iam embora assim que podiam. Mas as duas coisas não me satisfaziam, me incomodavam. Depois, aconteceu aquele encontro. E aqueles livros que me faziam companhia. E tudo começou a assumir um gosto diferente. É como se eu começasse a fazer uma vigem, levando apenas o meu coração”.
“Uau”, suspira Nim quando os três relatores terminam de falar. “Percebi que nunca compreendi nada sobre a fé”, diz o estudante de Harvard, relendo as folhas de anotações. “Estávamos todos comovidos com aquilo que tínhamos ouvido, aliás, com o que tínhamos visto acontecer diante de nossos olhos. Happening. Três homens que não têm nada a ver um com o outro, no entanto atraídos, fascinados, mudados pela mesma coisa: Cristo. E não só eles. Veja Nim, por exemplo...”, diz Mauro. “Para nós, foi uma ocasião. Seguir aquilo que acontecia. Estar presentes. Um desafio do qual provavelmente ainda não vimos quais serão todas as consequências, mas com certeza, este é o caminho, o método que permite gozar realmente da realidade. Qualquer realidade, mesmo as coisas ruins que acontecem: pedofilia, crise... São ocasiões. E nos vemos dizendo: “It’s happening, here”. Uau!

 
 

Credits / © Sociedade Litterae Communionis Av. Nª Sra de Copacabana 420, Sbl 208, Copacabana, Rio de Janeiro - RJ
© Fraternità di Comunione e Liberazione para os textos de Luigi Giussani e Julián Carrón

Volta ao início da página